Curva Belíssima
19
Ago

2013

Calma malta, era o Arouca

Por Luís Pires

 

O primeiro post da temporada a sério, após o primeiro jogo “a doer”, com o Arouca, devia ter sido escrito antes. Estava pensado para ontem, logo após o apito final do árbitro, estava até combinado com a equipa do 11para11 que assim fosse. Não foi. De forma propositada, por convicção, achei melhor esperar pelo dia seguinte, para ver in loco a reacção de alguns amigos sportinguistas e, mais ainda, dos jornais.

E lá está: o Sporting fez o melhor arranque da liga desde 1985; há 60 e tal anos que um reforço não se estreava pelo SCP com um hat-trick; este leão é um caso sério; atenção Benfica, que o rival da segunda circular está bem e recomenda-se.

Perante esta onda de “somos os maiores” (no caso dos adeptos) e de “são os maiores” (no caso dos jornais), é preciso esclarecer uma coisa: CALMA MALTA, ERA O AROUCA!

 

O Sporting conseguiu uma boa exibição, uma boa vitória, uma excelente entrada no campeonato. E o resultado, ao contrário do que afirmou Leonardo Jardim, nem sequer é exagerado para aquilo que se passou. O treinador leonino sabe-o, porque viu o mesmo jogo que todos nós e sabe muito mais de bola do que nós.  Mas achou (e bem) que era melhor acalmar os ânimos e contrariar o habitual “embandeirar em arco” que acontece para os lados de Alvalade quando as coisas correm bem.

É que nós, sportinguistas, somos os adeptos mais bipolares que existem. Basta ganharmos um jogo para sermos campeões do mundo e perder um para chorarmos pelos cantos, quais calimeros injustiçados sem forças para dar a volta por cima.

E ontem o Sporting ganhou e foi muito (mas mesmo muito) superior no conjunto dos 90 minutos, é verdade. Mas também é verdade que o início do jogo foi tremido e, até ao golo do Maurício (novo golo de cabeça de bola parada, querem ver que é desta que o Sporting passa a criar perigo nos cantos?), a equipa estava nervosa.

Deu a volta por cima e começou a jogar bom futebol com a saída do Magrão (quem?) e a entrada do André Martins (moldem bem o puto, por favor, que é o próximo 10 da selecção). E, pela primeira vez em muito tempo, o facto de estar a perder não fez mossa por aí além. Nem aos adeptos, que continuaram confiantes e a apoiar (que diferença para as últimas épocas), nem à equipa, que continuou serena e confiante nas suas capacidades.

Escrevi aqui que tinha medo da reacção desta equipa a jogos em que começasse a perder com equipas mais fracas, que depois se fechassem lá atrás. Ontem tive uma primeira resposta muito positiva. Não será assim em todos os jogos, claro, mas pelo menos fica-se com a certeza que a garra está lá e que os miúdos irão sempre “dar o litro” para dar a volta.

Mas – e sem querer desvalorizar o adversário -, o Sporting teve pela frente o Arouca. Vinha motivado da subida de divisão, com alguns bons jogadores, mas é o Arouca. Mais: é o Arouca treinado pelo Pedro Emanuel (pá, digam-lhe que não é treinador), a jogar em Alvalade.

 

E o Sporting só teve um jogo mais calmo precisamente por isso. Até porque a defesa continua a não inspirar confiança. O Jefferson é reforço. Mas o Cédric não tem estaleca para ser titular e a dupla de centrais não é propriamente segura. O Rojo ontem jogou bem e o Maurício até fez o golo do empate. Mas, juntos, tiveram algumas desconcentrações que podem ser fatais em jogos com equipas melhores. Nem precisa de ser com o Porto ou o Benfica, um Guimarães já é suficiente para fazer tremer aquela defesa. E a sério, alguém explique ao Cédric o significado da expressão “apertado mete fora”.

O segundo jogo do Sporting no campeonato vai ser muito importante para a equipa. Os leões vão a Coimbra, antes de defrontarem, na terceira jornada, o Benfica. Se os putos ganharem à Académica, podem receber o Benfica com a confiança de quem está a fazer o seu trabalho. E uma derrota com o velho rival, ainda que doa mais, até é mais fácil de desculpar. Já um mau resultado no próximo jogo pode fazer renascer o fantasma da bola que queima nos pés. A ver vamos...

 

Notas: O Montero é jogador. Nem é pelos três golos, porque o Karadaş também se estrou no Benfica com dois e cheguei a ver o Bueno fazer um poker. É mesmo pela técnica, pela capacidade de segurar a bola, pela calma e pela frieza em frente à baliza. Está longe de ser um Falcao ou um Jackson, mas o Sporting também não tem poderio financeiro para tal. Dentro das limitações do clube, temos um bom avançado. O Adrien está a jogar molhadas. É o patrão do meio-campo, sem dúvida. Talvez por estar mais confiante no papel que lhe é dado pelo Leonardo Jardim, talvez pelo facto de saber que ou se afirma este ano ou já não se afirma, o facto é que está a jogar como nunca jogou. E com uma garra… O William Carvalho não fica cá muito tempo. Adeus Rinaudo, gostamos muito de ti, mas não chegas aos calcanhares deste puto. Forte, alto e esclarecido como poucos, está em todo o lado a destruir e constrói com uma calma que dá gosto. Sabe sempre onde estão os adversários e os colegas. O passe de ruptura ontem para o Wilson Eduardo (que culminou com o primeiro golo do Montero) é um miminho. 

 

PS – Um elogio às claques. É bom ver a Juve Leo, a Torcida e o Directivo todos juntos, a cantar a uma só voz, tendo enterrado de vez os machados de uma guerra que era estúpida e prejudicial. Ontem, a “curva belíssima”, onde estão as três claques, arrepiou. Alvalade tem agora uma bancada, a sul, que parece saída de um estádio inglês. Esperemos que dure.