Curva Belíssima
16
Ago

2013

A sobrevivência do leão(zinho)

Por Luís Pires


É um erro em que todos os adeptos caem: ainda a época não começou e já se está a sonhar com o que vai correr bem, a apostar naqueles que vão ser os melhores jogadores do campeonato e a desdenhar jogadores que, recém-chegados, parecem toscos, apesar de ainda não terem tido oportunidade de mostrar o que valem. A isto os treinadores de bancada chamam perspectivar a próxima época.

É que a pré-época, já se sabe, serve para duas coisas: 1 – o treinador preparar o plantel e planear a época que se avizinha; 2 – os adeptos conhecerem os novos jogadores do plantel e sonharem com a época que se avizinha.


É assim todos os anos, em todos os clubes. No caso do Sporting, porém, nos últimos anos, desde que Paulo Bento saiu, os sonhos têm sido pesadelos. Milhões gastos em pseudo-estrelas que há muito deixaram de brilhar (algumas nunca sequer brilharam) e mudanças sucessivas nas equipas técnicas têm sido a constante das últimas quatro épocas leoninas.

E aqui começa a primeira grande diferença do Sporting desta época: tem, finalmente, um treinador. Nem vale a pena discutir se é bom ou mau (aqui por estes lados acredita-se que o rapaz percebe da coisa), basta dizer que É um treinador. Algo que o Sporting não tem desde a saída de Bento. Houve um tipo simpático mas sem estaleca (Carvalhal), um forcado (Paulo Sérgio), um aprendiz (Domingos), houve até um líder de claque chamado Sá Pinto. Um senhor que, apesar de o seu currículo se resumir a uma taça de Portugal e um murro no Artur Jorge, se tornou (vá-se la saber...) num símbolo do Sporting.

A passagem de Jesualdo Ferreira pelo clube no final da época passada é suficiente para demonstrar a falta que faz um treinador. O professor nem é um treinador de elite. Mas é um treinador. E foi o único que conseguiu que os resistentes que no final da época ainda iam ao estádio vissem um qualquer vislumbre de futebol.

Ora, Leonardo Jardim também é um treinador. E até percebe mais desta coisa do futebol moderno. Em todas as equipas por onde passou, deixou marca. E no ano passado só não fez mais no Olympiacos porque teimou em deixar marca em outros sítios que não a equipa (talvez seja por isso que Bruno de Carvalho quer estar sempre perto da equipa técnica este ano). Mantendo os pés – os seus, os dos jogadores e os dos adeptos – assentes na terra, tem condições para tirar o clube da miséria em que se encontra.

 

A outra grande diferença do Sporting 13/14 é o próprio plantel. Vão-se os grandes salários – ou está-se a trabalhar nesse sentido, pelo menos, que os cepos são muitos e ninguém os quer -, esquecem-se as contratações de pseudo-estrelas só porque sim e aposta-se nos jovens da casa. Poderia ser uma aposta arriscada, se o clube não viesse de onde vem. É que o SCP está na lama. Pior do que se fez no ano passado, onde se gastaram milhões, é impossível. E os putos têm uma coisa que nos últimos anos não se viu em Alvalade: têm tesão, têm fome de bola.

A pré-época que terminou no Domingo, com a vitória por 3-0 face à Fiorentina, deixa boas indicações e ilustra bem o que é este novo Sporting: uma equipa de putos – Gerson Magrão é o jogador mais velho, com 28 anos -, bem orientada, com vontade de se mostrar, que joga simples – a espaços, até joga bonito – e está identificada com o clube.

Claro que não é tudo cor-de-rosa. Houve transferências que não se percebem: porquê mandar embora um miúdo talentoso como o Arias, que já era do clube, para dois dias depois se ir gastar dinheiro noutro lateral-direito?! Além disso, o Sporting mostra fragilidades próprias de uma equipa cheia de miúdos (na defesa ainda há muito a trabalhar) que, é mais do que certo, quando forem à Luz e ao Dragão vão entrar em campo com as cuecas castanhas. E os jogos contra equipas fechadas lá atrás, que consigam marcar o primeiro golo no contra-ataque, vão ser difíceis de virar, porque para isso é preciso aliar maturidade à garra. Mas, com os pés assentes na terra, sem objectivos irrealistas, o Sporting pode fazer este ano mais do que dele se espera.

 

E esta é, aliás, a terceira (e que pode ser determinante) diferença desta época. Ninguém espera absolutamente nada deste Sporting. Nada! Dando de barato que a manutenção está assegurada à partida, tudo o que vier além disso é bónus. Para uma equipa de putos, nada melhor do que partir como outsider, sem grande pressão a não ser aquela que é inerente a vestir uma camisola tão histórica como a leonina. Pode ser determinante, até pela comunhão com os adeptos. Comunhão essa que, como se tem visto, parece estar de regresso. Não só porque é mais fácil perdoar-se uma falha a um miúdo das escolas, mas também porque qualquer adepto com bom senso sabe que não pode exigir muita coisa a esta equipa, a não ser que jogue futebol, deixe tudo em campo e honre a camisola.

 

E aqui começa o primeiro e maior receio desta época. É que adepto que é adepto não tem bom senso. E, no caso do Sporting, a coisa ainda é pior: o clube padece de um mal desde há muitos anos, conhecido como o “adepto lagarto”. O adepto lagarto é diferente do adepto leonino. O adepto lagarto pediu a cabeça de Paulo Bento, exigiu a subida do líder de claque a treinador, entrou em agonia com a pré-época do Benfica campeão com Di Maria, Ramires e David Luiz, e festejou a derrota do Benfica no campeonato e na taça no Marquês de Pombal, num ano em que ficou em sétimo lugar. Esse adepto lagarto, que é um dos grandes obstáculos à luta do clube para sair do buraco onde se enfiou, está espalhado um pouco por todo o país, à espreita. Tem um olho em Alvalade e outro na Luz para, ao primeiro vislumbre de que o Benfica está melhor que o Sporting, sair da toca, reclamar mundos e fundos, exigir a cabeça do treinador e mudança no rumo que está a ser seguido.

Ao adepto lagarto, fica a mensagem: escusa de olhar para a Luz. O Benfica está e vai continuar melhor do que o Sporting. Vai lutar com o Porto pelo campeonato, naquela que é desde há muito e cada vez mais uma luta a dois. O Sporting tem outra luta: sobreviver. Voltar a jogar futebol e sobreviver. É por esse objectivo que tem de se lutar. É desse objectivo que tem de se lembrar sempre que se perguntar “porque é que não fico em casa?”.