Curva Belíssima
30
Out

2013

A derrota de David

Por Luís Pires

 

 

Não tinha grandes ilusões. Quando os dois laterais da equipa adversária custam, juntos, mais do que todo o plantel do Sporting, as probabilidades pendem para o outro lado. Mesmo assim, há sempre aquela secreta esperança, não verbalizada, do “pode ser que dê”...

Não deu. O Porto é mais forte, mais organizado, mais equipa, com mais disponibilidades financeiras. Por tudo isto, o Porto é, nesta altura, incomparavelmente melhor. Não só melhor do que o Sporting, mas melhor do que todas as equipas do campeonato, Benfica incluído.

 

O jogo foi uma ilustração disso mesmo. A jogar em casa, os azuis entraram a matar, a pressionar alto, e os jogadores do Sporting esqueceram as palestras da semana e petrificaram. Foram conseguindo aguentar a ofensiva portista, mas sem conseguirem sair a jogar (uma das imagens de marca deste leão de Leonardo Jardim). Foi angustiante ver os jogadores do Sporting com a bola a queimar nos pés, chutando-a de qualquer maneira para a frente cada vez que a tinham em sua posse. 

Depois, do nada, veio o penalty. Quer dizer, não aparece do nada, aparece de um defesa que não tem classe para a terceira divisão. Desde a pré-epoca que é notório que o Maurício é mau. Já o afirmei várias vezes, já me contestaram várias vezes, até já me disseram que não temos melhor. Mas temos. Qualquer um dos dois putos – o Dier e o Rúben Semedo – são mais jogadores que o Maurício que, repito o que já disse, é uma nódoa.

Qualquer defesa, mesmo dos distritais, via que o Alex Sandro ia chegar primeiro à bola. Tal como via que, mesmo chegando primeiro, o jogador do Porto teria de dar um toque para o lado, caso o defesa mantivesse a posição, deixando-o lá chegar mas ficando à frente dele, e a bola sairia pela linha de fundo. Foi o que aconteceu. A bola saiu pela linha de fundo, mas a entrada inexplicável do Maurício deu asneira.

O resto da primeira parte foi fraco de ambos os lados, mas sobretudo do Sporting, que nada fez para inverter o resultado. Na segunda parte, depois da pressão inicial, o leão lá pegou um pouco no jogo. Não foi muito tempo, mas foi o suficiente para empatar. E aqui entra outro erro inexplicável.

 

Nenhuma equipa, por fraca que seja – e este Sporting não o é –, ou por muito bom que seja o adversário – e este Porto também não o é -, se pode dar ao luxo de sofrer um golo dois minutos depois de empatar um jogo. E muito menos daquela forma.

Os comentadores televisivos com orgasmos mentais quando vêem o Porto que fiquem com a sua ideia da “grande jogada do Danilo”. Para mim, resume-se a um erro crasso do Rojo. O Danilo nem faz uma finta, puxa a bola para o lado. A obrigação do Rojo era acompanhar o movimento do jogador e da bola, mantendo-se à frente dele. Não é desculpável que um defesa que custou 5,4 milhões de euros estenda a perna daquela maneira e fique no chão.

Mesmo abalado e sem conseguir criar jogo, o Sporting lá conseguiu chegar à baliza do Porto outra vez. Estava lá o Helton. A defesa ao cabeceamento do Montero é fenomenal e a defesa ao remate do Piris também é muito boa. Acontece, é um grande guarda-redes, a sorte não esteve do nosso lado nesses lances.

Depois o Porto, como equipa mais segura e experiente, aguenta e mata o jogo. Mas em mais um golo que mete raiva. O Cédric não tem pernas para o Jackson, o Maurício sai da posição à toa e o Rojo não pode permitir nunca que um jogador como o Varela, mais baixo e que não é um grande cabeceador, lhe ganhe uma bola de cabeça nas costas.

 

O Sporting fez um mau jogo. Não merecia ganhar e ficou bastante aquém do que tem vindo a mostrar esta época. Mas o jogo perde-se pelos centrais. São maus. Não prestam.

O Maurício então não tem desculpa de estar a jogar. Sempre defendi que o Leonardo Jardim devia ter apostado desde o início numa dupla com os putos ou, pelo menos, com um dos putos e o Rojo. Mas não é agora. Era no início, quando jogámos com equipas mais fracas e os putos tinham margem para começar a ganhar estaleca, podendo errar num ou noutro lance sem comprometer a equipa. Foi essa a margem que se deu ao Maurício que, de resto, vem falhando em todos os jogos. Contra equipas fracas as falhas que tem a meio dos jogos conseguem não fazer mossa, contra uma equipa como o Porto são fatais.

 

Acredito que o Sporting vai reagir. E, sem querer fazer o papel de velho do Restelo, acho que a capa do Record no dia seguinte acerta na mouche (e elogiar um jornal desportivo português é coisa para me tirar anos de vida): “Cair na real”.

É que por momentos houve quem se esquecesse do que é este Sporting. E, curiosamente, nem foram tantos os adeptos, que têm estado muito mais racionais e equilibrados do que se poderia pensar. Foi a estrutura do Sporting.

No início da época, a direcção e toda a estrutura leonina adoptaram a pose correcta: nós não nos metemos com ninguém, vamos fazer o nosso trabalho sem tirar os pés da terra e logo se vê, o importante é fazer renascer o Sporting. Ganhamos uns quantos jogos e jogamos melhor do que o esperado e o cérebro começa a virar e começa-se a disparar contra tudo e todos numa fúria animalesca e a falar-se em ganhar campeonatos e cenas afins.

Embora assentar os pés na terra outra vez?

 

PS – O Carrilho não jogava em nenhuma equipa minha. É angustiante a falta de vontade do gajo em jogar à bola. Nunca vi ninguém tão amorfo. Irra, que até o Cardozo e o Ola John têm mais agressividade a jogar. Devia ter vindo a correr atrás do autocarro até Lisboa. 

 

PS2 – Impressionante, impensável e para lá de condenável o que se passou nas imediações do Estádio e mesmo lá dentro. As cenas de violência que as televisões teimam em continuar a mostrar fazem questionar se esta merda não devia já ter acabado há uns anos valentes. Há quem diga que foram subgrupos de claques do Sporting a provocar, há quem diga que foram adeptos do Porto disfarçados, numa tentativa de prejudicar o Sporting. Tendo em conta a mesquinhez que reina lá para cima, a inteligência do Papa, a guerra a que Bruno Carvalho não virou costas e o facto de esses subgrupos não existirem (até porque o único que existe tem 99% dos elementos na prisão), tendo a acreditar na última hipótese. Mas não é isso que está em causa. O que está em causa é irradiar de vez este tipo de coisas. Porra, que se os ingleses conseguiram reduzir o hooliganismo a uns quantos animais insignificantes que volta e meia fazem merda nós também devíamos ser capazes de acabar com isto. Não foram identificados? Então que sejam presos, sejam lá eles quem forem e de onde forem. E quanto às provocações constantes de adeptos, stewards e demais trabalhadores do Dragão aos adeptos leoninos, é inqualificável que a liga, a federação e mesmo as autoridades policiais não reajam a este tipo de coisas. Não devia ser possível haver a lei normal e a lei do Porto, que só vigora lá em cima. Num país a sério, isto não devia acontecer. Mas lá está, num país a sério, há outras coisas, do mundo do futebol e não só, que teriam tido consequências...