Confiança Azul
23
Mar

2014

Cansaço e carácter

Por Tomé Moreira

 

Nada assume mais importância numa equipa de futebol do que o carácter demonstrado em campo, já que dele surgem o coração, a entrega, a solidariedade... em suma, a equipa.

A história do Porto mostra que esta lição está bem presente, mas esta equipa precisava de o viver em campo. Esta semana foi por isso, crucial.

 

O cansaço no Sporting

Na semana passada referi que considerava o campeonato perdido defendendo que o embate com o Sporting não era, por isso, muito importante desportivamente. Já animicamente, podia ser crucial. Também referi anteriormente que Luís Castro foi praticamente obrigado a selecionar um 11 para estes jogos iniciais. A maior parte desses jogadores já eram anteriormente crónicos titulares e isso significa desgaste.

Sobre o jogo, pouco a dizer. Fez-se o que se pôde e enquanto houve pernas. Não nos podemos esquecer que 3 dias antes a equipa tinha tido um jogo muito exigente. Na minha opinião, o Porto desta altura dificilmente perde contra este Sporting de 2 ou 3 jogadores. Mas correu tudo mal e não me parece demasiado crítico se, por acaso, perdermos o 2º lugar. Se vier o play-off da Liga dos Campeões e a época tiver que começar mais cedo, que seja.

 

Carácter em Nápoles

Tudo era diferente na Liga Europa. Da forma como eu vejo as coisas, era ganhar ânimo para um possível bom resto de época ou terminá-la em agonia. Mais uma vez, as condições não eram as ideais e um golo é anulável de um momento para o outro.

A grande questão? Resolver as 2 maiores baixas no sector mais problemático, o sector-chave neste jogo. A forma que o treinador encontrou tinha riscos, mas riscos teriam quaisquer outras opções. Solução: uma adaptação apenas mas que passou por transformar um extremo direito num defesa esquerdo... 4 jogadores, 2 praticamente novos... numa defesa em que o mais velho tem 23 anos... à frente de um guarda-redes habitualmente suplente... frente a uma equipa com uma frente de luxo... Chega para assustar?

O Nápoles sabia de tudo isto e tratou de tentar aproveitá-lo: abusaram nas bolas nas costas do Ricardo que inicialmente parecia que estava noutro planeta; Reyes também. Mangala percebeu e tentava ir a todas. Danilo também. Fernando tapava buracos. Defour parecia uma barata tonta e corria para todo o lado. Carlos Eduardo... nem isso.

Por incrível que pareça, quem desequilibrava mais a equipa era o meio-campo, mas muito fruto de ocorrer a uma defesa meio em pânico e também por culpa de um Carlos Eduardo de pantufas que não cumpria. Isto agravado por estarmos a jogar em inferioridade no meio campo (4x4x2 vs 4x3x3). Na frente, Jackson não jogava, a bola não chegava. Varela tentava ajudar a fechar o corredor, mas sempre que tinha bola à frente, ela não durava muito nos seus pés.

É realista dizer que, à meia hora de jogo, as coisas podiam estar muito negras. Perdíamos por 1-0 e o Benítez ajudava refreando o jogo. Respirávamos e Luís magicava uma solução para a segunda parte. Percebeu que o meio campo já não ía lá com gritos e precisava de verticalidade, tirou um jogador que pouco mais que ganhar umas bolas altas tinha feito e lançou a garra de Josué que percebeu a oportunidade que havia ganho e fez o melhor jogo da época! Percebeu que precisávamos de colocar o Nápoles em sentido e lançou a nossa mais rápida arma. Fernando (claro está), viu a possibilidade e remeteu-lhe um passe na altura e medida certas e devolveu tranquilidade à equipa e ganhou-nos a eliminatória. A defesa nunca mais pareceu a mesma. A classe de Quaresma fez o resto.

 

Este desfecho lançou o Porto para um resto de época prometedor. Ao contrário do habitual, o Porto até pode usar o campeonato para rodar e focar-se nas eliminatórias onde pode discutir 3 troféus. Controlar o Estoril não deverá ser complicado, apanhar o Sporting não é assim tão relevante. Uma época diferente ainda assim, interessante.

Venha o Sevilha e o Benfica para as taças.