Área Técnica
26
Set

2013

O ideal e o necessário

Por Alberto Carvalho

 

Para muitos, a felicidade manifesta-se quando o ideal e o real se cruzam, embora na maior parte das vezes, o ideal e o real sejam duas linhas paralelas que só se cruzam no infinito. Mas o que será que a realidade exige ? O necessário ou o ideal? O surgimento de Fejsa no 11 do Benfica, pode ser um bom ponto de partida para a resposta a esta questão.

A concepção de jogo sob o ponto de vista ofensivo da equipa encarnada assenta numa posse de bola em progressão, com o rápido transporte desta da zona de recuperação em direcção à baliza adversária, com o envolvimento dos defesas laterais, movimentos em profundidade ou interiores dos médios laterais em coordenação com um dos avançados ou com o médio que actua nas costas deste, conforme o dispositivo táctico adoptado. É um processo (que tenta ser) altamente dinâmico e de grande objectividade, desenrolando-se quase sempre em grande velocidade, por vezes quase vertiginosa.

 

Nesta realidade, para a posição #6 (pivot, médio defensivo, médio central mais recuado, etc.), tendo em consideração a posse em progressão, exige-se um jogador que consiga assegurar a qualidade da saída de bola no primeiro passe após recuperação da posse ou na ligação entre os defesas e os restantes médios no primeiro momento de construção do ataque. Neste sentido, a existência de um #6 com forte capacidade construtiva não se fará sentir com a mesma preponderância que se verificaria num modelo de jogo ofensivo assente numa posse de bola com uma circulação mais elaborada.

O que o modelo de jogo de Jorge Jesus exige na realidade para a posição #6 - para além da já referida qualidade no primeiro passe, algo que Javi García tinha dificuldade em exibir quando pressionado e que Matic oferecia e ainda sobrava - é acima de tudo um médio equilibrador, que ocupe os espaços por onde a equipa adversária pode empreender as suas ações ofensivas, nomeadamente de contra-ataque e ataque rápido, e que nesse momento de transição defesa-ataque do adversário, o possa pressionar para que os colegas, principalmente os outros médios, se (re)posicionem.

 

O ideal seria ter alguém nessa posição, que fosse simultaneamente equilibrador e construtor. Não sendo possível, o que a realidade exige, o que é necessário para a equipa, mais do que um construtor, é de um equilibrador. Alguém que carregue o material, que assegure as condições, para que outros possam então construir.

 

Alberto Carvalho é um Treinador de Futebol que colabora regularmente com o 11para11. Escreve desde 2007 no "Bola Mesmo Redonda" e debruça-se sobre todas as vertentes do Beautiful Game.