Área Técnica
14
Mai

2013

Irracionalidade Emocional

Por Alberto Carvalho

 

A previsibilidade é um elemento, factor presente no futebol, mas é a imprevisibilidade que o torna especial! E quando esta surge no seu expoente máximo, as emoções de quem acompanha o jogo também atingem esse patamar.

 
Na dimensão previsível, racional, o técnico do F.C. Porto, afirmou saber como o Benfica ia jogar, procurando interferir na dimensão emocional do adversário. Mas esta afirmação pode também ser vista como um elogio, reconhecendo a existência de identidade no adversário, manifestada por um padrão de jogo, conferida pela qualidade do treino. O que, diga-se, foi reconhecido no fim do jogo. Por outro lado, se nesta altura do campeonato ainda houvesse desconhecimento do adversário directo, algo estaria errado na estrutura portista.
 
Previsivelmente, o Porto foi a equipa com mais posse de bola, privilegiando a circulação de bola e o ataque posicional. Pressionou mais alto que o Benfica, que jogou com o bloco médio baixo, procurando proteger as costas da sua linha defensiva em relação às movimentações de Jackson e simultaneamente controlar o adversário fechando os espaços na zona de criação. Ao mesmo tempo deixava avançar o bloco portista para depois o ultrapassar, com a posse de progressão e vertical que caracteriza o seu processo ofensivo, com Gaitán nas costas de Lima, para fazer essa ligação juntamente com os alas.
 
Estrategicamente, esta opção ficou condicionada com o recuo dos alas do Benfica para auxiliarem os seus laterais na acção defensiva, o que limitou a saída da equipa para o ataque, deixando muitas vezes Lima desapoiado, apesar de o Benfica a privilegiar a transição quase sempre em apoio, através de um passe curto, garantindo a segurança da posse nesse momento, em detrimento da transição em progressão, mais directa, suportada pelo passe longo. Em resposta o Porto, para além da pressão do trio do meio campo à perda da posse de bola, procurou ter sempre largura no ataque, conferida por Varela numa das alas e pelo defesa lateral do lado oposto, procurando o desposicionamento do adversário com a sua posse de circulação.
 
Dentro do previsível, do treino, as duas melhores equipas do campeonato distinguem-se principalmente pela forma como gerem a posse de bola. A equipa de Jesus assume a posse em progressão, com grande objectividade, sentido de baliza, através de acelerações sucessivas. Com esta opção, a equipa procura acima de tudo ultrapassar, superar o adversário, impondo um ritmo de jogo elevado, dominando o jogo mas não o adversário. Esta é a opção do Porto, com a sua posse de circulação.
 
No domínio da imprevisibilidade, a gestão das emoções, nomeadamente a reacção às opções estratégicas montadas pelo adversário, como por exemplo o lançamento de linha lateral que deu origem ao golo do Benfica e que antes deste momento foi ensaiado em mais que uma ocasião, ou a reacção à adversidade ou o controlo da euforia, é um aspecto tão importante como a dimensão estratégica e táctica, embora menos controlável mas igualmente treinável.
 
Neste embate, quer antes quer durante o jogo, o Porto, escudado pelo seu hábito de vencer, foi gerindo melhor a adversidade do que o Benfica geriu a euforia. Os azuis e brancos apesar de estarem longe do topo da classificação nunca entregaram o primeiro lugar. Os encarnados estabeleceram como jogo decisivo o embate na Madeira. No entanto, este jogo, apesar de importante, não decidia nada, apenas os deixava mais perto de uma decisão favorável. O Benfica mais que ter perdido o jogo e a liderança do campeonato, perdeu também a oportunidade de lançar uma forte machada na cultura de vencer que a equipa do norte possui.
 
A decisão do jogo não decorre da dimensão estratégica, até porque cada equipa agarrou-se à sua identidade para gerir o jogo, embora o Porto o tenha feito de forma mais vincada. O que aconteceu é o que faz do Futebol o maior fenómeno sócio-cultural do mundo. E não aconteceu só no sábado ou só em Portugal. Acontece onde há Futebol!
 
 
 
Alberto Carvalho é um Treinador de Futebol que colabora regularmente com o 11para11. Escreve desde 2007 no "Bola Mesmo Redonda" e debruça-se sobre todas as vertentes do Beautiful Game.