Área Técnica
07
Out

2013

Futebolista!

Por Alberto Carvalho

 

Nas décadas de 80 e 90 do século passado, ficaram famosas as incursões ofensivas do capitão azul-e-branco João Pinto, pelo corredor central, ocorrendo principalmente em momentos em que o resultado não era favorável ao clube portista. Há duas épocas atrás, o também defesa lateral direito, Maxi Pereira, nas suas invasões ao meio campo adversário também o fazia por dentro, embora com uma amplitude menor que o portista.

Se na génese da movimentação do homem com o coração só de uma cor estava o lado emocional do jogo/jogador, o mesmo já não se verificava com o jogador do Benfica. No entanto, as suas descidas pelo corredor central em nada se diferenciavam das efectuadas pelo corredor lateral. Procurava o desequilíbrio no adversário pela condução e em combinações directas, disponibilidade física, para ir e voltar, a par da noção do tempo de saída para o ataque. Apenas mudava o local onde tal se verificava.

 

Numa altura em que a filosofia de jogo de Guardiola começa a manifestar-se no Bayern München, surgem algumas inovações tácticas, onde a mais visível é a colocação de Lahm na posição #6, face às ausências de Alcántara e Javi Martínez, e em detrimento do recuo de Schweinsteiger. A acção ofensiva do defesa lateral esquerdo austríaco Alaba, é outro dos aspectos táticos que merece ser seguido.

O seu envolvimento no processo ofensivo prolonga-se muito para além das descidas ao meio campo adversário seja pelo corredor lateral ou pelo corredor central. Nessas incursões assumindo posições interiores, assume funções de médio, suportadas pela sua capacidade de ler o jogo, pela forma como ocupa o espaço, pela qualidade de passe, acelerando ou temporizando o jogo, conforme as necessidades da equipa e as exigências do jogo.

A ocupação do espaço interior tal como um médio, acaba por não ser uma novidade para o jovem austríaco, uma vez que lidera o meio-campo da selecção do seu país. A inovação assenta no facto de que partindo da posição de defesa lateral esquerdo e ao envolver-se no processo ofensivo ocupa posições e desempenha funções diferentes da sua posição de origem.

A troca posicional por si só é um conceito oco. Esta só será significativa para a equipa se for acompanhada de uma troca funcional. Ou seja, o jogador na sequência da sua movimentação, ao assumir no dispositivo da equipa um posicionamento diferente da sua posição de origem, assume por inerência outra função, colocando nesse momento, ao dispor da equipa, os seus atributos que se adequam à posição/função entretanto assumida.

 

Tomemos como exemplo deste raciocínio a posição de defesa lateral. Quando se posiciona na zona próxima da sua área, na posição de defesa esquerdo, as funções que lhe são exigidas são completamente distintas das que deve manifestar quando se encontra próximo da área do adversário, onde se espera que seja capaz de fazer aquilo que normalmente os adversários lhe fazem. Ou seja, ser forte no 1x1 no último terço, eficaz nas combinações directas e ter qualidade de passe/cruzamento.

A sociedade estabelecida entre a concepção de jogo de Guardiola e as características de Alaba, permite que este se assuma como muito mais do que um defesa lateral. O conhecimento que possui do jogo e a inteligência com o que interpreta e antecipa soluções, confere-lhe a aptidão para operacionalizar a interligação entre os conceitos de jogador polivalente e jogador multifuncional. Ou seja, durante o jogo assume várias posições e dentro de cada uma é capaz de cumprir várias funções.

Esta condição, permite-lhe assumir-se como mais do que um jogador de futebol. Eleva-o à condição de especialista na arte do jogar.

Futebolista!