A Selecção
27
Mar

2013

Zé Gancha #10

Por José Miranda

 

Chegou-me à atenção, através de um daqueles mails entre amigos acerca de bola, que tinha havido "molhada e da grossa" em Moimenta da Beira na recepção dos locais ao Castro Daire, 2º e 3º classificados do respectivo campeonato separados apenas por um ponto. O e-mail apenas dizia "Isto sim é futebol!" e trazia um belo de um link para um prometedor clip. Chegados à página do Reco-Reco, somos imediatamente "convidados" a passar para o minuto 7:20, até porque já (praticamente) ninguém tem tempo para ver 10 minutos de futebol das distritais. Passei com toda a tranquilidade para o minuto 7:20 em que consegui ver um falhanço da marca de penalty, o final do jogo e o estalar de uma zaragata à antiga nos 20 segundos seguintes. Devido às inúmeras cenas deste género que já todos presenciámos ao longo dos anos, e o exemplo que passa de cima para baixo tem o seu reflexo aqui, é-nos fácil perceber que o Moimenta são os "azuis" e o Castro Daire os "amarelos" mas não consegui entender como é que isto escalou até aqui pelo que fui obrigado a ver tudo do início.

No início, apresentação da sporTViseu com melhor aspecto do que algumas coisas que temos visto nos últimos tempos (o grafismo, ou falta dele, que vimos na passada 6ª ao almoço na estupenda exibição da Selecção em Israel fez lembrar a versão "Memória" da Estação), com direito a 11's iniciais e tudo. Lances de perigo. Golos com direito a repetição. Microfone razoavelmente perto de um locutor local e demasiadamente perto de alguns adeptos que sabem o dicionário todo. Filmagem ao nível da SportTV com demasiadas falhas de enquadramento mas percebe-se que as condições não seria as ideiais. Pormenores a reter:

- Relvado bem encharcado, mesmo assim com melhor aspecto que o de Alvalade

- Os dois guarda-redes gostam de largar bolas para a frente, à Artur

- O radialista que acha que esses lances são "muito perigosos" ao invés de todos os cruzamentos para a área, que são meramente "perigosos"

- Algum futebol de qualidade, jogado ao primeiro toque

- Muito bico para cima dos "azuis"

- Aquele auto-golo clássico

- O público, sempre irritadíssimo com as decisões do juíz da partida

- Molhada e da grossa

 

Quanto ao sururu, o que discerni foi que os que estão na pequena área envolveram-se naquelas discussões do "agarrem-me", o "amarelo" na marca de penalty dá um toque por trás num "azul" que parece que é baleado e fica no chão imediatamente a pedir acção disciplinar, o que veio a originar um "agarrem-me" ainda maior já com o juíz a retirar jogadores do molho. Apesar disso foi o pequenote do Castro Daire que aqueceu ainda mais os ânimos. Começou por injuriar o árbitro e até vinha direito ao balneário até ter decidido ir injuriar um adversário e dar-lhe um sopapo, só para não se ir embora de mãos a abanar. A partir daí, descambou...

 

No entanto, há um detalhe que sei que me vai ficar na memória. Um daqueles momentos raros no futebol, mas que no fundo, e por muita piada que esta mini-batalha campal possa ter, é aquilo que normalmente nos fica na memória e também aquilo que nos leva aos estádios com regularidade. Ao minuto 4:45 do resumo, o Castro Daire começa uma jogada ao primeiro toque pela canhota até levar a bola para junto à bandeirola. Depois de uma péssima tentativa de finta e consequente perca de bola e depois de um também péssimo segundo toque e consequente perca de bola, a dita regressa ao Castro Daire que a faz circular para o lado direito da meia-lua até chegar a Zé Gancha. E é aqui que o momento acontece. Direito-esquerdo, para desviar de um oponente e congelar outro, o ajeitar com a bola colada ao pé e no final um "Poborsky" que deixou o guarda-redes do Moimenta a imitar o saudoso Vitor Baia, mestre Jedi a desviar bolas com o poder da mente. Não se ficando por aqui, Zé Gancha continuou a revelar dotes só pertença dos grandes jogadores ludibriando ainda todos os colegas que tentaram festejar com ele, só para chegar à bancada adversária, mostrar o emblema que representa e terminar de costas, braços ao alto e polegares virados para baixo destacando o número que enverga.

 

E é aqui que reside a beleza inerente a este jogo. Independentemente do palco (Municipal Eduardo Requeijo Alves) e do nível (Divisão de Honra de Viveu) existe sempre a possibilidade de alguém em qualquer momento tomar uma decisão num piscar de olhos que resulta num instante de pura arte. Mais vezes do que não, costuma ser um número 10. E neste caso, apesar da envolvência ser diferente daquelas a que estamos habituados, a importância relativa do jogo, 3º em casa do 2º com líder a 3 pontos de distância e jogo empatado já a meio da 2ª parte, a hostilidade dos adeptos caseiros são tudo factores contextuais transversais que normalmente trazem ao de cima o 10 que há em cada equipa. O Castro Daire acabou por perder este jogo mas Zé Gancha, à semelhança de Diegos, Zicos, Robertos, Decos, Pablos e tantos outros pelo mundo fora, fez aquilo que dele era esperado. Pelo menos para o adepto que nunca o viu jogar mas que desde logo ao vê-lo com aquela barriguinha indisfarçável, a responsabilidade de bater penalties e a camisola mítica espera que num determinado ponto do jogo consiga fazer a diferença. E como alguém disse:

 

"Isto sim é futebol"