A Selecção
22
Jun

2014

WC2014 - Dia P de Portugal

Por José Miranda

 

Começa daqui a nada o segundo jogo de Portugal no Campeonato do Mundo.  Faltam cerca de três quartos de hora para ouvirmos o nosso Hino. Esse é sempre o momento que nos lança para os noventa minutos de futebol que se seguem.

Hoje Portugal tem a continuidade na prova em risco. Uma derrota mete o Cristiano no primeiro avião para Madrid. Um empate mantém o sonho vivo e ainda nos permite ir de calculadora na mão para a última jornada. Porém, a vitória coloca-nos numa posição em que dependeremos apenas de nós para continuarmos com a ilusão de ganhar esta Copa.

O Paulo já escolheu os onze portugueses que vão tentar levar a carta a Garcia, e sabia de antemão que este também era um tipping point para ele. Sempre esperei que a teimosia que sempre mostrou, uma qualidade que reconheço como necessária num líder, a capacidade para acreditar nas suas ideias e nas suas certeza, contra tudo e contra todos, viesse ao de cima. Hoje, e como sempre até agora, o Paulo colocou o seu 11 em campo, ou a versão mais aproximada dele que conseguiu arranjar.

Daqui de longe, do outro lado do Atlântico, é fácil dizer tudo e mais alguma coisa sobre as escolhas do Paulo, sobretudo quando é a posteriori e depois de se saber o resultado final. É por isso que escrevo estas palavras antes do início do jogo. Para que fique registado que não concordo com as mesmas.

Uma das qualidades que também reconheço num líder é a capacidade para implementar a mudança, quando acha necessário, quando quer agitar as águas, quando quer dar vida à sua equipa. Aparentemente tal não é necessário. Não sou eu que trabalho com os jogadores todos os dias, não sou eu que estou por dentro do seu estado físico ou anímico. O Paulo é que está e ele é que sabe.

Estamos tão fortes como sempre e nada se alterou no plano traçado, aquele que nos leva para além desta fase de grupos e nos coloca em posição de chegarmos até ao fim, até ao Maracaná, para o nosso Bola d'Ouro levantar o caneco. E se o Paulo acredita nisso, eu também acredito.

Espero que ele continue a ter razão. Como até aqui.

 

Acabo com as notas perdidas dos jogos que ficaram para trás e sobre os quais ainda não me tinha manifestado. Só para se entreterem até ao início do jogo.

 

Dia 6 | ALG 1 - 2 BEL

Vimos uma Bélgica tímida e lenta, a ser logo supreendida no primeiro contra-ataque sério da Argélia onde Verthongen fez um penalty parvo. A primeira bola que meteram na área para Fellaini, que só jogou os últimos 25', deu golo. Ironia das ironias, os belgas acabaram por resolver no contra-ataque, num passe genial de Hazard que é mais de meio golo. Os argelinos mostraram competência e numa das poucas vezes que deram espaço ao pequeno génio do Chelsea acabaram por fazer ruir uma estratégia muito bem montada para gáudio dos belgas que não fizeram o suficiente para justificar os 3 pontos.

 

Dia 6 | KOR 1 - 1 RUS

Um jogo que ficou encalhado entre a disciplina táctica de ambas as equipas. Capello manteve o braço-de-ferro com Kerzhakov, relegando-o para o banco. Logo a seguir ao enorme frango de Akinfeev, o treinador com o vencimento mais elevado a nível mundial teve que ceder e lançar o experiente striker. 3' bastaram para nivelar o marcador e remeter o jogo para o marasmo verificado até ao golo coreano. Duas equipas com muito a provar nos segundos jogos.

 

Dia 6 | BRA 0 - 0 MEX

O melhor 0-0 que vi nos últimos tempos. Ochoa foi a figura de uma partida em que foi uma injustiça para os adeptos de ambos os lados não poderem ter festejado qualquer golo. Destaque para uma defesa do outro mundo, a fazer lembrar a de Gordon Banks. O Brasil mostrou as mesmas debilidades na construção que a Croácia já tinha evidenciado. Do outro lado o México provou que com mais algum espaço é uma equipa muito perigosa no contra-ataque e até dominou grande parte do segundo tempo.

 

Dia 7 | AUS 2 - 3 NED

Aquilo que se previa um passeio para os holandeses revelou-se um jogo muito interessante devido ao espírito lutador dos incansáveis australianos. Os Socceroos reagiram de imediato ao golo de Robben com um volley estrondoso de Cahill. Daí até se apanharem na liderança bastou um penalty infeliz dos holandeses. Robin van Persie reestabeleceu a normalidade e mais um pato no Mundial chegou para os laranjas selarem a vitória e o apuramento. Mesmo assim deu para receber um e-mail com a dica: "Há sempre um momento em que a Holanda parece ser capaz de vencer um Mundial".

 

Dia 7 | CHI 2 - 0 ESP

Num dos jogos mais antecipados da primeira fase, os chilenos e o seu estilo suicida de futebol expuseram novamente as fraquezas de um Tiki Taka em fim de ciclo. Diego Costa limitou-se a atrapalhar o futebol rendilhado dos hispânicos da Europa e o desgaste físico e falta de garra dos restantes companheiros não ajudou por aí além. Casillas volta a estar ligado à derrota espanhola enquanto o Zé se ria em casa. Os chilenos, depois de uma exibição pálida na primeira jornada, mostraram ao mundo porque são uma das selecções mais temidas em prova.


Dia 7 | CMR 0 - 4 CRO

Os dois derrotados do Grupo A encontravam-se num jogo decisivo para as suas aspirações, sobretudo depois do BRA-MEX. Olić marcou cedo e os Leões Indomáveis demoraram a entrar no jogo. O seu descalabro começou aos 40', quando uma das suas estrelas decidiu agredir Mandžukić nas barbas do árbitro, num momento de raiva à Luis Suárez. O 2-0 a abrir o segundo tempo acelerou os africanos até ao abismo, tendo culminado o jogo com mais um momento de descontrolo quando Assou-Ekotto deu uma daquelas à Cais Sodré num colega da defesa. 

Um dado estatístico: 3 vermelhos directos até agora, todos com ligação a Portugal. Maxi a tirar "desforço", Pepe a ser Pepe e Proença a espetar o amarelo na cara do Song e ainda a meter-lhe o braço ao lado da cara para indicar o caminho dos balneários.

 

Dia 8 | CIV 1 - 2 COL

A Colômbia comprovou todo o seu favoritismo com mais uma exibição de futebol criativo, alegre e muito solto. Pekerman mexeu algumas peças ainda a tentar arranjar a melhor combinação na frente sem Falcao mas a equipa é carregada pela verticalidade de James e Cuadrado. Quintero entrou ao intervalo e deu um ar de uma graça que teve poucas oportunidades no Porto, só para ajudar à festa. Do lado dos marfinenses, parece que só se joga quando Drogba entra e Yaya assume a posição 8. Só que desta vez o adversário era mais forte e já não foi a tempo.

 

Dia 8 | ENG 1 - 2 URU

Um dos melhores jogos até agora. Os ingleses continuam a ser uma das equipas mais infelizes na história dos Mundiais, acontecendo-lhes de tudo. Aquele falhanço do Wayne é impressionante. Do outro lado, Luis Suárez. Sem ele o Uruguai estava destinado a não passar este grupo, mesmo com Cavani. Com o "Esquilo", é candidato a ganhar todos os jogos até à final. O avançado do Liverpool atravessa um momento espectacular na carreira e este pode ser o seu Mundial, mesmo com um jogo de atraso.

 

Dia 8 | GRE 0 - 0 JPN

Fernando Santos voltou a aplicar o mesmo plano que contra a Colômbia mas desta vez durante mais de 5 minutos. Conseguiu levá-lo até ao fim, jogando 50' com dez devido a uma bestialidade do seu Capitão, em mais um vermelho, desta vez não directo mas também com ligações a Portugal. Katso já foi o Rei da Colher mas o declínio das suas capcidades físicas esteve em alta naquele segundo amarelo. O Japão prescindiu do seu criativo, Kagawa, e usou e abusou do jogo aéreo. Contra os Gregos. Que ingénuos.

 

Dia 9 | CRC 1 - 0 ITA

Depois do Uruguai, a Costa Rica somou mais uma surpresa à história do WC2014. Mesmo sem um penalty claro a que o árbitro fez vista grossa, um cabeceamento de Ruiz foi suficiente para levar de vencida uma Itália apática e sem soluções. Depois do golo foi uma nulidade de ideias e de soluções que devem ter deixado Prandelli apreensivo. Os costa-riquenhos garantiram um apuramento histórico e daqui em diante o sonho comanda o caminho, pelo menos até perderem no primeiro jogo a eliminar.

 

Dia 9 | FRA 5 - 2 SUI

A França entrou a matar e o jogo pareceu resolvido cedo e um golo pouco antes do intervalo matou a pouca resistência suíca, em mais uma exibição neutra dos helvéticos. Muito fortes os franceses, com um meio-campo fisicamente imponente mas com qualidade técnica e táctica q.b. em todos os seus componentes, acabaram a sofrer dois golos perto do fim, já na descompressão e com Koscielny a trazer aquela defesa à Arsenal para os Bleus. Esta goleada serviu acima de tudo para confirmar a candidatura da França à Copa, tal o nível apresentado até aqui.

 

Dia 9 | ECU 2 - 1 HON

O final da noite de sexta-feira foi a hora da revelação de Enner Valencia. O Ecuador facilitou uma vez e as Honduras aproveitaram um ressalto para se colocarem na frente. Apontados por muitos como favoritos ao apuramento à frente da Suíça, os equatorianos precisaram da inspiração do ponta-de-lança do Pachuca para se manterem na luta. A solidez defensiva que mostraram nos últimos momentos mostra que aprenderam a lição da primeira jornada e agora terão pela frente uma França já praticamente apurada.

 

Dia 10 | ARG 1 - 0 IRI

Queiroz deu mais um show táctico com o seu Irão e a Argentina esteve a um lance de génio de Messi de sair de Curitiba com um empate. Os sul-americanos não jogaram nada, outra vez, e os melhores lances do jogo são quase todos dos iranianos que ainda viram Romero safar um golo numa defesa complicadíssima. O nosso ex-seleccionador atirou-se logo ao árbitro, a atribuiu parte da culpa na derrota, e a Ronaldo, ao elogiar Messi logo no flash. Espero que o nosso Capitão tenha visto.

 

Dia 10 | GER 2 - 2 GHA

E a poderosa Alemanha ia perdendo. Num jogo que nunca esteve controlado, o ataque veloz, incansável e incessável dos africanos colocou os alemães de pé atrás e mostrou uma série de lacunas naquele quarteto defensivo. Foi preciso sacar de um ás da manga, Klose, para marcar numa bola parada e manter o controlo do grupo por parte dos europeus. O Gana mostrou novamente porque é uma das melhores selecções africanas e também porque não ganha nada desde 1982.

 

Dia 10 | BIH 0 - 1 NGR

Uma das desilusões até agora, a Bósnia e Herzegovina é mais uma selecção europeia que já está a tirar a roupa dos armários no hotel. Apáticos e sem fogo, podem até queixar-se de um golo mal anulado a Džeko, mas a sua passividade acabou por ser a nota dominante das suas exibições. Os campeões africanos mostraram uma frente de ataque devastadora, sempre com pilhas e com o poder físico de Emenike a pedir outros voos para além do campeonato turco.