A Selecção
26
Jun

2014

WC2014 - Dia F de Final

Por José Miranda

 

Termina hoje a nossa participação no Mundial 2014.

Antes que comecem a utilizar adjectivos como "velho do Restelo" ou "anti-patriótico", quero deixar claro que acredito na possibilidade de um bom resultado frente ao Gana, um até que em circunstância normais nos daria o apuramento. Já vi demasiadas equipas africanas desligarem a meio do jogo quando já não conseguem ver a luz ao fundo do túnel e levaram cabazes míticos. Assisti a Angola a desperdiçar quatro (4!!!) golos de vantagem em 15 minutos numa CAN, acabando a empatar o jogo. Os Camarões autodestruíram-se contra a Croácia da mesma forma e acabaram à porrada entre si, dentro de campo e antes do jogo acabar. Hoje contra o Gana estes continuam a ser cenários em jogo.

 

Sim, eu sei que não jogámos nada até agora. O Paulo já passou de "teimoso" a "obtuso" e com um pouco de azar ainda vai acabar no "estúpido". Os vinte e três que seleccionou têm caído que nem tordos, algo que coloca em cheque o próprio Paulo e o departamento médico da Federação, pois entre estes alguém teve que tomar decisões relativamente à quantidade de gás que cada jogador ainda tinha para dar no Mundial. Tacticamente, fez um "Queiroz" contra os EUA, com o André e depois o Miguel a fazerem de Capucho, e tal como o seu antecessor já fez saber à FPF que está disposto a sair mas apenas com os bolsos cheios. Pelo menos foi assim que eu interpretei a frase "Aconteça o que acontecer, não me demitido do cargo de seleccionador". 

Os jogadores também só tiveram 10 minutos de empenho e de abnegação em terras de Vera Cruz, onde parecemos o Portugal que já fomos. Mas foi só isso. 10 minutos. Muitos estão uma sombra do que já os vimos fazer, uns por cansaço, outros por velhice, outros sabe-se lá porquê. Parecemos desligados e desinteressados. Sem garra e sem vontade, como que a fazer um frete. Às vezes até parece que a convocatória foi por recruta obrigatória e que não existiam mais portugueses interessados em ir dar o litro pelas Quinas. E este problema de falta de atitude não é do Paulo, é individual, pessoal e cada um responde por si. Tenho a certeza que aquele emblema que fica do lado contrário ao da Nike seria o suficiente para motivar qualquer um de nós, que os 900 euros de diária convenceriam os restantes.

Agora não vamos tapar o sol com a peneira e achar que somos a maior potência mundial ou que o nosso ranking na FIFA faz sentido. Uma defesa que apresenta o Alberto, o João, o Ricardo, o Bruno e o André está logo à partida limitada. Um meio-campo onde os jogadores têm todos o mesmo perfil, físico, técnico e táctico também não ajuda a diversificar o nosso jogo. O nosso fio de jogo é completamente manietado pela necessidade de muitos em jogarem para o Cristiano, tanto que paramos contra-ataques e toda a circulação de bola só para fazer chegar à bola ao nosso astro. Vicissitudes de quem tem um dos dois melhores jogadores do mundo.

 

Mas apesar de tudo isto, hoje temos ainda a hipótese de dar um ar da nossa graça, de não voltarmos de mãos a abanar, sem uma vitória, sem uma pequena alegria. O golo do Silvestre, mais do que uma massagem cardíaca que nos reavivou no momento, serviu como um coma induzido no qual fomos colocados até hoje. A fasquia colocada para o nosso apuramento é tão elevada que só mesmo os mais fanáticos acreditam que é possível vencermos pelos números necessários. Não me considero um fanático mas acho que a nossa eliminação nunca passará por quantos golos marcamos ao Gana.

Neste momento penso que fomos eliminados porque os outros foram superiores, na forma como geriram os seus jogos, as incidências dos mesmos e os seus plantéis. Se por ventura acabarmos por não o ser, não vou passar a achar que passámos por sorte. Nessa eventualidade, só uma clara falha estratégica de germanos e americanos poderá justificar a nossa passagem - ou a do Gana, algo que meti completamente de lado à partida.

Não vou ser ingénuo para me lançar daqui a pouco na visualização do mais que provável nosso último jogo no Brasil '14 a acreditar que do outro lado tanto alemães como americanos vão fazer os possíveis e os impossíveis para ganhar. Já vejo futebol à tempo suficiente para saber que Alemanha e EUA empatam garantidamente.

Apesar de ter esta percepção dos jogos de hoje bem embutida em mim, assim de cabeça só me consigo lembrar de dois exemplos de situações semelhantes: o mais recente até foi em Portugal, durante o Euro-2004 quando a collusion nórdica entre a Dinamarca e a Suécia deixou a Itália de fora mas o que ficou gravado na memória foi já há "muito" tempo atrás durante o Italia '90, onde Holanda e República da Irlanda deram um show tão grande de anti-jogo que a FIFA teve que alterar as regras, eliminando a possibilidade do guarda-redes agarrar a bola nos atrasos intencionais.

E para mim não vem nada de mal ao Mundo se esta "conspiração" Germano-Americana prevalecer. No fundo é o resultado mais seguro para ambos, aquele que automaticamente apura os dois conjuntos para a fase seguinte e os coloca fora de quaisquer cenários negativos. E acho perfeitamente compreensível que as duas selecções entrem nesse joguinho.

Se a sobrevivência é o que está em causa porque haveriam de se comportar de outra forma?