A Selecção
17
Jun

2014

WC2014 - Dia 5

Por José Miranda


Finalmente. Chegou segunda-feira, 16 de Junho de 2014, data em que começava o Mundial para nós. Sim, porque isto dos jogos dos outros é tudo muito bonito mas o nosso Mundial só tem 3 jogos marcados e são só esses que realmente nos interessam.

Por esse Portugal fora foram feitos planos de sair mais cedo do emprego, fazer uma pausa de duas horas às 17:00, empresas que instalaram ecrãs, pequenos ou gigantes, ao dispor dos seus funcionários, meteram-se dias de férias ou usaram-se folgas, tudo foi feito paa reservar aquelas duas horas para ver como começávamos mais uma tentativa de conquista da Copa do Mundo.

Sim, falo em ganhar o Campeonato do Mundo porque qualquer equipa que aponta aos oitavos-de-final como objectivo tem a vitória final como sonho. Ainda para mais uma equipa pejada de jogadores de clubes de topo dos melhores campeonatos da Europa. E sobretudo aquelas equipas que têm o actual Bola d'Ouro.

Como anunciei ontem tenho muito para dizer acerca da nossa estreia contra os germânicos pelo que vamos despachar já os outros jogos do dia e reservar espaço lá em baixo para aliviar a derrota de ontem.

 

Previsivelmente, o Nigéria-Irão foi o jogo mais enfadonho da Jornada 1. Se existisse uma bet disponível sobre qual seria o primeiro 0-0 do Mundial, este certamente teria das odds mais baixas.

As Super-Águias já não têm aquele perfume que os catapultou para o estrelato mundial, faltando-lhes jogadores realmente criativos do meio-campo para a frente. A perda desse tipo de artista, o jogador inconsciente que tenta o improvável, nas linhas de Okocha, Kanu e Finidi, ajudou os nigerianos a serem mais competitivos em África, tendo vencido a última CAN com base nesse novo pragmatismo táctico que assenta num meio-campo pouco audaz e em avançados poderosos.

Do outro lado o Irão, treinado por Carlos Queiroz. Quem acompanhou a carreira iraniana até ao WC2014 já tinha visto o actual modelo estratégico do campeonato português a ser utilizado com sucesso na qualificação asiática, até porque do outro lado do mundo futebolístico só vão sabendo aos poucos o que é o "0-0 ao intervalo" e o "jogar ao ataque, bem fechadinhos lá atrás". O Irão é considerado uma das piores selecções presentes no Brasil e Queiroz chegou determinado a provar o contrário, nem que seja com uma linha final do género "1 empate, 2 derrotas, 0 golos marcados, 3 sofridos". E se calhar ainda saía em ombros do avião no regresso a Teerão.

Naturalmente tive que trabalhar a introdução porque do jogo em si não há quase nada a dizer, tirando uma defesa impressionante de Enyeama num dos cantos que marcaram as oportunidades do Irão. A Nigéria não se ficou atrás e embora tenha tentado dar sempre um pouco mais de ritmo ao jogo nunca o conseguiu. Moses e Odemwingie, por exemplo, são jogadores que nos seus clubes necessitam de receber a bola em posição de ter sucesso e nos nigerianos não há ninguém para o fazer. Enfim, John Obi Mikel é o #10 e depois disso não há muito mais a acrescentar. Já o vejo no Brasileirão onde o gramado é alto e o ritmo é baixo.

No final, ninguém comprometeu nenhum tipo de aspirações, ambas as nações já levam pontos para casa, algo que nem todos os participantes podem dizer, mas nenhuma se tentou colocar numa posição de vantagem sobre a Bósnia arriscando um pouco mais na procura dos 3 pontos.

 

A fechar o dia o outro jogo do nosso grupo. Gana treinado por um Appiah que não é bem o que esperávamos e os EUA treinados por um Klinsmann que é exactamente o que esperávamos. Deixo-vos só o filme que a ESPN meteu no ar pouco antes do jogo começar. Só para estabelecer o mindset da malta do outro lado do lago.

Os ganeses deram logo aquele cheiro a CAN, levando um golo antes dos 30 segundos, com origem numa bola fora na última metade do seu meio-campo. Beasley, Jones e Dempsey combinaram pela esquerda com o ex-Fulham a precisar ainda de fintar, demasiado facilmente, um dos centrais do Gana antes de encostar para as redes. Sem palavras para a maciez e a "calma" com que os Black Stars entraram em campo.

Os africanos vacilaram com a idiotice cometida e os americanos conseguiram criar de imediato oportunidades que poderiam ter dilatado a vantagem. Aos 22 minutos Altidore rasgou um músculo a perseguir uma bola junto à linha e os EUA nunca mais voltaram a ser os mesmos. Muito criticado nos na "América", Altidore tem passado largos períodos sem marcar pela sua nação (quebrou um jejum desses num dos últimos jogos de preparação) mas a falta de soluções evidenciada com a entrada de Jóhannsson acabou por dar razão a Klinsmann em ser fiel ao jovem avançado do Sunderland. Daqui para a frente o Gana começou a apoderar-se do jogo e o 1-1 começou a parecer iminente com as várias oportunidades que foram sendo criadas.

Essa iminência agudizou-se na segunda parte, sobretudo depois da entrada de Boateng, poupado de início por dificuldades físicas. Apesar do controlo do jogo e do pendor ofensivo, os ganeses teimavam em só conseguir incomodar Howard com remates de fora de área, com excepção para uma cabeçada de Gyan. Mas água mole em pedra dura tanto bate até que fura e um dos filhos de Abedi "Pelé", o Andre, marcou uma trivela belíssima a culminar um toque de calcanhar soberbo de Gyan, que finalmente quebrou a resistência americana. Estava feito o empate. Os ganeses correram para dentro da baliza, atrás da bola, sabendo que os dez minutos restantes seriam suficientes para criarem mais possibilidades de golo. Os EUA estavam mais interessados em manter a igualdade e já no limite das suas forças resignavam-se a despachar bolas para cima.

Numa dessas bolas, displicentemente a tentar proteger a bola enquanto esta saía pela linha de fundo Mensah acabou por tocar na mesma e ceder um canto desnecessário. Desse canto nasceu o golo da vitória americana, com a marcação HxH a falhar desta vez. O Gana ainda se tentou reerguer mas o mudança no momentum do jogo acabou por retirar-lhes as forças e a lucidez e não conseguiram incomodar mais Howard. O jogo acabou com aquele sentimento de injustiça, que a equipa que melhor jogou e mais ocasiões teve e mais procurou a vitória acabou por sair derrotada. Não vou dizer que os EUA roubaram 3 pontos ao Gana, sobretudo porque os ganeses deixaram as portas de casa abertas, mas esta equipa de Klinsmann é muito pouco americana e muito consciente do que sabe e do que não sabe fazer.

 

Bom, então vamos lá. Portugal. Alemanha. Mais uma vez abrimos uma grande competição com os alemães e mais uma vez saímos vencidos. Depois do 1-0 do Euro12, saímos confiantes na mesma, derrotados mas com aquela clássica vitória moral de quem jogou mais mas foi infeliz nalguns momentos do jogo. Resultado dessa vitória moral: 0 pontos.

Ontem saímos de Salvador com os mesmos 0 pontos de 2012, que no fundo é o que interessa, mesmo sabendo que os -4 que levamos para os jogos com EUA e Gana limitam-nos algumas possibilidades estratégicas por causa dos desempates.

Para ser mais sucinto vou dividir isto por tópicos até para não me perder no número de pessoas com quem quero mandar vir.

 

O Jogo

Não teve história. Os alemães marcaram aos 12' de penalty. Nós falhámos alguns contra-ataques em igualdade ou superioridade númerica. Eles marcaram aos 32' de canto. Ficámos reduzidos a dez aos 37'. Eles marcaram nos descontos da primeira parte. Na segunda parte fizemos aquela tentativa discreta de ir lá marcar um e suavizar o resultado, tentando adiar um quarto o mais possível. Conseguimos isso até doze minutos do fim. Depois estava demasiado calor para se lutar mais.

Para mim foi um daqueles jogos em que as incidências são todas favoráveis a uma equipa e o resultado se vai construindo sozinho, resultando depois em "grandes" exibições. Um pouco à semelhança do PSG-Benfica deste ano. Mas desta vez o André só tem culpa num golo.

 

O Árbitro

Naturalmente também acho que o penalty sobre Götze podia não ter sido assinalado. Já vi lances semelhantes não o serem. Mas também já vi lances semelhantes serem-no. Não me escandaliza.

O mesmo para a expulsão. Já vi tantos critérios serem aplicados ao longo dos anos que qualquer uma das decisões cairia bem comigo. A linha que divide o encostar de cabeça da cabeçada é muito ténue e acho que nas cerca de setenta palavras que compõem as regras do International Board não diz nada acerca disso.

Agora, faz-me espécie que não tenha sido assinalado o penalty sobre Éder, que o critério para os contactos não tenha sido coerente e que até o trato com os jogadores reflicta isso.

Não vou entrar por teorias da conspiração, puxar pelo ângulo de David contra Golias, até porque isso é uma condição natural da vida, não só do futebol, e que é um reflexo da nossa humanidade mais pura em que naturalmente nos associamos aos mais fortes em detrimento dos mais fracos como forma de sobrevivência. O que me parece a mim é que mais uma vez ontem sofremos por sermos nós próprios. Portugueses.

Vamos ver o que os outros conhecem da nossa selecção: em '84 tínhamos quatro treinadores, um de cada grande e um para desempatar, em '86 os jogadores amotinaram-se e fizeram greve, em '00 perseguimos árbitro e fiscal de linha aos 120', em '02 um dos nossos meninos-de-ouro bateu no árbitro, já roubámos cartões vermelhos da mão do árbitro, já partimos balneários, já fizemos de tudo e mais alguma coisa. Além disso o nosso melhor jogador é reconhecido internacionalmente por ser um serial diver apesar de ser um dos melhores espécimes físicos que o Futebol alguma vez viu.

E quando aos 12' tivemos um pequenito rufia que se pendurou noutro pequenito dos germanos e os nossos centrais filhos de pais brasileiros e ainda o moicano se lançaram atrás do árbitro até este ter que dar um chega-para-lá num, acho que já perdemos a batalha.

Por mais imparcial que o árbitro estivesse até ali, quem já viu futebol suficiente sabia que as coisas já não seriam as mesmas daí para a frente. E enquanto não compreendermos que temos que mudar a nossa atitude antes de alguma vez nos podermos queixar da forma como somos tratados, isto continuará assim ou piorará. Não quero dizer que isto seja justo ou entregarmo-nos e deixarmos de lutar contra este tipo de tratamento mas a inevitabilidade da condição humana se sobrepor à razão jogará sempre contra nós enquanto não alterarmos a projecção de nós próprios.

Nas palavras do "Boss":

"On these streets, Charles,
You've got to understand the rules.
If an officer stops you,
Promise me you'll always be polite,
And that you'll never ever run away.
Promise Mama you'll keep your hands in sight."

Não querendo comparar situações incomparáveis, acho que podemos dizer que "morremos" por viver na nossa pele, tão portuguesa.

 

Os Jogadores

O Rui entrou logo nervoso e só não estávamos a perder aos sete minutos por acaso. Para quem já partilhou relvados com Hugo e Onyewu não percebo aquela agitação.

O João foi o João. Nem mais, nem menos. Não fez nada que me surpreendesse. Foi péssimo a defender o interior, acompanhou todas as diagonais até para lá da nossa linha de fora-de-jogo, fez um penalty quando tropeçou na relva e se pendurou na camisola de Götze para não cair. Enfim, o costume.

Ontem tivemos o Pepe mau. E se calhar começou tudo naquele passe para o Rui. Sei que ontem "malhei" no Wilson Palacios por causa daquela idiotice e já estou calado desde que vi o central da minha selecção fazer aquilo. Peço desculpa por ter enguiçado isto tudo.

Também tivemos o Bruno tímido. Aquele que corta bolas na classe e com o calcanhar, para sairmos a jogar, mesmo com menos um elemento. O Bruno que intimidou um puto espanhol de vinte anos no gelo de São Petersburgo tinha dado muito mais jeito ontem.

Um dos pontos altos foi o Fábio. Quando ele é o nosso defesa emocionalmente mais estável está tudo dito. Infelizmente, aquele suspiro nacional que se ouviu quando ele levantou a cabeça e agarrou a virilha confirmou-se hoje como um dos nossos piores pesadelos.

Para o seu lugar entrou o André, mais conhecido entre os adeptos do seu clube como "o André, o mau" e a quem eu carinhosamente chamo de John O'Shea, com tudo o que isso implica. Em vinte cincos minutos só teve culpa num golo. Foi um bom jogo para o André.

O cabelo do Miguel estava impecável. A tomada de decisões em contra-ataque nem por isso. Saiu ao intervalo porque precisávamos de defender mais e saiu para entrar um central o que menos podia contribuir.

Profissional é o adjectivo que escolho para a exibição do Ricardo. Entrar num jogo destes, para central, é uma das tarefas mais ingratas que existem mas o Ricardo não desperdiçou a oportunidade para mostrar serviço.

O João foi uma sombra do que já o vimos fazer. Não vi o suficiente do Monaco para entender porque foi considerado um flop, mas já vi muito futebol desta maçã podre para saber que em vez de passar ao lado pode comandar um jogo.

O Raul fez uma perninha a central durante oito minutos, para tentar aguentar aquilo até ao intervalo. Teve uma forma muito curiosa de mostrar ao Bruno Alves que ia jogar ao seu lado.

O Nani não joga à bola há muito tempo. Até teve uma em que não viu o Fábio. A importância de se jogar com regularidade não deve ser subestimada.

O Hugo não teve tempo suficiente para irritar ninguém. Lesionou-se numa não-falta do Hummels e perdemos o melhor bigode da Selecção desde o do Carlão.

O Éder foi lançado às feras, já com a equipa das Quinas a perder. Passados quatro minutos tínhamos dez em campo. E o Paulo já tinha tirado o Hugo. Teve que jogar até ao fim. E não desiludiu. Cabeceou uma bola a que só ele, dos nossos pontas, chegaria. Sacou um penalty e ainda lesionou o Hummels. Espero que o Paulo também tenha gostado.

 

O Cristiano

O nosso capitão foi também o nosso melhor jogador. Ou pelo menos, foi aquele que foi mais fiel a si próprio. Participou em todos os nossos ataques, lutou até ao fim e apesar de tudo nunca entrou naquele modo "tristiano" que às vezes tem.

Espero que ele tenha mandado um berrro ou dois no balneário, para ver se a malta abre a pestana. Não é assim que chegamos ao título, que o Cris é o melhor marcador e que a terceira Bola d'Ouro fica no papo.

 

O Paulo

Foi reagindo aos eventos do jogo. Tudo se processou depressa demais para podermos tirar qualquer tipo de ilacção mas até ao 2-0 parecíamos estar bem no jogo.

Não compreendi porque o Cristiano não ficou no balneário ao intervalo. Não compreendi porque não entrou o Luís para o centro e passou o Ricardo para a esquerda quando o Fábio se lesionou.

De resto, foi tudo dentro do previsto. Conforme o Paulo já nos habituou. Desde o anúncio dos vinte e três que digo a quem quer ouvir que o Miguel ia jogar de início e que o Hélder também. Enganei-me no Hélder, mas acho que se o jogo fosse contra uma das outras equipas teria sido ele a aposta de início. A não ser que não esteja realmente em condições e tenha ido só pelo espírito de equipa.

Para que fique claro, acho que nem o Miguel nem o Hélder deveriam jogar de início, mas sempre achei que essa seria a nossa melhor fórmula para o sucesso. Rendermo-nos à francesa contra os alemães, talvez até poupar o CR7 e manter a história da lesão a correr na imprensa, encostar o Miguel e o Hélder no processo e lançar o Wiliam e o Éder para dar um pouco de fogo a esta equipa no jogo seguinte. Perdíamos um jogo que provavelmente já iríamos perder e ninguém se chateava no processo.

Apesar da sobre-utilização do Cristiano, este plano ainda pode estar em execução, pelo que até se saberem os line-ups no Domingo, contra o adversário mais fraco (mas que ontem mostrou muito saber) fico-me por aqui...