A Selecção
16
Jun

2014

WC2014 - Dia 4

Por José Miranda

 

De rastos depois de Sábado, comecei cedo a formular teorias sobre o número máximo de jogos por dia, não tendo chegado a nenhuma conclusão. O dia não prometia muito, com dois jogos equilibrados mas sem grandes promessas de futebol do outro mundo, mesmo jogando um dos dois melhores jogadores da actualidade.

 

O primeiro jogo do dia acabou por ser o mais emotivo de todos. As opiniões sobre o favoritismo eram repartidas e o que acabámos por ver veio justificar essa divergência. O Ecuador entrou surpreendentemente forte, a tomar conta do jogo e a assumir as despesas iniciais. Num 4-­4-­2 clássico e prontos para jogar às 13.00 locais, não lhes foi complicado meter os helvéticos em apuros, até porque estes entraram em campo com limite de velocidade. Noboa dava cartas atrás e distribuía rapidamente jogo para as faixas onde Valencia e Montero imprimiam sempre velocidade ao jogo.

Inauguraram o marcador, de forma atípica e da qual nunca pensei que os suícos levassem um golo do equatorianos, à passagem da metade da primeira parte, num livre lateral magistralmente mal defendido, o exemplo clássico para os detractores das defesas à zona. Nesta altura o Ecuador começou a abrir o livro, os jogadores ganharam confiança e a Suiça esteve sempre no fio da navalha, embora Benaglio não tenha feito muitas defesas.

Os helvéticos foram sempre muito lentos, nunca se quiseram desposicionar nem arriscar o mínimo que fosse, Xhaka foi uma desilusão e só o calor brasileiro o obrigou a suar. Até os seus laterais, ultra-ofensivos nos seus clubes, se aventuraram muito pouco. Apesar de tudo isto, e confirmando o pragmatismo táctico do seu treinador, acabaram por ter os remates mais perigosos da primeira parte. Hitzfeld mexeu logo ao intervalo, trocando o amorfo Stocker por Mehmedi na tentativa de espevitar um pouco o ataque suíço e o recém­-entrado marcou na primeira vez que tocou na bola. Desta vez foi o Ecuador a defender soberbamente um canto do lado esquerdo. Os adeptos da marcação HxH foram abrir as garrafas de champagne nesse momento.

Ao contrário do que eu esperava os sul-­americanos não vacilaram com o infortúnio e lançaram­-se para cima dos Suíços. Geraram muita emoção mas produziram poucas chances. Enner Valencia, também conhecido como “o outro Valencia”, e Jefferson Montero foram os que mais se evidenciaram nessa tentativa, com destaque para o extremo que mostrou que trata a bola como poucos, sobretudo na recepção de bola onde apanhou inúmeros passes de Noboa e Valencia, o do United, e das mais variadas formas.

Com isto o jogo caminhava para o fim e estava à vista o primeiro empate do Mundial. O Ecuador ainda se lançou para a frente, não tendo em conta que este era o jogo em que era mais importante não perder do que ganhar. Ao minuto 92, em mais uma half chance em que acabaram por não rematar, Behrami recuperou a bola e foi ceifado a caminho de um contra-­ataque. Se fosse na Liga Portuguesa este jogo tinha acabado 1-­1 e com mais um amarelo. Como não é, Behrami não foi menino, caiu e levantou-se e seguiu com a bola e passados 15 segundos os suíços estavam a fazer um moche de equipa na bandeirola de canto. Game over.

Hitzfeld sabia o que queria deste jogo, nunca o escondeu e ainda teve direito a uma prenda no final que quase garante a qualificação. O Ecuador mostrou um futebol atractivo e argumentos suficientes para se bater de igual para igual e ainda se superiorizar à Suíça mas no fim é só a última equipa na história dos Mundiais que só se pode queixar da sua ingenuidade.

 

A fechar o grupo E, já era expectável que as Honduras dessem pouca luta a uma França em modo “Equipa” em vez de em modo “Ribéry+10”. O que não se esperava é que fosse o seu jogador mais experiente a nível clubístico, Wilson Palacios, a mandar tudo porta fora. Sim, os franceses já tinham duas bolas nos ferros e era uma questão de tempo até marcarem. Mas ainda tinham que marcar e fazer um penalty aos 45, que dá segundo amarelo e mata praticamente ali o jogo nem em campeonatos de amadores.

Para juntar o útil ao agradável, logo a abrir a segunda parte o guarda-­redes hondurenho tocou um remate de Benzema, que bateu no poste e ia a sair da zona de baliza, para o lado de dentro proporcionando à FIFA a oportunidade para usar pela primeira a tecnologia da linha de golo. A primeira vez, mas com sentido pois felizmente a organização das transmissões tem-­nos dado momentos brilhantes de confirmação de golos óbvios.

Dois minutos para confirmar, golo validado, jogo terminado. Um golo a fechar a primeira parte, com um vermelho pelo meio, e um golo a abrir dão cabo de qualquer equipa do mundo, sobretudo uma com os argumentos das Honduras e que tem como adversário uma França muito interessante. Depois foi só deixar correr o relógio e ver se Benzema conseguia mais golos.

 

Um pequeno aparte, e acerca de um assunto sobre o qual que não me quero alongar demasiado até porque hoje já ouvi alguém vilipendiar o mítico LFL por causa da expressão "táctica emocional" e compará-lo a Joaquim Rita (e estamos a falar de um fã do LFL dos primórdios). Estes dois jogos são marcados por erros emocionais em que jogadores se deixam levar pelas ocorrências do jogo e se esquecem do big picture.

O Ecuador dominou a primeira parte mas o perigo maior veio do lado da Suíça. Teve oportunidade de ganhar o jogo nos últimos instantes e acabou a perdê-lo. Independentemente do domínio francês no segundo jogo, este acabou marcado pela expulsão de Palacios. Até lá, esteve sempre 0-0, com maior ou menor dificuldade.

Numa altura em que metodologias de treinos são cada vez mais transversais, quer internamente quer globalmente, os aspectos emocionais, pessoais de cada jogador, têm cada vez maior importância na criação dos detalhes que muitas vezes decidem jogos de futebol. Aquilo que Palacios fez é um bom exemplo dessa luta entre a emoção e a razão.

Palacios não se coibiu de fazer o que fez e isso para mim é indesculpável. Não só por mim, adepto do beautiful game e a quem ele estragou 45 minutos de futebol mas sobretudo pelos outros 22 hondurenhos que foram consigo até ao Brasil, os 10 desses que levaram aquele empate até aos 45 minutos e que estavam dispostos a lutar mais 45 para levar qualquer coisa do jogo.

Um jogador com o seu historial deveria ter sempre presente a noção que ao cometer um penalty ali seria expulso pela certa e que isso sim, ao contrário do penalty que às vezes tem que ser ou que acontece, mataria as (poucas) chances da sua equipa. E esse é um aspecto que, na minha opinião, pode, deve e tem que ser trabalhado.

 

No final do dia, abrimos o grupo F com uma dupla estreia. No canto azul-celeste a selecção mais odiada no Brasil, a vizinha Argentina, e no canto azul a última nação da ex-­Jugoslávia a chegar a um Mundial, a Bósnia e Herzegovina. Antecipado como um jogo grande, as expectativas saíram­-nos goradas logo de início. A Bósnia renunciou à sua identidade e abdicou da dupla de pontas-­de-­lança que a tornou um dos melhores ataques da qualificação na zona europeia. A Argentina entrou com três centrais para lidar com uma dupla de avançados que nunca existiu e isso pareceu emperrar o seu jogo.

Os sul-americanos tiveram a sorte de na primeira vez que lá foram um bósnio ter desviado para dentro da baliza um cabeceamento torto de Rojo para a bandeirola de fundo. A Bósnia tentou reagir e acabou por conseguir criar algumas oportunidades de golo mas viu-se que faltava sempre algo ao seu jogo. Os jogadores olhavam para espaços vazios, pediam linhas de passe, paravam e jogavam para trás. O jogo seguiu morno até ao intervalo, com ambas as equipas meio perdidas em campo e sem conseguirem gerar qualquer tipo de continuidade nos seus processos.

Sabella não teve medo de admitir o erro e alterou logo ao intervalo. Colocou a maioria dos jogadores nas suas posições naturais, injectou qualidade de passe no ataque e meio-campo e o futebol argentino melhorou um pouco. A Bósnia continuava com as mesmas limitações e numa jogada que parecia inócua inicialmente, Messi tabelou com Higuain e marcou um golo à Messi, isto é sempre a correr para a esquerda, remate em arco que bate no poste e entra, e na jogada chocaram dois ou mais jogadores adversários entre si na tentativa de o derrubar.

Sušić sentiu-se finalmente obrigado a mudar qualquer coisa e lá meteu Ibišević. Este só precisou de 16 minutos para fazer balançar as redes e fez-nos pensar a todos sobre o que poderia ter sido este jogo se a Bósnia não tivesse abdicado da sua identidade com medo de uma Argentina aparentemente inofensiva. Os argentinos não estiveram mal no segundo tempo e quando a Bósnia se abriu na procura de golos tiveram algumas boas saídas para o contra-ataque mas é impossível tirar uma análise conclusiva sobre os alvi-celestes devido ao arnês táctico que a Bósnia colocou a si própria. 

 

Amanhã Portugal, sobre o qual tenho muito a dizer. Espero uma boa segunda parte no EUA-Gana. A ver se os americanos chegam ao fim com avançados saudáveis.