A Selecção
15
Jun

2014

WC2014 - Dia 3

Por José Miranda

 

Ainda não totalmente recomposto da tareia que a Espanha levou da Holanda lancei-me ao árduo desafio de Sábado, o único dia do Mundial com 4 jogos.

O menu abria com duas selecções de postura defensiva, mudava de grupo para um jogo fácil de abertura para o Uruguai e para o jogo grande do dia entre ex-campeões, ingleses e italianos, e voltava ao Grupo C para fechar já de madrugada a jornada com um duelo entre a força e a velocidade.

 

A aposta de que o Colômbia-Grécia seria o primeiro 0-0 da Copa caiu por terra logo aos 5 minutos, com uma arrancada de Cuadrado pela direita atrás de um passe longo, passando por uma simulação magistral de James (que não foi a melhor do dia sequer) e um remate enrolado de Armero em que Manolas podia ter feito bem melhor. Estava inaugurado o marcador e estava desfeita a estratégia defensiva dos gregos.

Mas afinal não. Fernando Santos já tinha começado por deixar de fora alguns jogadores considerados basilares, como Karagounis e Mitroglou, mas viu-se a perder e nada fez para alterar o rumo do jogo até ao intervalo. Veio na mesma para a segunda parte e no minuto antes de a vantagem ser ampliada estava a tirar um avançado para meter mais um médio, ainda que para a mesma posição. Não me parece que tenha menosprezado este jogo com a Colômbia mas fiquei desde o início com a sensação que os gregos nunca se comprometeram demasiado com este jogo, achando que estes três jogos da fase de Grupos são uma maratona e não um sprint.

Quanto à Colômbia, foi exactamente o que esperávamos dela. Compacta e disciplinada atrás, é muito forte nas transicções, assentando o transporte em Cuadrado e James maioritariamente e a criatividade destes dois foi suficiente para colocar sempre os gregos em sentido. Na frente nem Bacca nem Jackson para surpresa de muitos e o homem que ganhou o lugar de Falcao, Téofilo Gutiérrez, até fez o gosto ao pé numa emenda ao segundo poste na sequência de um canto pelo que nesta zona do campo os colombianos têm mais alternativas que a maioria dos rivais. Provou competência e organização e mostrou que será sempre um osso duro de roer como qualquer equipa assente em processos defensivos sólidos e com dois ou três jogadores na frente que podem decidir um jogo a qualquer momento (no fundo, o Portugal da América do Sul, mas com pontas-de-lança).

 

A seguir a surpresa do dia. Não só pela distribuição dos pontos, nem apenas pelos golos marcados mas sobretudo pela postura exibida. Mais do que vulgarizar o Uruguai e dar a conhecer ao Mundo o nome Joel Campbell no processo, o homem que dinamitou parte das esperanças uruguaias em repetir o feito de 1950, a Costa Rica trouxe para a segunda parte algo que se vê muito pouco no futebol. Assumiu as suas fraquezas, olhou os uruguaios nos olhos e foi para cima deles sem qualquer tipo de receio. E o resto faz parte da história deste Brasil14.

A partida até começou mal para os sul-americanos que a pouco e pouco lá foram conseguindo ligar o seu jogo. Após um par de half chances para cada lado, a experiência de Lugano sacou um penalty que Cavani converteu tranquilamente. Até ao final da primeira parte pouco se passou mas fica o registo de um momento que mudou o carácter do jogo irremediavelmente quando Keylor Navas fez uma defesa do outro mundo (tenham cuidado com o som do link) e manteve o resultado em 0-1 para a Costa Rica.

Após o recomeço só tivemos uma equipa a querer disputar o jogo. Campbell fusilou Muslera para o empate, num centro desviado ao primeiro poste e para o qual o Uruguai tinha poucos jogadores no centro do terreno e todos na faixa atrás da bola (os dois médios defensivos nem entraram dentro da área). Três minutos depois o escândalo começava a tomar forma com a reviravolta no marcador através de uma bola parada tirada a papel químico de outra em que a Costa Rica ia marcando anteriormente.

Tudo isto são sinais do quão ao lado do jogo o Uruguai esteve sempre. Uma equipa tão experiente, tão rodada nos maiores torneios de clubes e selecções não pode levar dois golos em menos de 200 segundos. Não pode levar dois livres frontais batidos ao segundo poste consecutivos e com um deles a gerar um golo e o outro a não andar muito longe disso. Não pode passar 30 minutos a correr atrás da bola e da equipa costa-riquenha sem estar sequer perto de empatar. E ainda levar um terceiro golo já no final com tudo a ler lá atrás, guarda-redes incluído. O único sinal de experiência que os uruguaios mostraram é que não abandonaram o campo de mãos a abanar. E não quero ouvir "ah, mas o Suárez não jogou...".

A Costa Rica levou os três pontos e deu uma lição que de querer e de acreditar que deve pôr em sentido todas as outras equipas que entrarem em campo contra selecções "menores". Já na véspera o Chile ia sendo surpreendido por uma Austrália abnegada mas sem argumentos. Ontem, e com jogadores dotados técnica e tacticamente como Campbell, Ruiz, Bolaños ou Borges, a vitória dos costa-riquenhos vista no vácuo, apenas no contexto daqueles 90 minutos e despojada de qualquer ideia pré-determinada sobre os jogadores, os treinadores e as equipas, foi não só merecida como natural tendo em conta a entrega colocada em campo. E isso já é dizer muito.

 

O jogo grande do dia teve direito ao primeiro palco polémico. A FIFPro queixou-se do relvado e a FIFA disse que estava óptimo. As federações inglesas e italianas solicitaram um timeout geral de 1 minuto para hidratação em cada parte e a FIFA disse para se fazerem homenzinhos. À hora de início 30 graus e humidade acima dos 70%, condições mais próprias para um Campeonato do Mundo de Sauna. Os ingleses já pareciam estar em sofrimento no aquecimento mas não dava para ver se aquela vermelhidão já era de cansaço ou só o bronze típico que usam em países de língua oficial portuguesa.

Apesar de tudo começaram por cima no jogo, a tentar jogar à Liverpool sempre que possível, fazendo uso dessa nova espinha dorsal que agora apresentam. Engraçado que Roy Hodgson nunca tenha colocado os Reds a jogar assim quando lá esteve. Tiveram uma oportunidade daquelas, em que o carrinho de de Rossi fez a bola passar no único sítio em que não entraria na baliza e em que Sturridge não lhe tocaria. Viu-se logo que a Itália estava mais perto de marcar. E estava.

Foi na primeira demonstração do típico cinismo italiano que o Pirlo eclipsou aquela simulação do James. A do colombiano foi feita com espaço, sem estar a dividir a bola com ninguém e tornou-se óbvia a partir do momento em que se virou para a bola. A do italiano foi à pele, no corpo a corpo, a levar a ilusão até ao fim. Não foi só Sterling que caiu no dummy do génio italiano, foram todos os ingleses e todos os espectadores no estádio e pelo mundo fora. Só o Marchisio é que não caiu.

Estranhamente a juventude inglesa reagiu bem e depressa. Dois passes verticais, Rooney lançado pela esquerda a cruzar muito bem com a canhota e Sturridge a galgar metros desde a entrada da grande área até à linha da pequena para finalizar sem hipótese para Sirigu. E com isto o jogo voltou à mesma toada, os italianos a tentarem parecer atacantes sem o serem na realidade e os ingleses a tentarem parecer espanhois mas com o mesmo sucesso que em Ibiza. Até ao intervalo, só mesmo um chapéu quase sem ângulo mas com conta peso e medida de Super Mario que só não deu golo porque Jagielka sacou a bola em voo, à John Terry

A segunda parte não trouxe nada de novo e em mais uma mudança súbita de flanco da Itália, Candreva trabalhou bem e tirou o centro perfeito para Balotelli encostar. Estava feito o 2-1. Joe Hart mal tinha tocado na bola. A Itália foi lá 4 vezes e marcou 2 golos. Os ingleses pelo contrário começaram a tentar enquadrar remates na baliza e Sirigu começou a mostrar que é uma infelicidade ser italiano e não ter possibilidade de representar o seu país mais vezes. No entanto e apesar das várias tentativas inglesas que o substituto de Buffon repeliu a mais perigosa acabou por ser a que não foi à baliza, numa finalização displicente de Rooney que se encontrou numa posição demasiado boa para ser verdade e se deslumbrou com ela.

Os últimos 15 minutos do jogo foram de agonia para os 21 jogadores de futebol em campo. À parte de tudo isto estava Andrea Pirlo. Com o jogo nivelado em termos físicos, todos os outros estavam mortos e o Andrea continuava no seu passinho do coiote pelo campo fora, tornou-se óbvia a diferença do seu futebol para os demais. Voltando ao primeiro golo, aquele abrir de pernas só se tornou visível no exacto momento em que teria que acontecer e é nestes detalhes que o Andrea mostra que é um mestre do disfarce e que o que pensa fazer só se revela no último instante para surpresa e gáudio de quem se delicia a observá-lo. E ainda ia fechando o jogo naquele livre, marcado de forma tão simples e ainda assim tão complexa. Não há muito mais a dizer sobre o Andrea. Gosto muito de o ver jogar. E ontem não fui só eu. Saiu baba do LFL pelo meu televisor, tal o amor demonstrado. Ainda senti algum cíume por o LFL gostar assim dele.

 

A fechar o jogo pelo qual tinha mais curiosidade. Dois estilos de jogar, dois géneros de morfologias e duas culturas completamente distintas tiraram teimas para fechar a primeira metade da Jornada 1. Se o Japão de Zaccheroni prima pela disciplina táctica e pela velocidade constante, a Costa do Marfim de Lamouchi destaca-se pela força e pela imponência física que traz ao jogo. E este foi claramente um jogo de duas metades.

Na primeira os costa-marfinenses nunca se conseguiram encontrar. Os nipónicos entraram concentrados e logo em modo intensidade máxima. Marcaram cedo, num belo trabalho de Honda a partir de um passe de Nagatomo, e poderiam ter marcado mais vezes. Continuam, à semelhança de todas as grandes selecções japonesas, a pecar não só na finalização como na definição de alguns lances perto da área, demasiado adornados. No fundo, constroem muitas half-chances mas poucas ocasiões verdadeiras. Já se arrependeram de certeza por não terem naturalizado o Hulk.

Com Yaya fora de posição (e Drogba também), o melhor médio-centro do mundo esteve demasiado afastado do jogo e notou-se o crescendo da sua frustração à medida que foi deixando de passar a bola aos colegas. Sem ideias e sem qualquer tipo de fio de jogo, os Elefantes sairam para o intervalo cabisbaixos tal a inocuidade do seu futebol.

À medida que a segunda parte progrediu o cansaço instalou-se nos japoneses. Não que já não fossem rápidos sobre a bola mas já não dispunham da força suficiente para ganhar as divididas. A Costa do Marfim começou a tomar conta do jogo, Zaccheroni refrescou o meio-campo a prever o pior e Lamouchi sentiu-se confiante q.b. para lançar Drogba. A confusão instalou-se no seio da defensiva japonesa e bastaram dois cruzamentos para a área para os africanos virarem o resultado. Lamouchi parecia um génio táctico e Drogba vital para o desfecho do resultado, mesmo não tendo tocado na bola. No fundo a entrada de Drogba reverteu muita gente para as posições em que se sentem mais confortáveis. Tiote sozinho atrás no meio-campo, Yaya como box-to-box em vez de falso #9, Bony com a liberdade para recuar e jogar para as laterais, entrando depois lançado na área. E isso reflectiu-se em campo.

O Japão já não tinha forças para inverter o resultado e voltou a baquear perante uma equipa que se impõe fisicamente, mostrando que há debilidades históricas que teimam em persistir. Usando uma frase de outro desporto, o Japão sempre "fly like a butterfly" mas continua a faltar-lhe "sting like a bee". E enquanto os japoneses não produzirem um matador (ou naturalizarem um) a parte da borboleta nao é suficiente para os jogos a sério.

 

Feita as contas finais do dia, ninguém foi eliminado e mesmo Grécia e Uruguai continuam em posições em que o apuramento é não só possível como não é descabido de todo tendo em conta os jogos que lhes faltam e os resultados dos adversários. A Costa Rica deu o primeiro aviso à navegação de que, como dizia o poeta Artur Jorge, "já não há jogos fáceis". Manaus fez a sua primeira vítima. O Andrea fartou-se de dar show.

Foi um dia em cheio.