A Selecção
14
Jun

2014

WC2014 - Dia 2

Por José Miranda


E ao segundo dia tivemos o primeiro jogo grande da Copa do Mundo, com a repetição da final de 2010. Espanha e Holanda defrontaram-se no jogo que ofuscou os outros, tal como era expectável mas não pelos motivos que prevíamos. Com isto os outros dois jogos, ambos a fechar as jornadas dos respectivos grupos, poderiam cair facilmente no esquecimento embora eu discorde. Vamos então arrumar estes dois rapidamente, para seguirmos para um jogo que vai para sempre ficar na história dos Mundiais e talvez do Futebol.

 

O dia começou com o Camarões-México que acabou por surpreender por motivos tácticos. Duas selecções limitadas acabaram por ser a montra para o trabalho dos homens no banco. O México, compacto a defender e com grande sentido posicional para o esquema que utiliza, mostrou muito mais argumentos do que contra Portugal e acabou por dominar um jogo fustigado intensamente por uma chuvada tropical.

Os Camarões mantiveram a sua disciplina táctica até perto dos 55 minutos, altura em que a linha desapareceu e começaram a aparecer buracos por todo o lado. Vimos todos que ainda estavam dentro do resultado devido a erros da terceira equipa em campo (um deles dos bons) mas manter a organização de uma defesa a três nunca é fácil (Assou-Ekoto claramente não conta para estes números) e na maioria do encontro os Leões Indomáveis conseguiram repelir os esforços dos mais sulistas dos norte-americanos.

No entanto não foi suficiente à semelhança do pouco futebol ofensivo que praticaram. No final abusaram das individualidades, um histórico erro crasso de muitas selecções daquele Continente e a manifesta falta de urgência demonstrada nos últimos minutos chegou a ser irritante, até para o espectador casual. Nunca senti que a vitória do México estivesse em perigo mas houve momentos em que duvidei que os mexicanos conseguissem lá chegar. (Sei que destaquei Chicharito como o jogador a seguir neste grupo mas aquele falhanço... Não se pode entrar do banco para desperdiçar golos feitos, Javier...)

 

A fechar o dia tivemos aquele que prometia ser a goleada do dia. Ninguém esperava à partida que os rapazes dos antípodas (sei que não são da Nova Zelândia, mas é perto q.b.) dessem algum tipo de luta e os primeiros quinze minutos vieram comprovar isso mesmo. O Chile entrou fortíssimo, sempre a ir para cima dos ozzies e sempre a partir para um 1x1 para a seguir soltar e criar vantagem. Primeiro golo num ressalto dentro de área, segundo numa bela combinação pela faixa central e Alexis a MVP do Mundial. Tal como esperado...

O que se passou a seguir é que ninguém esperava. Os chilenos acharam que os australianos tinham vindo fazer de pinos e começaram a jogar de "cadeirinha" como diz o Pedro Henriques. O Valdívia estava de mãos nas ancas aos 25 minutos e parecia precisar de uma bomba para a asma, acabando com aquelas dúvidas (as que ainda existiam) de porque é que um jogador com o seu talento escolhe jogar no Brasileirão. No fundo os chilenos esqueceram aquela velha máxima do "quem facilita *ode-se".

Os Socceroos não são uma potência mundial mas também não são as Ilhas Fiji. Têm jogadores da Premier League, da Bundesliga, da Serie A e da Eredivisie. Têm Tim Cahill. E têm quase todos mais de 1,80m, ao contrário dos chilenos. A partir do momento em que se aperceberam que bastava cruzar para o Tim e que meio caminho já estava andado, os sul-americanos ficaram em apuros. O antigo ponta do Everton reduziu ainda na primeira parte e a partir daí foi um ver se te avias.

O golo de Beausejour já nos descontos, na recarga a um falhanço de Pinilla, acabou por mascarar aquilo que foi uma exibição infeliz do Chile, em que aquilo que mais mostrou, além da pequenez da sua dupla de centrais, foi um completo desrespeito pelo seu adversário e pela sua capacidade em jogar futebol. Desligou cedo do jogo e quando precisou de voltar a ligar o interruptor já não saiu nenhum futebol e muito facilmente poderiam ter perdido pontos aqui. Não o fizeram mas a imagem daquele Chile de sonho que aí vinha saiu bastante prejudicada.

 

Pelo meio, o jogo mais esperado do dia. Rematch da final de 2010. Duas potências europeias, uma a campeã em título, a outra três vezes finalista vencida. Tiki Taka com Diego Costa de início. Holanda num 3-4-3 quase puro, à Totaalvoetbal. Árbitro italiano. Relva molhada para ajudar o jogo. Todos os ingredientes para vermos uma batalha de gigantes.

A Holanda entrou bem, muito pressionante no seu meio-campo, sempre a tentar evitar que os adversários recebessem a bola de frente para a baliza. Tiveram a primeira chance do jogo logo nos primeiros dez minutos. A Espanha dominou a primeira parte daí para a frente. No seu estilo habitual, toque toque, a passo. Tudo tranquilo. Diego Costa sacou um penalty antes da meia hora, Xabi Alonso marcou e a Espanha estava lançada para mais uma demonstração da superioridade que vemos desde 2008.

Já dentro dos quarenta minutos, Silva aperece isolado pela esquerda com Diego Costa a entrar no meio. O déjà vu daquele golo à Barcelona, com o compatriota do Pepe a encostar, instalou-se com aquela naturalidade de quem já viu isto inúmeras vezes. Mas desta vez Silva não passou, tentou um bonito e a Espanha continuava a ganhar apenas por 1-0.

Infelizmente para os espanhois do outro lado estava o Rei do One Touch Finish, Van the Man, Robin van Persie. Blind lançou mais uma bola nas costas da defesa espanhola (com Piqué e Ramos a jogarem em paralelos diferentes, como lhes é habitual) e o avançado do Man United marcou o, até agora, golo da Copa. Chapéu perfeito, de cabeça, sempre a seguir a bola com os olhos, mesmo quando usou o queixo como trem de aterragem. O intervalo chegou logo depois, tranquilamente. O jogo decorreu dentro do esperado, a Espanha dominou e eventualmente acabaria a ganhar. Não poderíamos estar mais enganados.

Logo a abrir Blind lançou outra bola para as costas da defesa, no espaço entre os centrais e Robben trabalhou bem uma finalização com sorte em que o carrinho de Ramos desvia a bola por cima do Iker. (Nota do Editor - o "bico para cima" passa a designar-se "bola nas costas da defesa" quando gera um golo.) Pouco depois e ainda antes da Espanha conseguir reagir, novo golpe holandês, desta feita numa bola parada, com o quinteto italiano a permitir algum contacto "excessivo" do Robin com o Iker. Golo validado. Casillas (e restante Espanha) de cabeça perdida, com amarelo para o capitão guardião. A partir daqui assistimos "só" à desconstrução de um mito...

 

Por muito inovador que tenha sido o modelo de Pep Guardiola, transposto para a Selecção e toda uma estrutura de camadas jovens, o mesmo já não é uma novidade em 2014. A maioria dos treinadores e jogadores de topo já defrontaram o Barcelona, já transmitiram e já lhes foi dito o que teriam a fazer. Desde o show que o Inter do Zé deu em Camp Nou ou a primeira parte do Real Madrid naquela final que o Cristiano resolveu de cabeça no prolongamento que mais e mais equipas têm utilizado uma de duas estratégias para desmontar o muy famoso Tiki Taka: ou têm desistido de jogar o jogo pelo jogo com o Espanholona (só para facilitar) e assentam todo o ataque em saídas rápidas para aproveitar o desíquilibrio propositado dos nuestros hermanos ou montam um modelo de pressão alta com marcações individuais e tentam bater o Espanholona com um jogo ainda mais agressivo mas muito desgastante a nível físico.

A primeira foi a que mais cedo começou a ter resultados, e foi também a que majorou a estratégia holandesa. A segunda teve o seu expoente máximo naqueles 20 minutos frenéticos do Atlético Madrid que este ano colocaram o Barcelona novamente num plano terrestre. Com resultados cada vez mais recorrentes, o receio instalado em todos os adversários começa a dissipar-se e cada vez que acontecer o mesmo de ontem, mais serão as equipas que entrarão em campo para bater o Espanholona e não para tentar levar o mínimo baile possível. E é normalmente assim que começa a queda de dinastias desportivas de sucesso devido a um modelo usado que é tão esmagador que a resposta passa não pela assimilação e tentativa de implementação do mesmo pelos adversários mas sim pelo desenvolvimento de estratégias que minem os pontos fortes desse modelo. E para bater a Espanha já toda a gente sabe o que tem a fazer.

Agora, do saber ao fazer vai uma grande distância e aí há que dar todo o mérito à Holanda que se manteve fiel aos seus princípios do início ao fim, nunca se deixando levar para a frente pelas emoções do jogo. A qualidade superior do seu trio da frente, todos jogadores de topo mundial nas suas posições, só ajudou a exacerbar as fragilidades espanholas e o descalabro que começou com o seu capitão naquele terceiro golo. O quarto é o reflexo disso mesmo, num erro infantil e inadmissível de quem passou os últimos anos a dizer que devia jogar. Mas mais do que o "tirar de esforço" com que normalmente as equipas grandes encaram as derrotas pesadas, o que se via nos espanholonos (tanto em Madrid com o Atlético, como ontem em Salvador) era a incredulidade de quem não compreende o que se está a passar, não acredita no que está a acontecer, de quem está em negação.

 

Duvido que exista um resultado que seja mais surpreendente que este ao longo do Mundial (e a Costa Rica já bateu o Uruguai no momento em que escrevo isto) e posso até lançar aqui que nos próximos cinquenta anos nunca um campeão em título perderá o seu jogo de abertura no Mundial seguinte por quatro golos. A anormalidade do resultado de ontem poderá também ter o seu peso histórico no futuro deste Espanholona. Já algo longe da matriz original, à semelhança do clube-mãe desta selecção, os planos opostos são cada vez mais complexos e cada vez mais baseados em exemplos de sucesso, porque já os há. Sei que a maioria dos jogadores base estão em final de ciclo e que este poderia ser sempre o último Mundial de uma geração de ouro do futebol espanhol.

O que acontecer daqui para a frente marcará também a conotação que ficará ligada às conquistas de 2008, 2010 e 2012, que poderá ficar como uma marca registada do que é o futebol espanhol, à semelhança do que é o Totaalvoetbal para a Holanda, ou ficar registada como uma singularidade, fruto de uma geração de ouro, à semelhança do que nós tivemos com o futebol jovem, onde desperdiçámos uma oportunidade para estabelecer uma identidade de futuro.

Cabe agora ao Espanholona mostrar-me se acredita realmente no Tiki Taka, porque ontem vi muitos descrentes com a camisola roja (branca) vestida.