A Selecção
05
Jan

2014

Viva o Rei!

Por José Miranda

 

Le Roi est mort...

 

Num domingo que ficará gravado na memória de todos - num daqueles momentos em que daqui a 20 anos continuaremos a saber exactamente onde estávamos quando nos deparámos com a triste notícia de hoje - multiplicam-se as memórias, as "estórias" de quem se cruzou com Eusébio da Silva Ferreira ao longo da vida, as homenagens a um dos mais acarinhados portugueses de todos os tempos. Sinal de outros tempos, de um outro Portugal e de um outro futebol, as palavras de alguém que não o viu jogar poderão não ter o significado das de outros, mas mesmo assim irei tentar, ajudado pelas imagens que marcam a minha memória do "Pantera Negra".

 

Como jogador, apenas tenho uma representação de Eusébio a preto-e-branco, fruto de muitos jogos apanhados a horas demasiado tardias na RTP Memória. No entanto, e mesmo numa época em que o futebol era completamente diferente daquele a que fui exposto desde criança, cedo me apercebi que a "lenda" era não só real mas também valorizada por baixo, tal o domínio imposto no terreno de jogo.

Injustiça é o conceito que mais me aparece pelos pensamentos quando vejo as imagens granuladas de Eusébio a defrontar os seus pares naquela altura. Num tempo em que a capacidade física era um factor secundário, a genética presenteou o goleador português com um físico mais apropriado para os tempos modernos, em que o trabalho de "laboratório" impera. No entanto, atletas há muitos e nem todos sabem jogar à bola.

Além de ser fisicamente brilhante e superior à quase totalidade dos seus adversários, o "Pantera Negra" tinha uma capacidade inata para a redondinha e para interpretar o jogo. Muito para além dos golos que marcava - e em fases mais adiantadas da sua carreira o #10 assentava-lhe na perfeição - era um jogador completo, que sabia passar, rematar, cabecear, cruzar e, muito raramente, defender, onde o seu QI futebolístico era quase tão incomparável como a sua potência.

No jogo dos "ses", e à semelhança de estrelas de outras décadas, tento sempre imaginar Eusébio no futebol actual, com todas as modernices a que o futebol foi sujeito mas acima de tudo sem a barbárie que se utilizava na altura para travar os melhores - vejam o Portugal-Brasil em 66 ou o penalty sofrido pelo "Pantera" na histórica reviravolta contra a Coreia do Norte. E injustiça continua a ser a palavra que me vem à cabeça. Jogasse em que era jogasse, seria sempre um fora-de-série.

 

Futebol à parte, aquilo que mais me marcou no que vi, ouvi e li de Eusébio foi sempre acerca da sua personalidade, fora do campo e a extensão da mesma em campo.

Tive a sorte de conhecer bem de perto a "estória" da chegada a Lisboa de um jovem português vindo da Mafalala, na antiga Lourenço Marques, tendo ouvido algumas vezes em discurso directo os dois representantes de Benfica e Sporting, Domingos Claudino e Manuel Petronilho (para mim, Tio Manuel) respectivamente - curiosamente vizinhos e "amigos" num clássico bairro lisboeta - que esperavam o futuro "Pantera Negra" na Portela. Ouvi sempre com atenção as duas versões, procurando pontos de convergência para tentar perceber o que realmente teria acontecido naquele Dezembro de 1960, mas, como na maioria das discussões entre benfiquistas e sportinguistas, é muito complicado perceber o que realmente aconteceu, toda a cronologia do "golpe" que motivou o maior balanço de poder no futebol nacional dos últimos 60 anos, mesmo com as memórias de quem esteve por dentro. Apenas sei que um falava acerca disso com um brilho radiante nos olhos, o outro com a mesma mágoa de um amor perdido.

A sua humildade é ponto comum na maioria dos relatos, quer de companheiros, quer de adversários, e vários foram os almoços e jantares de família em que essa humildade era recordada pela minha mãe, contando-nos um episódio recorrente na praia em Sesimbra, onde algures a meio dos anos 60 o "O Rei", durante uma das várias recuperações que fez após operações ao joelho, chegava ao areal rodeado de jornalistas e fotógrafos, mas fazia sempre questão de ir cumprimentar o meu avô, na altura Capitão do Seixal. O respeito com que Eusébio falava com o pai da minha mãe, um já campeão europeu e goleador máximo do nosso futebol perante um veterano de várias equipas de 1ª ou 2ª Divisão em final de careira, deixou-a para sempre fascinada e esse acto singelo, repetido todos os dias durante umas férias de Verão, acabou por se repercutir na imagem que sempre formei do "Pantera", mesmo que essa humildade e esse respeito pelos demais - colegas, adversários, árbitros, treinadores, dirigentes - possam ter impedido que uma das nossas maiores pérolas tenha aberto os seus horizontes e (e)levado o seu futebol para outras paragens, será sempre um dos adjectivos que veremos lado a lado com o seu nome.

Para mim, fica sobretudo a imagem da sua resiliência, do seu querer. Pelo que me contam era um profissional - pelos padrões da altura - de excelência, um trabalhor incansável e que colocava sempre os interesses colectivos à frente dos pessoais, mas que acima de tudo tinha uma chama dentro dele que brilhava sempre, que não o deixava desistir, que praticamente o obrigava a acreditar que seria sempre capaz de atingir os seus objectivos. O já mencionado jogo com os norte-coreanos deu-nos uma das melhores chapas que retrata esse espírito lutador e de quem nunca vira a cara à luta. Naquele momento, de quinas ao peito, foi a representação do caractér de toda uma lusitanidade, originária de onde quer quer seja, que, mesmo dormente de tempos a tempos, está em todos nós e que acaba sempre por vir ao de cima nos piores momentos.

 

Das várias narrativas dos momentos que preencheram a carreira de Eusébio, nenhum episódio me foi contado com tanta paixão e com tanto peso emocional como a derrota com os ingleses em 66. Não há uma única pessoa que tenha presenciado esse momento que não tenha estabelecido ali uma empatia que duraria para sempre, que seria passada às gerações vindouras como o símbolo de quem lutou e perdeu, de quem saiu de um campo, de futebol ou da vida, vergado pela derrota, mas que nunca se deu como vencido em campo.

Mais do que um povo que se tinha unido em volta de um sonho, é um momento que marcou gerações de adeptos futebolísticos mundo fora e que enamorou para sempre os ingleses, alguém em busca do que nunca ninguém pensou ser possível e que o destino acabou por confirmar, de forma cruel. A catadupa de emoções que foi ali registada, a preto-e-branco como se quer nas imagens marcantes, é uma das melhores representações de todo um sentimento colectivo desportivo de insucesso, de quem já trabalhou com colegas rumo a um objectivo comum, de quem deixou o que tinha e o que não tinha em campo para inverter a desfavorabilidade de um resultado mas que se manifestou infrutífero naquele jogo específico. É, como Eusébio, transversal a todos os desportos, a todos os clubes, línguas e nações.

 

Nunca vi Eusébio jogar ao vivo. Tal como muitos nascidos nas últimas décadas, não tive essa possibilidade, a de ver um dos melhores de sempre a evoluir num relvado à minha frente enquanto criava o caos nas defesas contrárias. Nunca vi o poder do seu famoso remate mesmo à minha frente, nunca presenciei uma daquelas arrancadas desde o meio-campo que só acabava junto aos adeptos, já a festejar.

Não foi preciso. Há personalidades na nossa história cujos percursos os tornam intemporais, cujos feitos são cantados eternamente, perdurando na nossa memória individual e colectiva. E os ecos de "Eusébio", um jogador, um ídolo, um símbolo nacional, uma quase entidade, mas acima de tudo um homem, irão perdurar para sempre.

 

Vive le Roi.