A Selecção
24
Abr

2013

Video didn't kill the Radio Star

Por José Miranda

 

Parece que afinal o "video" ainda não matou a estrela da rádio.
 
Depois de uma promessa de mudanças aquando da eliminatória entre o Real Madrid e o Manchester United, voltámos para os jogos dos quartos e das meias a contar com o relato (e é mesmo esta a palavra que quero utilizar) de Fernando Correia, para acompanhar uma transmissão na TVI. Nada de novo, poderão dizer muitos, mas também é verdade que existe um ponto de saturação em que não podemos deixar passar mais em claro o assassinato que é feito aos excelentes espectáculos, para além de resultados inesperados, que a UCL nos tem proporcionado esta época. Tirando a possibilidade de a TVI querer acompanhar mais uma transmissão sem HD com um comentário também desfazado no tempo, não consigo identificar qualquer motivo lógico para que Correia continue a "relatar" jogos de futebol na TV.
 
Dono de uma carreira longuíssima ao serviço do jornalismo desportivo português, com passagens pela Emissora Nacional, Record, Rádio Comercial, TSF, Rádio Clube Português e agora na TVI, já representou o paradigma do que era ser relator de futebol, numa era longínqua e distante, pelo menos tecnologicamente, onde a sua voz nos chegava através do éter e onde ia cumprindo com a difícil tarefa que é reproduzir em palavras o que se passa em campo. Anfitrião durante anos do mítico "Bancada Central", onde pouco futebol era discutido em detrimento de vários fait divers, de "amigalhaços" que ligavam para combinar almoços e jantares nos pontos mais reconditos do nosso burgo, não estou aqui para colocar em causa a pessoa, o que foi feito no passado, nem o valor do que foi feito mas sim o que é feito no presente.
 
No tempo que vivemos "ver" um jogo desta forma é um martírio pois como sabemos uma imagem vale mais que mil palavras, mas aparentemente só nós é que sabemos e ainda ninguém se deu ao trabalho de explicar isso a Fernando Correia. Ao invés de ir narrando os acontecimentos ou de juntar algum do know-how futebolístico que deve ter acumulado ao longo da sua carreira, Fernando "relata" como se as nossas TV's não tivessem imagem, como se nós não conseguíssemos discernir que os centrais estão a trocar a bola entre eles ou mesmo que não conseguimos ler o tempo e o resultado que estão ali no canto do televisor. Não tenho qualquer problema com o festejo dos golos como se fosse um comentador mexicano mas cansa-me o "passa para João, João para Miguel, Miguel para Luís, Luís para Zé, Zé para alguém" que domina 80% daquilo que diz durante uma transmissão.
 
No antigamente, apenas tínhamos o que Fernando Correia nos dizia aos ouvidos e isso tinha que ser lei. Ele é que estava lá a ver o jogo portanto ele devia saber o que estava a dizer. Actualmente dou por mim a ouvir os erros, uns atrás dos outros, e a pensar - "Este é que é o profissional que a TVI escolheu para esta função? Existirá alguém na TVI que veja e ouça o que é dito e faça uma real apreciação do trabalho realizado?"
 
Durante o jogo de hoje entre o Borussia Dortmund e o Real Madrid, só de relance, a tentar abstraír-me do que era dito, e só com um papel em cima do joelho, detectei as seguintes passagens míticas:
 
| 3min | "Marco Reus, apenas o apelido Reus na camisola, Marco é o 1º nome, é a estrela da companhia do Dortmund e vai ser do Bayern na próxima época" - Quase...
 
| 30min | "Fábio para Varane, Varane para Sérgio Ramos" - "Varane" era Pepe, ainda vá que não vá mas "Sérgio Ramos" era Varane e essa é indesculpável, por motivos óbvios...
 
| 38min | "Mario Götze, é a estrela da companhia do Dortmund e vai ser do Bayern na próxima época" - Esta não é mítica per se, mas sim por causa da outra logo aos 3 minutos...
 
| 45min | "Intervalo, final da 1ª parte" - Também ao lado. Afinal o árbitro tinha interrompido o jogo para assistência a CR7 que tinha ficado caído dentro da área adversária. No relógio da UCL já lá estava o +1 relativo à compensação. Jogou-se mais um minuto...
 
| 47min | "Lá vai Higuaín isolado" - Mas afinal era Özil. Até são jogadores semelhantes fisicamente (1,80m e 70kg para o "alemão" e 1,84m e 79kg para o argentino), jogam com o mesmo pé (esquerdo e direito respectivamente) e tem toques de bola quase idênticos. Não...
 
| 72min | "Está em campo Di Maria" - Há 4 minutos, conforme já tinha sido noticiado pelo colega de transmissão (Dani hoje com essa árdua tarefa) mas foi preciso um grande plano para que Correia notasse...
 
 
Estes são só alguns exemplos, cujo expoente máximo decorreu num lance de Fábio Coentrão (podem ver a partir dos 00:35) no já mencionado RM-MU da 1ª mão dos oitavos em que entre os 67min e os 77min apenas se discutiu se a bola tinha ido ou não ao poste. Esse lance trouxe outro ponto de discussão para cima da mesa mas também se Fernando Correia já não diz coisa com coisa a maioria das vezes também me parece algo exigente da nossa parte querer também que compreenda conceitos básicos da Física que invalidariam aqueles 10 minutos de sofrimento após este lance.
 
Após um ano e meio a usufruir da possibilidade de ver os jogos da EPL em directo com os comentários originais (agora apenas em diferido por causa dos "bifes" que levavam o MeoSatelite para o Reino Unido para terem SportTV lá, que ao que consta é mais barata que a SkySports) podemos dizer que ficámos mal habituados. A melhoria, ainda que muito localizada em certos comentadores, da SportTV também não ajudou. Mas o problema é mesmo quando a bota não bate com a perdigota. E num jogo relatado pelo Fernando, muito poucas vezes bate. E quando eventualmente bate, ainda por cima vemos a necessidade de procurar a validação do colega do lado ("Estou certo, não é Dani?") como se se tratasse de um jovem inexperiente a iniciar carreira.
 
Mas o que mais me chateia no meio disto tudo é que não é uma decisão dele comentar ou não estes jogos. Acho que Fernando Correia não entra pelos estúdios da TVI fora e decide "eu é que relato". De certeza que existe alguém na TVI que tomou (e aparentemente continua a tomar) essas decisões. O que eu quero saber é quem é essa pessoa, se depois de tomar a decisão vê ou não os jogos, o que ela percebe do Beautiful Game e o que sente com o jogo. Queria saber quem era, para se um dia me cruzar com ele na rua poder acompanhá-lo durante 90 minutos e dizer-lhe:
 
"E mete o pé esquerdo no chão, agora o direito, inspira, expira... E mete o pé esquerdo no chão, agora o direito, inspira, expira"
 
Isto tudo sem nunca adicionar nenhuma informação a aquilo que essa pessoa já sabe, apenas uma lenga-lenga sensaborona de descrição daquilo que os meus olhos conseguem ver, daquilo que a grande maioria dos adeptos de futebol que estão a ver esse jogo também conseguem ver e que também já sabem. E pelo meio trocar o "direito" pelo "esquerdo" e o "inspira" pelo "expira"...
 
A ver se ele gosta...