A Selecção
26
Set

2013

Protesto

Por José Miranda

 

Quando no espaço de aproximadamente um dia, vemos os três clubes que mais investem no nosso campeonato apenas conquistarem 5 dos 9 pontos à sua disposição (e relativamente perto de serem apenas 3) esperamos que a discussão do dia seguinte passe pelo que se passou em campo e não o que se passou fora dele. Fugindo ao "Segunda a Sexta" a que vos temos vindo a habituar, não poderíamos deixar passar em claro os eventos, típicos do tecido histórico do Futebol Português, e que continuam a colocar entraves ao desenvolvimento do mesmo, pelo que este silêncio foi a nossa forma de protesto.

No entanto, este protesto não é apenas dirigido às acções que foram tomadas ou aos intervenientes que as tomaram, pois numa sociedade em que a liberdade de expressão (ainda) impera, cada um continua a ser livre de fazer ou dizer (praticamente) o que lhe apetecer e o comportamento deplorável do “Mestre da Táctica” e a amnésia selectiva do “Paulo a Cavalo” são não só comuns mas também habituais e não aconteceram este fim-de-semana pela primeira vez e também não será a última que vamos ver atitudes deste género, quer destes senhores quer de outros ainda por vir. Para mim, e para muitos outros com os quais discuti isto mesmo ao longo destes dias, o verdadeiro busílis da questão em discussão passa pelos que acompanham e noticiam estes eventos, aqueles cuja actividade profissional se insere na economia paralela criada em torno do futebol.

 

Olhando para trás, e apesar do que foi dito e feito, deste fim-de-semana só mesmo Benfica e Porto sairam vencedores (e também o presidente da AFL que até domingo à noite, poucos sabiam quem era, tendo já direito a muitos mais do que os lendários 15 minutos de fama). Os vermelhos juntaram os 3 pontos a mais uma exibição apagada e os azuis pontuaram fora, naquela que o seu treinador classificou como a terceira mais difícil deslocação. Devido aos fait divers que circundaram os encontros destas equipas, as lacunas no jogo jogado das mesmas acabaram por não ser esmiuçadas, uma por falta de produção ofensiva, a outra por uma falta de controlo pouco usual dos momentos do jogo.

Quanto a derrotados, temos vários. Os verdes de Alvalade, apesar da vitória moral conquistada através das palavras acutilantes e irrepreensíveis do seu treinador, perderam pontos em casa para uma equipa que não consideram rival nas ambições. Os amarelos da Amoreira estiveram mais perto de ganhar do que perder, e apesar da benesse que receberam do árbitro, poderão sempre argumentar que em algumas linhas alternativas do espaço-tempo-contínuo golearam o anterior campeão, ainda que diminuído numericamente. Os verdes do Ave, que entraram mal mas que se recompuseram e acabaram por cima, com a sensação que poderiam ter conquistado mais. Os da Cidade Berço, que sofreram com aquele binómio de decisões que faz pender a balança da vantagem numérica duas casas para cada lado e que desta vez poderia ter caído para o seu lado e não caiu, e mesmo não tendo produzido o futebol de Estoril e Rio Ave, tiveram a abordagem adequada ao jogo e aos seus condicionalismos, tentando sempre maximizar os pontos a extrair. Mas acima de tudo os adeptos, mas a isso já lá chegaremos.

 

Tendo em conta que exigimos cada vez mais aos participantes directos no futebol, não só a nível de performance mas também de comportamentos e atitudes, não apenas na prática da sua modalidade mas também no seu papel de role models na nossa sociedade, não me parece compreensível que a exigência para os que giram à volta do desporto rei não siga o mesmo padrão. E é sobretudo ao nível dos media que vemos um desleixo e um laissez faire laissez passer que não é o expectável desta classe. Estes são os senhores (e senhoras) que têm o contacto directo com os intervenientes. Eles, ao contrário de todos nós, têm a possibilidade de obter mais informações directamente da fonte, de confrontar com episódios semelhantes, de criar conjecturas acerca do objecto em discussão para interpretação por parte do analisado ou até de opinar acerca de algo - algo que na nossa cultura é quase sempre posto de lado, muito provavelmente pelo receio da vinculação a esse mesmo acto “terrível”.

Não me parece concebível que ninguém tenha perguntado ao Jorge o que ele achava acerca do exemplo que estaria a transmitir. Ninguém lhe perguntou se sabia que a acção do adepto que ele tentou “salvar” é considerada um crime e é punível por lei. Ninguém perguntou porque, à semelhança de todos os outros que tentaram interverir naquele momento, não tentou dialogar com os agentes da autoridade em questão. Ninguém perguntou se confrontado com a mesma situação voltaria a fazer o mesmo ou agiria de forma diferente.

Também não me parece concebível que ninguém tenha perguntado ao Paulo o que ele achava acerca do trabalho global do árbitro, não só o trabalho nos lances em que o seu clube saiu prejudicado. Ninguém lhe perguntou se achava que Otamendi deveria ter sido expulso, nem se isso teria implicações no decorrer do jogo. Ninguém lhe perguntou o porquê de não ter tido a mesma atitude quando confrontado com uma situação semelhante no último jogo do ano passado. Ninguém perguntou o que levou a esta alteração no seu comportamento.

E além destas há muito mais perguntas que ficaram por colocar. Há muitas respostas, que fazem realmente falta para uma análise correcta de ambos os momentos. Infelizmente não podemos acusar os profissionais dos media de não estarem a cumprir com os seus deveres. No Código Deontológico pelo qual se regem, não existe nada que os remeta para a busca incansável do apuramento dos factos, para o interrogatório extensivo aos intervenientes ou outras persons of interest. E, tal como em muitas outras áreas da actual sociedade lusitana, o sentimento que acaba por ficar é o de impunidade, em que alguns podem fazer o que lhes apraz, dizer o que quiserem e que ninguém os confronta ou pede justificações acerca dessas acções, e sobretudo do processo de decisão que levou até essas acções, ficando tudo por explicar, insistindo posteriormente num debate estéril e superficial acerca do mesmo. Mas infelizmente o que fica em falha é a análise ao futebol jogado. Por onde é que ela anda? Onde foi descrita a acção-reacção dentro de campo que motivou estes resultados finais? Onde está o Futebol?

 

E é por causa disto que, mais do que todos os outros, os principais derrotados somos nós, os adeptos. Fomos nós que saímos mais uma vez desiludidos, não só com o que se passou, mas que é algo a que já estamos habituados e com o qual já vamos lidando com o típico humor português – a frase que mais ouvi desde domingo remete para o Felipão e o seu famoso “tem que defender o menino” -  mas com o que foi debatido e a forma como foi debatido. O estado da nossa imprensa desportiva veio novamente ao de cima neste fim-de-semana, quer na escrita quer na colectânea de programas televisivos do estilo “3 Marretas e 1 Apresentador” (cada vez mais incompreensível a continuidade deste modelo que já exaustou o adepto). As matérias abordadas, as questões colocadas e o ênfase dado nos dias seguintes demonstram o estado a que chegámos.

 

3 dias. 0 palavras. 72 horas de “silêncio-rádio”. Foi este o período que achámos conveniente para mostrar a nossa desilusão para com o futebol português, com alguns dos seus intervenientes e com os nossos media, só porque estes deixam os outros passar impunes.