A Selecção
22
Ago

2013

Posturas

Por José Miranda

 

Há algum tempo atrás, um amigo meu revelou-me que na altura ia ver jogos mas que não ligava muito ao jogo em si. Concentrava-se apenas nos intervenientes, na forma como colegas de equipa, membros do banco e elementos da equipa técnica interagiam entre si, como era a postura de cada um perante os outros. Estava convencido que mediante essa observação atenta conseguiria prever a capacidade de um colectivo para chegar ao sucesso. Mesmo não concordando a cem por cento, acho que esta premissa tem valor e muitas das vezes espelha o que se passa no seio de um grupo. Na noite passada, aquela em que acabou o sonho da Champions do Paços de Ferreira, a principal diferença no Estádio do Dragão acabou por se sentir ao nível da postura dos presentes.

 

Os adeptos "locais" cumpriram o seu papel. Em ambiente de "festa da taça", a sua postura foi irrepreensível. Vibraram com todos os lances, festejaram o golo como nunca e fizeram ouvir-se durante todo o jogo, reagindo às mais pequenas nuances como se fosse a primeira vez. Os forasteiros, mais tranquilos e experientes, e quiçá também mais moles do calor lusitano, foram fazendo a festa com o avolumar do resultado.

A equipa de arbitragem, britânica e com longa carreira na Premier League, cometeu erros que cá seriam exacerbados até ao infinito mas foi gerindo sempre com tranquilidade o decorrer dos eventos e meteu calma quando teve que meter. A sua postura, mais a supervisionar as operações do que a tentar controlar o mais infímo detalhe, faz com que o jogo seja mais simples, mais rápido e pemite que os adeptos se foquem menos neles e nos seus "pequenos" erros e mais no futebol jogado.

A postura do Zenit foi, acima de tudo e utilizando uma palavra em voga no futebol moderno, pragmática. O conjunto de São Petersburgo, além da sua constelação de vedetas, apresentou um misto de manha transalpina com a disciplina metódica dos sovietes, na forma como aproveitou a inexperiência europeia dos pacenses e foi capitalizando nos momentos decisivos.

Nos castores, Sérgio Oliveira foi, para o olho destreinado, um dos mais envolvidos e mais produtivos da equipa. Tentou, quase até ao infinito, meter uma bola lá dentro. Mas a sua postura reckless, na falta de um termo tão bom em português, prejudicou mais do que ajudou. As inúmeras bolas perdidas em passes quase decisivos, os remates dos quarenta metros que motivaram gargalhadas na falange russa e os inconscientes atrasos de calcanhar, que foram colocando em trabalhos os colegas lá de trás, foram apenas a fundação para a cereja que colocou no topo do bolo ao minuto sessenta, quando, como terceiro homem da linha da zona pacence, ajustava as caneleiras enquanto Danny batia o canto que lançou o Zenit a caminho da fase de grupos. Sérgio tem tudo para um dia ser um #10 a sério, mas também tem tudo para ser o próximo Carlos Martins.

 

Mas, acima de tudo, quem esteve na génese desta já longa dissertação foi Francisco Costa, mais conhecido no meio do futebol por Costinha. Uma das frases que disse na conferência de imprensa após o pesado resultado - "Vou recuperar os jogadores" - foi só mais uma para a colecção. Após ter saído do Beira-Mar aquando da descida de divisão dos aveirenses, Costinha já foi responsável pelas seguintes citações, algumas apanhadas da rádio e outras lidas na imprensa especializada:

"Não é uma falta de respeito, ambição ou humildade não querer um projecto na Segunda Liga" (acerca da sua recusa em treinar o Beira-Mar nesta época)

"Estou preparado" (na apresentação em Paços de Ferreira)

"Acho que este ano é mais decisivo para o Paulo Fonseca do que para mim" (durante a pré-época)

"A inveja dos outros é a minha gasolina para chegar ao sucesso" (após a derrota com o Braga)

"Não nos vamos submeter ao Zenit» (antes do jogo com o Zenit)

 

Os sentimentos que Costinha tem provocado até agora nos adeptos de futebol, na sua ainda muito curta carreira de treinador que fez seis meses na passada segunda-feira, têm sido estranhamente negativos. Para um jogador com dois golos marcantes na história do futebol português, o primeiro contra a Roménia e que valeu a contratação de Vidigal pelo Napoli e o segundo em Old Trafford e que valeu uma Champs, era esperada uma postura completamente diferente da que teve até agora.

Anteontem “O Ministro” até trabalhou muito, na lateral. Apresentou-se, como já nos vem habituando, todo engalanado para a antecâmara da Champions, naquela que já foi a sua casa. Mesmo com os 25º graus que se fizeram sentir no Porto durante o jogo, manteve o estilo até ao 0-1. Aí, casaco fora e mangas arregaçadas. Apanhou bolas, gritou, deu lições tácticas ao banco enquanto o jogo decorria nas suas costas (tal como Sérgio, estava abstraído do jogo durante o 1-2. Até chegou a morder a gravata perante a ineficiência atacante da "sua equipa".

No entanto, no real exercício da sua função, enquanto estratego e não show man, esteve péssimo sobretudo durante a segunda parte. Após o debacle do canto, falhou em perceber que sofrer o terceiro golo, mesmo que tenha acontecido daquela forma mas que já parecia tornar-se inevitável, seria a morte das probabilidades de passar a eliminatória. Para alguém com a sua experiência, e para alguém que passa a vida a apregoá-la, não entendeu que estava a reduzir a eliminatória a noventa minutos apenas.

Mesmo tendo mostrado até agora a atitude correcta na linha, e aquela que todos adoramos num treinador, tem sido no plano comunicacional, um factor diferenciador dos demais enquanto jogador, que mais tem pecado. Infelizmente, na forma como fala da equipa, dos jogos e do trabalho desenvolvido, Costinha mostra já o know-how de um treinador experimentado, alinhado com a maioria dos exemplos recentes do futebol português. A postura adoptada é a do "eu" para as conotações positivas e a do "nós" nos casos negativos. Esta é uma atitude que passa, muitas vezes, despercebida, mas que vem de dentro, da personalidade e do carácter de um líder.

Recuperando um exemplo semelhante mas de outro desporto, Jason Kidd (se não souberem quem é não há problema, pertence a um desporto esquisito de pavilhão) passou este ano de super star em final de carreira, com lugar garantido no Hall of Fame da NBA - um Panteão de jogadores, treinadores, dirigentes, jornalistas, etc. que poderia facilmente ser reproduzido em Portugal para o nosso desporto rei - a treinador de uma equipa. Apesar de ser enquanto jogador, no basquetebol, alguém muito mais significante do que Costinha, no futebol, as suas palavras na apresentação da equipa que iria treinar não poderiam ter sido mais diferentes das de Costinha. Mostrou-se surpreendido por ter sido escolhido, quanto existiam opções muito mais consagradas e adequadas para a função, confidenciou que não se sentia preparado mas que se iria rodear de treinadores de excepção para o ajudarem a crescer na função. Uma diferença de postura do dia para a noite comparada com a de Costinha.

 

Ainda é muito cedo para podermos realmente aferir acerca da real capacidade de Francisco Costa enquanto treinador de futebol. Apenas sabemos que foi um jogador de topo, que esteve em clubes de topo, trabalhou diariamente com treinadores de topo, teve acesso a condições de topo e que tomava o pequeno-almoço com o Príncipe Alberto de vez em quando. Para alguém que prega a sua humildade como origem do seu sucesso, sempre que o ouvimos falar acabamos por concluir que a bota não bate com a perdigota. Naturalmente esta postura não tem grangeado as reacções mais amigáveis para com "O Ministro" e apenas tem servido para acumular desnecessariamente ainda mais pressão naquele que seria um posto de trabalho com uma visibilidade acrescida. Costuma dizer-se que para talk the talk, tem que se walk the walk. E até agora, Costinha apenas tem talked the talk. A ver vamos, se consegue walk the walk.