A Selecção
29
Out

2013

Palestra de Terça-Feira

Por José Miranda

 

E eis que à 8º jornada ficámos sem dois dos principais animadores do nosso campeonato. Se num dos casos, e devido à crise de resultados relativamente às expectativas iniciais, acaba por ser uma situação "normal" no mundo do futebol, no outro não deixa de causar estranheza o timing desta operação, até depois do show de 6ªF, com resultados no sábado. Poderia estar aqui até ao infinito à procura de palavras acabadas em "dor" para uma ou outra chalaça - como "quem nos vai animar-a-dor agora?" - mas há muito mais para falar acerca destas duas saídas e da "eficacidade" que poderão vir a ter.

 

Dentro das quatro linhas o clássico do Dragão açambarcou todas as atenções e fez justiça à antecipação criada em torno do mesmo. O Sporting assumiu em campo que joga para o título (mesmo que não o diga e que expectavelmente não chegue lá), com uma postura como há muito não víamos os de Alvalade terem em casa do Porto. Jogou de igual para igual, obrigou o Porto a baixar linhas na segunda parte e a pressionar só no seu meio-campo, e poderia ter saído com um resultado diferente dependendo apenas do desfecho de dois momentos - cabeçada de Montero seguida de golo de Lucho. No fundo, o jogo acabou por se decidir em detalhes individuais, onde o Porto mostrou porque é o campeão e tem a melhor equipa nacional e mostrou os 30M investidos na sua defesa, onde além do envolvimento nos dois primeiros golos os laterais secaram as alas sportinguistas e os centrais apenas tiveram um deslize com Montero, num lance em que a posição de Adrien os iludiu mas que Helton acabou por safar.

Além do excelente jogo a que assistimos, vimos no Dragão a confirmação de uma estrela que está a impor-se no meio-campo leonino. Aos 21 anos e a ter a sua primeira oportunidade no escalão principal - apenas jogou 1 minuto em 10/11 seguindo para Fátima e posteriormente para a Bélgica - William Carvalho, "Yaya" para muitos dos adeptos, é o médio mais parecido com Paulo Sousa que vimos no futebol português desde, bem, desde o próprio Paulo Sousa. E isto já é dizer muito. A cerebralidade que evidencia aliada à compostura que sempre mantém são qualidades intrínsecas ao bom regista, aquele que promove um futebol euclidiano onde a geometria é raínha.

 

Noutros campos, o "Mestre da Táctica" e o "Rei da Palavra" abraçaram-se no final do jogo da Luz, pondo um fim, aparente, à contenda que os dividia. Caso não se tenham tratado pelos nomes carinhosos do antigamente, como cretino, assumo que fizeram as pazes.

O Estoril assume-se cada vez mais como um caso sério, ganhando num campo reconhecidamente difícil (apesar deste ano só para o Benfica) e posicionando-se na 4ª posição, depois de mais um resultado europeu positivo. O Marítmo confirmou uma das piores fases da (ainda) era Pedro Martins, registando a quarta derrota consecutiva para o campeonato, colocando o seu mister no hot seat para o próximo a sair.

O Rio Ave confirmou a sua aversão a jogar em casa, perdendo para o ultra-pragmático Gil Vicente, onde Deus começa a fazer despontar os gilistas como a surpresa do campeonato, com um onze baseado em jogadores que já se encontravam no plantel quando chegou a Barcelos e mais uns quantos oriundos de divisões inferiores, algo que muito apraz o nosso Especialista.

De Braga veio a surpresa da ronda, onde a Académica de Sérgio Conceição foi surpreender os locais com um golo madrugador e aquela dose habitual de sofrimento para o nick one and keep a cleanie. Numa semana de incerteza directiva na cidade dos arcebispos, onde Salvador deu o dito por não dito e afinal sempre se candidata a mais um mandato, Jesualdo não está a conseguir fazer melhor que Peseiro, e sabemos bem como isso acabou.

Em encontro de futuros aflitos, outro clássico do futebol português que passou um pouco under the radar, não existiram golos em Setúbal, garantindo assim Couceiro que não entraria com o pé errado. Entrou no entanto com a mesma equipa com que José Mota saiu (tirando "o outro Cardozo", que veio do banco devido a lesão), pelo que foi apenas mais do mesmo para os lados do Sado.

 

Em Paços de Ferreira e após a derrota caseira de ontem com o Vitória de Guimarães, Francisco Costa e Carlos Barbosa enfrentaram tranquilamente - para grande espanto da nação portuguesa - os jornalistas e anunciaram o final da relação profissional entre ambos. Costinha não falou em fatos, nem em Porsches, mencionando apenas a inexistência actual de condições para continuar à frente do clube. Barbosa, alguns dias depois de ter chamado "ranhosos" aos adeptos, usou o cliché máximo para estas alturas - "Quando não se ganha o treinador é que paga" - tendo depois prosseguido para a listagem habitual de atributos do homem que acabou de despedir.

Nada correu bem ao "Ministro" nesta sua segunda oportunidade como treinador principal de uma equipa. Um início de campeonato dificílimo e sem qualquer tipo de resultado positivo, aliado a um sorteio ingrato na "Xampes" e a um começo de "Aeroliga" muito fraquinho acabam por estar na origem desta chicotada, que até já vinha sendo falada há muito. Pior que os resultados, só mesmo a confrangedora inoperância defensiva (31 golos sofridos em 15 jogos) demonstrada, algo que normalmente acaba por ser um dos espelhos do trabalho do mister durante a semana.

Não tendo conseguido walk the walk, será curioso ver onde Costinha vai aparecer novamente no mundo do futebol, mas também quem irá apostar num "treinador" que perde 2 em cada 3 jogos (4-4-16 de carreira), cujas conferências de imprensa são mais acerca de si do que do seu clube - a quem recomendou alguém com "mais comunhão" com o mesmo para o suceder - ou dos seus jogadores e fala de alhos do topo de um pedestal enquando os outros falam de bugalhos cá em baixo.

2 meses depois da ilusão europeia, a escolha do Paços para a liderança dos destinos da equipa de futebol profissional será também o reflexo daquilo que o clube pensa de si próprio, das metas e das ambições que possui. Apesar da gritante falta de qualificações e da forma como a experiência acabou, Costinha não deixou de ser uma escolha ambiciosa, de alguém que pensava projectar-se para outros voos, pelo que também será curioso ver quem é o homem que se segue na Capital do Móvel.

 

Na outra ponta do país, Abel Xavier despediu-se em grande dos destinos do Olhanense, não só pela vitória contra um concorrente directo (que deixou o Olhanense projectado para mais ou menos 28 pontos, mais do que o suficiente para a manutenção em anos anteriores) mas pela histórica - sim, prevejo que este momento fará parte do nosso imaginário colectivo durante os próximos anos - press que deu na passada 6ª feira.

Há alguns anos afastado da realidade da "bola" lusitana, a fundação para a sua primeira experiência não poderia ser pior. Abel caiu no Algarve de paraquedas, tão "treinador" como Francisco Costa, pegando numa equipa martirizada no ano passado por vários meses de ordenados em atraso, com uma SAD ainda em fase inicial agora sob a batuta de um investidor italiano, uma guerra aberta entre clube e adeptos acerca do local dos jogos, com um plantel que mais parece uma equipa construída no FM, enfim, tudo condições que em nada facilitaram a sua estreia como treinador principal.

Tendo em conta os resultados atingidos até agora (2V, 2D com EST e SPO em casa e 2D, 2E com VGM e MAR fora) e apesar de uma sequência de seis jogos sem vencer quebrada no sábado, até não está a ser um início terrível para o Olhanense, sobretudo olhando para anos anteriores, e que se mantivesse este ritmo estaria tranquilamente acomodado na Liga no final da época.

Mas aparentemente os motivos invocados pelo Sr. Campedelli (administrador da SAD algarvia) para o despedimento são de ordem artística acima de tudo. Ou seja, pegaram por onde dava. O futebol praticado não era de facto o mais bonito, e isto é claramente um understatement, mas até prova em contrário não existiram grandes surpresas nos pontos conquistados ou nos perdidos. No ano passado a salvação foi atingida aos comandos de Bruno Saraiva, que saiu directamente do banco na Distrital para o banco na Liga, pelo que se calhar o Olhanense dá mais valor à rotatividade do posto como modo de agitar as águas e obter resultados do que a verdadeiramente encontrar um líder para tal fim.

 

Voltando ao highlight do fim-de-semana futebolístico - e não resisto a colocar novamente o link para a press, só para assegurar que vocês a vêem -, nos quase dez minutos mais famosos do futebol português no Youtube desde "o melhor jogador chinês da actualidade", Faisal discorreu, entre outras coisas que nos possam ter passado ao lado, acerca de:

 - a pouca significância individual das vitórias
 - quem decide quais são os momentos oportunos
 - fotografias tiradas ao perfil das outras equipas
 - microciclos, palavra fétiche de muitos treinadores
 - a intocabilidade da mentalização da sua relação com os jogadores
 - a etimologia de palavras aleatórias acabadas em "dor"
 - a "eficacidade" necessária para os seus treinos
 - quem decide quais são os momentos oportunos
 - equilíbrios de raciocínio e racionalidade


Por muito que a chicotada possa ter agradado aos adeptos do Olhanense, dos quais muitos até não tiveram que se submeter à rudeza do futebol praticado pois "viram" o jogo no José Arcanjo através do transístor, não deixa de ser uma perda para nós, que vínhamos acompanhando em detalhe a nova carreira de Faisal. Perdemos um showman na verdadeira acepção da palavra.

O discurso elaborado, a cadência trabalhada, o ênfase dado a palavras específicas, a metrossexualização da imagem do treinador, a postura no banco, as aparições na bancada de Oceana Basílio e, acima de tudo, aquele caracol maroto que não pára quieto, deixam-nos já com saudades do "treinador" Abel Xavier, que nunca precisou de falar em Ferraris ou do seu passado para ganhar um espaço no meu, e quase de certeza também no vosso coração.

 

Até à próxima, Abel.