A Selecção
26
Nov

2013

Palestra de Terça-Feira

Por José Miranda

 

A nossa palestra inicia-se mais tarde hoje. Um isolamento tecnológico inesperado levou ao cancelamento do "treino" da manhã e à necessidade de um extraordinário ao final da tarde, início da noite. Começo desta vez pelo fundo da tabela, onde a pressão começa a ser maior a cada jornada que passa. E nós adoramos a pressão.

 

O Arouca foi a Setúbal perder para o que se espera ser um adversário directo. Mais um jogo com produção atacante praticamente inexistente por parte dos arouquenses, demonstrando que ainda não existe um plano B para quando se encontram atrás no marcador. Os setubalenses somaram a sua terceira clean sheet consecutiva depois de terem sofrido sempre nos primeiros sete jogos e alcançaram também a primeira vitória do Vitória no Bonfim nos últimos 7 meses. A saída de José Mota para a entrada de Couceiro já está a ter resultados visíveis, não só numéricos mas também qualitativos, nomeadamente na coesão e calma defensiva que os sadinos demonstram actualmente.

O Paços também venceu pela primeira vez em casa, nesta época, derrotando um inofensivo Belenenses, que também ainda não tem um plano B para quando as coisas não correm bem. Um golo de Fernando Neto resolveu a contenda a favor dos castores num erro crasso de Duarte Machado que acabou por se revelar decisivo. O canhoto ex-lateral-esquerdo do Fluminense é o actual "ponta" do Paços, embora tenha jogado mais como mezzapunta do que em cunha, e é só mais uma adaptação posicional efectuada no futebol português, onde é cada vez mais recorrente a caça "com gato" em vez de "com cão". A necessidade potencia o engenho, e no caso de Calisto so far, so good.

Em Olhão, ontem à noite e a fechar a jornada, tivemos o jogo mais fraco. Não há forma de Olhanense e Académica conseguirem ter alguma qualidade nos seus processos e numa partida que roçou o soporífero, até ao ponto do comentador da SportTV ter manifestado a sua incredulidade por ninguém estar a tentar marcar um golo. Estas duas equipas têm estado associadas aos piores jogos, futebolisticamente falando, do campeonato até agora e pelo que mostraram até aqui encontram-se irrevogavelmente entre os principais candidatos a não ficar pelo escalão superior.

 

No Funchal, o Marítimo quebrou a sua série negra vencendo a surpresa do campeonato até ao momento, o Gil Vicente. No jogo com mais golos da jornada (5), acabou por prevalecer a vontade dos caseiros em inverter a sua situação. No entanto, há quem descreva bem melhor que eu o que se passou Domingo no Caldeirão, pelo menos para o lado dos maritimistas. O Gil Vicente nunca esteve a vencer, o que o impediu de ser igual a si próprio, pois o "Pragmatismo" de Deus não funciona tão bem em desvantagem.

Em Vila do Conde, o Estoril chegou, viu e venceu, num jogo controlado em que só a entrada de Diego Lopes na 2ª parte, colocou algumas questões ao canarinhos. A preparação, implementação e execução do plano de jogo delineado por Marco Silva continuam a ser o cartão de visita da equipa mais disciplinada tacticamente da I Liga. Para os vila-condenses, continua a malapata dos Arcos, com mais um jogo sem ganhar no reduto caseiro. Já não há muitas mais estatísticas para invocar - apenas 6 vitórias em 20 jogos caseiros para o Espírito Santo -, o Rio Ave é muito melhor fora pois pode jogar da forma que prefere, sem ter que assumir o jogo, jogando "ao ataque, fechadinho lá atrás".

 

Dos três primeiros, apenas o Porto jogou bem. Foi também o único que não venceu.

No Sábado, o Porto voltou a baquear em casa perante o Nacional, a sua bête noire dos últimos anos. Depois de uma pressão constante, de ínumeras oportunidades de golo desperdiçadas, foi já na 2ª parte que os azuis-e-brancos se instalaram na frente do marcador. Ao contrário do que lhes tem sido habitual, ainda persistiram na procura de mais golos durante alguns minutos. E como "quem facilita, f***-se" - sábias palavras de um antigo treinador meu - os portistas acabaram por ser castigados quando aliviaram o ritmo, já a pensar no jogo de 3ªF. Depois do golo auri-negro, o Porto ainda ligou novamente o interruptor mas Gottardi foi (continuou) herói a partir daí. Para o Nacional, foi um ponto que caiu praticamente do céu, para uma equipa que nunca conseguiu explanar o estado de "Pragmatismo" a que o Porto os forçou durante a maioria dos 90 minutos.

Antes, já o Benfica tinha batido o Braga em casa, logo na abertura da jornada. Num jogo pouco conseguido dos lisboetas, acabou por ser um rasgo individual, um momento "quero, posso e mando" de Matić a decidir o jogo. O Sporting de Braga adoptou também a postura da moda, mostrando que a Jesualdo afinal ainda não esqueceu aquilo que agora todos sabem. Os arsenalistas tiveram as três melhores ocasiões do jogo, com duas delas a esbarrarem na trave de Artur, mas a falta de caudal ofensivo colocou-os à mercê da sua própria eficácia. O melhor desta partida ficou para a press de Raul José, que afinal não passa de um JJ com cabelo escuro, onde o treinador de linha lateral dos vermelhos mencionou a frase "O treinador não é necessário porque os jogadores sabem o que têm de fazer". Mesmo descontextualizada não deixa de ter piada, sobretudo com a possibilidade de JJ voltar à área técnica com a situação do seu clube invertida na tabela do campeonato.

No Domingo, o Sporting, em mais um sinal da alteração de mentalidade/espírito/fortuna que se vive em Alvalade, ganhou um jogo bem perto dos noventa minutos, sem que tivesse feito muito para que isso acontecesse. Em Guimarães, casa de um dos bastiões do "Pragmatismo", os verde-e-brancos jogaram sempre duas velocidades a baixo daquilo que já vimos esta época e só a passagem para o 4x4x2 acabou por trazer alguma alegria ao estilo leonino. O Vitória pegou no já mencionado anteriormente "0-0 ao intervalo" e tentou esticá-lo para um "0-0 no final", mas este plano tem um pequeno problema, em que os golos sofridos perto do final deixam-nos quase sempre sem tempo de reacção.

 

Com o pobre espectáculo dado por Olhanense e Académica concluiu-se então o primeiro terço do nosso principal escalão. Findas as dez primeiras jornadas, os três da frente encontram-se separados por apenas um ponto, enquanto lá atrás basta uma vitória para se saír dos lugares de despromoção.

As últimas duas jornadas, com treze e quatorze golos cada uma, mostram que há já nesta altura uma excessiva preocupação em não sofrer golos, apontando sempre àquele pontinho ilusório, esquecendo aquele rácio matemático que nos diz que três empates valem o mesmo que uma vitória. No entanto, esta miúfa que os "treinadores" da nossa praça mostram quase todos é também resultado da leveza com que se "chicoteia" em Portugal, onde quase um quarto dos clubes da I Liga mudaram de treinador de livre vontade (e o Belenenses, mas este por motivos clínicos quase ultrapassados).

Podemos também já concluir que este é o ano do "Pragmatismo", visto que a quase totalidade das equipas jogam para o "0-0 ao intervalo", estando este modelo de jogo a contagiar transversalmente o futebol português. É uma nova era em que estamos a entrar e pelo que me parece não há nada que possamos fazer quanto a isso. Afinal de contas, o exemplo vem sempre de cima.

 

PS1 - A melhor equipa a praticar "Pragmatismo" no futebol nacional continua a ser a Selecção. Lição na Suécia, colectiva no particular e individual no geral, para nórdico ver, apreciar e aplaudir com vigor no final. Nada mau para quem andou a fazer bonecos voodoo para o CR7 na véspera do jogo. Bela dicotomia, a dessa sociedade supostamente mais "avançada" que a nossa.

PS2 - Na Trofa foi lançada a primeira galinha preta da época, pelo menos nos escalões profissionais. Resultado: 1-0 para o Trofense, em batalha de últimos da II Liga. O preço da galinha preta viva já está a aumentar.