A Selecção
19
Nov

2013

Palestra de Terça-Feira

Por José Miranda

 

90 minutos. 5400 segundos. Este é o tempo que nos separa do apuramento para o Brasil. Até podem vir a ser 120 minutos, mas só significará que foi mais suado. Se meter penalties, será automaticamente histórico, qualquer que seja o desfecho. Chegámos a este ponto fruto do resultado que levamos para a Suécia que não é, como dizia o outro, nem bom nem mau, antes pelo contrário. Ao menos, pela singeleza do mesmo, vai permitir-nos fazer aquilo em que somos melhores.

 

Na 6ªF em Lisboa, fomos para cima dos escandinavos, pressionámos alto, metemos imensas bolas na área, mandámos no jogo e estivemos sempre por cima. Noutras palavras, fizemos exactamente o jogo em que somos mais fracos. O domínio consentido de onde nunca os conseguimos arrancar - ou quisemos, visto que quando os deixámos aproximarem-se da nossa área na 1ª parte fizeram-no logo com perigo - tirou-nos todo o espaço para conseguirmos pôr as nossas virtudes em prática.

A nossa gritante falta de ideias nos últimos 30 metros sobressaiu novamente, independentemente do adversário ser a Suécia ou o Luxemburgo. Somos óptimos na circulação faixa-a-faixa, e devemos dominar uma qualquer tabela mundial que conte os overlaps do lateral, mas toda esta mecanização acaba por se esgotar no inevitável cruzamento sem direcção para a área. E esgotados do modelo parecem também alguns jogadores que se limitam a run through the motions e a ocupar determinados espaços na certeza de um desfecho pré-definido onde a nossa arte e o nosso engenho raramente têm espaço para se soltar.

Hoje, em Estocolmo, a necessidade dos altos e toscos de marcar um golo, irá concerteza tirá-los da toca e obrigá-los a terem que discutir o jogo pelo jogo. Já não iremos ver a táctica "corre Ibrahimovic" - que tão bem executaram na Luz, com o bem alto e nada tosco avançado do PSG a mostrar que ganha mais de metade das bolas aéreas no 1x1 e que consegue guardá-la enquanto os outros se disponibilizam (ou não) para o ataque - mas sim um futebol que vai pressionar-nos, que vai tentar espremer ao máximo aquilo em que realmente nos batem aos pontos - a supremacia nos ares - e esperar que acabemos por sucumbir perante o maior vigor físico e disciplina na implementação desse plano.

 

E isto não poderia vir mais de encontro às nossas ambições. Irá permitir-nos finalmente aplicar o modelo de jogo em que somos melhores, ao ataque bem fechadinhos lá atrás. Em vez de 5 metros, os nossos "craques" vão ter 15. Em vez de estarem trancados entre linhas e com pouco tempo para pensar, os nossos "decisores" vão ter aqui e ali uns metros para progredir e desencantar uma linha de passe que isole alguém. E o plano para hoje passa de certeza por isto mesmo. Vamos deixá-los morder o isco, soltar os "cavalinhos" na frente e deixá-los correr.

Se eu acho que nos dava jeito um #6 que fizesse mais faltas e que fosse mais físico? Acho, naturalmente. Seríamos melhores. Se eu acho que dava jeito que os nossos titulares também o fossem nos seus clubes? Acho, naturalmente. Seríamos melhores. Mas isso agora já não interessa. Alea jacta est quanto a isso. O 11 está escolhido, são aqueles que vão jogar.

Vamos ter que manter a elevada intensidade que mostrámos nos despiques pelo ar - Pepe e Bruno Alves têm a personalidade certa, até certo ponto, para estas lutas - e a concentração em todas as bolas paradas. Teremos que ser incisivos no aproveitamento das oportunidades de contra-ataque mas acima de tudo resilientes nas mesmas, nunca abandonando essa arma, para termos sempre que possível sobre pressão a defesa sueca.

 


Agora, do dizer ao fazer ainda vai uma longa distância. Apesar de uma temperatura que é sempre estranha para nós, do público adversário, do CR7 sueco e de tudo o resto, o contexto em que o jogo se vai desenrolar daqui a pouco está de feição às virtudes do nosso futebol actual, dos nossos jogadores, melhor do mundo incluído, e do nosso treinador. Cabe-lhes a eles, e a mais ninguém, provar isso mesmo nos 90 minutos do Friends Arena. Até porque o Brasil, está já ali...

 

PS1 - Platini, estamos todos de olho em "ti".

PS2 - "Taça" só na da Liga, onde o Leixões deixou o Vitória do berço pelo caminho. Na da Federação, nem Tondela nem o Fafe - a última equipa invicta em Portugal - conseguiram bater adversários de escalões acima.

PS3 - Voltou a acontecer este fim-de-semana, desta vez em Touriz, o evento mais temido que pode ocorrer num campo de futebol, num recinto de jogo, qualquer que ele seja. A inevitabilidade desta ocorrência, seja em que ponto do globo for ou em que momento for, nunca irá esmorecer o abalo colectivo na "força" sentido quando nos damos conta da mesma. Não é para isto que o Desporto existe.