A Selecção
15
Out

2013

Palestra de Terça-Feira

Por José Miranda

 

Logo à noite, em Coimbra, a Selecção tem mais uma oportunidade para nos mostrar porque é que deveríamos continuar a ver os jogos da mesma durante as fases de qualificação. 

No (cada vez menos) derradeiro jogo da qualificação para o Mundial do Brasil, acaba por pouco haver em jogo para nós pois a já expectável vitória lusa por uma margem dilatada sobre a amadora - e as coisas têm que ser chamadas exactamente como são - selecção luxemburguesa é o único cenário que nos poderá permitir a possibilidade de qualificação directa, que necessita também de uma improvável derrota russa no Azerbaijão e que o diferencial de golos seja superior a 4 entre estes dois resultados.

 

Como se vê, não se espera uma tarefa nada fácil, sobretudo porque não dependemos de nós. Esse controlo sobre o nosso destino foi perdido em dois jogos caseiros, contra selecções ditas inferiores mas que souberam vir cá jogar àquilo que se chama "Futebol" e os nossos apareceram apenas para o concurso de penteados e barbas. E à semelhança de muitas das coisas que se passam neste país, e derivadas das quais acabámos por também perder o controlo dos nossos destinos colectivos, chegámos a este ponto só com base no laissez faire, laissez passer.

A abordagem despreocupada com que encarámos ambos esses embates acabou por nos sair cara no final. Feitas as contas, foram os dois empates com Irlanda do Norte e Israel - e nós já temos um passado recheado de falhanços contra países começados por I, com excepção da Inglaterra - que nos colocaram neste estado, a ter que recorrer à calculadora, a ter que seguir atentamente o jogo em Baku e a ter que despender mais alguma da nossa energia emocional no processo que envolve o crescimento da esperança num resultado favorável, mesmo que improvável.

 

E começa a não ser fácil este compromisso com o Clube Paulo Bento. Mesmo passando ao lado das convocatórias e das suas justiças e injustiças, muito menos exaltadas do que em gerências anteriores - até quando estamos a falar de alguns jogadores que nem nos seus clubes jogam -, há lacunas gritantes no fio de jogo da equipa que continuam por colmatar.

É impressionante como jogadores que se conhecem tão bem - muitos já contam com 3 grandes competições em conjunto - ainda jogam tantas vezes como se fossem desconhecidos. E para piorar a situação, ainda decidimos ignorar os rótulos que quase sempre compõem o plantel de uma equipa - o capitão, a estrela, o maestro, o carregador de piano, o lateral que ataca, etc. - e apresentamo-nos sempre em campo com 11 estrelas, em que cada uma faz apenas e só aquilo que bem lhe apetece e ninguém pode dizer nada a ninguém.

 

Não deixamos de ser uns sortudos, e como muitas das outras nações snob do panorama internacional, já atingimos um status que nos permite menosprezar a qualificação, esperando tranquilamente pelo Mundial onde os jogos já vão ser "a sério". Mas apesar da reviravolta na fortuna da equipa de todos nós nos últimos 13 anos, o nosso nível de interesse acaba sempre por se equiparar ao dos jogadores. E nós só nos vamos preocupar mais que eles durante mais algum tempo. A cada performance lackluster com que a equipa de Paulo Bento nos brinda, o cansaço de ver as tais estrelas desrespeitarem um jogo oficial, jogando com a intensidade de um daqueles jogos em prol de uma qualquer causa humanitária, vai crescendo.

Sei que parte desta arreliação toda só acontece porque temos tendência para ter má memória. Já nos esquecemos que no século XX apenas participámos em dois Mundiais (66 e 86) e três Europeus (84,96 e 00), menos do que as seis competições a que fomos ininterruptamente nos últimos 13 anos - se bem que a uma delas foram os outros que vieram cá.

Em 1997 começámos a mandar às malvas a qualificação com um empate - "Hoje em dia já não há jogos fáceis. A Arménia é uma das melhores selecções da Europa" disse o nosso timoneiro da altura. Em 2013 tornou-se uma grande chatice termos que ir ao playoff, sobretudo porque a nossa preferida Bósnia-Herzegovina é cabeça-de-série e a muy odiada França não é.

Agora, nós enquanto adeptos podemos relaxar e não encarar todo este processo de forma séria. Eu vi a convocatória, e o meu nome não estava lá - na altura dos anúncios do Scolari andávamos todos em sobressalto - portanto eu posso relaxar, sentar-me no sofá em casa, na cadeira no café, onde for, e ver o jogo, com tranquilidade. E como eu há muitos mais. Milhões. Aliás, no total só há cerca de 30 a 40 portugueses que durante aqueles 90 minutos em que joga a Selecção têm que estar concentrados e "trabalhar" para o greater good nacional.

É pedir muito?