A Selecção
10
Dez

2013

Palestra de Terça-Feira

Por José Miranda

 

15 de Janeiro de 2005. Foi essa a data em que, até ao domingo passado, o Sporting tinha liderado isoladamente o Campeonato pela última vez. Como tenho vindo aqui a escrever, já não há como escamotear a qualidade e consistência dos verde-e-brancos e parece que os seus líderes não vão tentar esconder isso durante muito mais tempo, até porque alguns já demonstram grande dificuldade para o conseguir.

 

Acabou por ser a surpresa da jornada a permitir aos leões de Alvalade terem a possibilidade de alcançar tal desiderato. Logo na 6ªF, o Arouca foi ao lado sul da 2ª Circular conquistar 1 ponto e fazer o Benfica regredir na sua campanha. Os arouquenses nunca mostraram grande vontade de atacar mas não tiveram como não aproveitar as facilidades que os encarnados lhes ofereceram. O desnorte nas hostes benfiquistas - quem é Funes Mori? - ficou bem patenteado nas hesitações que se viram no banco, no já habitual “vais entrar, afinal não vais” com que JJ nos tem presenteado este ano.

 

Sábado voltou a ser dia de maratona futebolística, quebrando o ciclo dos últimos fins-de-semana.

Logo a começar o Estoril comprovou o seu estatuto de melhor equipa forasteira (15 pontos em 6 jogos) e ganhou tranquilamente na Mata Real, com um resultado que se avolumou no final com o expectável adiantamento dos pacenses na procura da igualdade, primeiro, e do golo de honra, no final. Os castores usaram dois pontas-de-lança pela primeira vez este ano, num novo look para o 11 de Calisto. Esta experiência acabou por ser desfeita para a última meia hora, voltando ao típico 4-3-3 lusitano, apesar do resultado negativo ser, na altura, fruto do que vai ser um dos maiores “frangos” do ano. Os canarinhos mostraram a sua solidez habitual, mas no entanto ainda não conseguiram replicar a sua boa forma away nos jogos na Amoreira.

Em Guimarães, capital nacional do "Pragmatismo", o nil nil final acabou por ser o espelho do que se passou. Num jogo com muito pouca intensidade, a evidente falta de disponibilidade de ambas as equipas para tentarem ganhar o jogo só foi equiparada pelo empenho colocado na tentativa de não sofrer golos. Do ponto de vista dos azuis, até percebo a abordagem estratégica naquilo que são as suas contas para a manutenção, agora do lado dos vimaranenses, e até porque o Campeonato é a única competição em que ainda estão, só dá para perceber no caso da equipa estar tão rotinada no “Pragmatismo” que já não consegue mandar no jogo.

No jogo grande do fim-de-semana, o Sporting de Braga acabou por ser presa fácil para um Porto sedento de vitórias. Os bracarenses acabaram por nunca se conseguir soltar da pressão portista e raras foram as vezes em que conseguiram estar em posse no meio campo adversário. Tal como o Paulo referiu no final do jogo, este Porto não foi diferente em termos estruturais, mas foi muito diferente em termos de atitude e de entrega. Desenganem-se os que acharem que os males dos azuis-e-brancos estão sanados, mas “querer é poder” e pelo menos essa parte foi garantida no Sábado, ficando os próximos jogos para análise deste tópico.

 

Domingo à tarde, apenas dois jogos - aquele horário do Gil Vicente-Sporting já não conta como “domingo à tarde” - no que continua a ser a moda do nosso futebol. Parece que os últimos dois fins-de-semana foram só para enganar e estamos de volta ao mosaico habitual de jogos espalhados entre 6ªF e 2ªF.

O Rio Ave foi vencer o Olhanense, continuando a sua perseguição ao Estoril na liga dos jogos fora (13 pontos em 6 jogos). Este estado, que já vem da época passada, parece não largar os vila-condenses e esta inabilidade para jogar em casa como jogam fora irá ter repercussões significativas nas suas aspirações europeias, pois não é com 3 pontos em 6 jogos caseiros que se chega à UEFA. Quanto aos algarvios, vou dar mais algum tempo a Paulo Alves antes de voltar a pronunciar-me sobre o Olhanense. De momento, só posso dizer que tenho saudades do Faisal.

No Funchal, derby madeirense com a recepção do Marítimo ao Nacional. Embora declaradamente parcial e descaradamente instigadora, esta peça ajuda-nos a entender mais um pouco acerca desta rivalidade e das suas particularidades. Num jogo que primou pela emotividade, a divisão de pontos acaba por saber a pouco para os visitados, que se deixaram empatar mesmo no final e já com mais um jogador. Para os alvi-negros, começam a ser muitos golos sofridos nos jogos fora, mostrando algumas fragilidades defensivas, algo estranho nas equipas de Manuel Machado, mais conhecido por ser o arqui-inimigo de Jorge Jesus do que um seguidor da escola pragmática.

 

Foi em Barcelos que o Sporting se isolou na liderança, com mais uma vitória tranquila, apesar da forte oposição gilista. Apesar da tarefa facilitada com a expulsão de Pecks, os de Lisboa dominaram sempre o jogo e mesmo sem criar muitas oportunidades antes de se apanharem com mais um, nunca pareceram em risco de perder os três pontos. Mostraram-se sempre confortáveis na liderança e Rui Patrício até deve estranhar as poucas vezes em que é chamado a intervir.

Este Sporting veio para ficar, e neste momento nem parece a mesma colectividade que nos últimos 4 anos, além de tudo aquilo com que foi entretendo os aficionados do desporto rei com excepção dos seus adeptos, ficou no total a 116 pontos dos respectivos campeões. Independentemente de todas as alterações na estrutura leonina (presidente, direcção, equipa técnica, jogadores, adeptos incluídos), estou convicto que a verdadeira base desta mudança acaba mesmo por ser Leonardo Jardim. A consistência da sua postura é irrepreensível, a solidez do modelo de jogo e dos processos instalados é notável para quem tem menos de 20 jogos oficiais ao leme e não há como não adorar a forma contida como tem festejado os golos, apesar da euforia alheia que passa por ele a caminho do relvado nesse momento.

Acabe esta época como acabar, a passagem de Jardim pelo Campo Grande acaba por marcar uma mudança na voz de comando que se ouve do banco. Apesar do seu carregado sotaque madeirense, já não é preciso que seja o adjunto a dar as indicações, o médico também já não grita tácticas lá para dentro e até o Presidente e o Director estão quietinhos. Neste momento, de futebol, fala apenas Leonardo. E até agora, tem corrido muito bem.

 

A fechar a jornada, na 2ªF o Vitória de Setúbal comprovou a sua subida de forma desde a chegada de Couceiro, com 9 jogos sem perder, com 6 vitórias pelo meio (5 jogos, 3 vitórias para o Campeonato). Não há grandes alterações no 11 base, sendo que a defesa até tem sido exactamente a mesma, pelo que o antigo director desportivo do Alverca (um verdadeiro all around family entertainer no mundo do futebol) está a ser até agora um gamechanger. A Académica tem mostrado melhorias, mas até agora os estudantes só pontuaram quando marcaram. Se calhar o "0-0 ao intervalo" que o Sérgio tenta sempre estender até ao fim do jogo tem que ser repensado.

 

Estamos quase a chegar ao final da primeira volta e a dispersão das equipas ao longo da tabela começa a mostrar-nos aquilo que cada equipa vale. Fica para a paragem de Natal uma análise mais aprofundada ao que se tiver passado até aí, mas recuperando uma frase recente de José Mota - "É cada vez mais difícil jogar em casa no nosso campeonato" - lanço já o mote para o que nos espera até ao final da época. Apesar de sermos um país onde "os conhecimentos valem mais que o conhecimento" - esta uma recente de Cajuda, outro clássico -, existe ainda espaço para que os profissionais acreditados instalem o novo modelo do futebol português, o "Pragmatismo".

Resta-nos perceber se este novo desenho tem génese na vontade dos misters ou se é reflexo das pressões dos resultados e da percepção que os clubes, leia-se presidentes, têm desses resultados. Mas esta acho que é como a história da galinha, do ovo, e de quem veio primeiro.


PS1 - 23 e tal, mas ainda é 3ªF.

PS2 - Os melhores golos do fim-de-semana vieram do clássico entre os B's. Google it.