A Selecção
05
Nov

2013

Palestra de Terça-Feira

Por José Miranda

 

Duas jornadas. Foi aquilo a que tivemos direito. No próximo fim-de-semana joga-se outra vez para a Taça. No seguinte, estará a meio a decisão da ida da equipa de todos nós ao Mundial de 2014. Campeonato, só a 23 de Novembro.

Tenho sérias dúvidas que isto seja bom para as nossas equipas. Sendo que as paragens internacionais são obrigatórias mundo fora, as demais são todas auto-impostas. As constantes interrupções no processo competitivo retiram toda e qualquer continuidade à forma que as equipas vão desenvolvendo, para as rotinas que se vão instalando, até para as interacções que se vão estabelecendo com a massa adepta - e este úlitmo até pode ser um factor influenciador de algo debatido mais abaixo.

Em Portugal, no futebol e noutros desportos, continua a treinar-se muito mais do que se "joga", em mais um exemplo da transversalidade da nossa condição como portugueses a todos os aspectos para a nossa sociedade, em que se fala muito mais do que se faz. Mas a competição acaba por ser o principal momento de crescimento de todos os intervenientes, pelo que com este modelo dos "2 jogos de campeonato por mês" só continuamos a dar tiros nos pés. Ao nosso campeonato não falta qualidade, falta quantidade.

 

Quanto ao futebol que vale 3 pontos, e nesta breve aparição que fez nos nossos quotidianos, logo na 6ªF em Coimbra, o Benfica foi, dos da frente, aquele que levou os 3 pontos de forma mais tranquila, com o resultado a ser bem melhor que o futebol praticado. Os dois golos em 3 minutos, derrotaram logo ali a Académica, que apenas mostrou fragilidades sendo no entanto uma das equipas que melhor executa a sequência "central-lateral-central-central-lateral do outro lado-central-chutão para cima". Há muito a fazer, Sérgio.

Em mais um daqueles jogos que se ganham sozinhos, este valeu pelo golo de Marković, o seu segundo deste género vestido de encarnado, provando cada vez que toca na bola na zona central que aquele é o seu habitat natural e não encurralado junto a uma das linhas.

Sábado em Belém, e não estou a falar da terra de Jesus (o original), o Porto não foi além de um empate, nunca conseguindo engrenar aquela mudança que costuma fazer a diferença. Na antecâmara de um jogo decisivo para as suas ambições europeias, ninguém se conseguiu disponibilizar na totalidade para a tarefa em mãos, tendo o empate sido cedido numa desconcentração típica de quem acabou de marcar um golo e já está a pensar no jogo em São Petersburgo (ou em Zenit, como disse o Paulo na flash do jogo com o Atlético de Madrid). Em suma, 2 pontos perdidos, 3 de vantagem, same ol', same ol'.

O Belenenses defendeu-se sempre muito bem, sobretudo em situações em que o "bloco" estava metido dentro da área, mostrando uma calma quase britânica na maioria desses lances. Desperdiçou algumas oportunidades para almejar uma surpresa ainda maior, desaproveitando várias oportunidades nos últimos 15 minutos para sair em contra-ataque em superioridade númerica, mas os seus processos nunca saíram nem fluídos nem precisos.

No Campo Grande, o Marítimo acabou por sucumbir fruto das suas fragilidades, a defensiva no particular e a emocional no geral. Com um fio de jogo escorreito e com abordagens estratégicas perfeitamente definidas em função do binómio tempo-resultado, falta à equipa de Pedro Martins dar aquele click (mais detalhes aqui). Pensou-se que o jogo com o Paços poderia ser o turning point para a equipa ex-Costinha, mas talvez pudesse realmente ter sido o dos leões da Pérola, que não voltaram a pontuar para o campeonato, somando no sábado a sua 5ª derrota consecutiva, uma miragem nos últimos 5 anos.

Os leões de Alvalade deram mais uma prova da metamorfose em curso para aquelas bandas. Numa situação em que normalmente baquejava no passado - começar a ganhar e sair para o intervalo a perder - o Sporting virou o resultado na 2ª parte, contando para isso com o apoio intransigente dos seus adeptos, começando a deixar de ser necessária a já cansativa e "goebbeliana" campanha de falar nisso em todos os momentos.

Com estes resultados, pela primeira vez em muitos meses, Sporting e Benfica ganharam pontos ao Porto na mesma jornada. A significância estatística deste tidbit diz mais acerca dos fracos anos sportinguistas do que do domínio azul-e-branco.

 

No espectro menos falado, menos filmado e menos fotografado do nosso campeonato, Arouca, Paços de Ferreira, Nacional e Olhanense não ajudaram a inverter essa tendência, tendo contribuído com 0 golos para o pecúlio da jornada 9.

Os emblemas forasteiros ainda terão a justificação da chicotada da semana passada para mostrar aos descrentes. Os nacionalistas pagaram caro a expulsão de Ali Ghazal antes da meia hora, tendo a sua estratégia saído obviamente condicionada a partir desse momento. Tendo já desperdiçado 5 pontos com Arouca e Olhanense, os auri-negros terão que continuar a compensar fora de casa a inoperância registada no Estádio da Madeira este ano.

Sendo o recém-primodivisionário que mais investiu na construção do plantel, e tendo em conta o contexto em que se realizam as deslocações ao seu reduto (vão ter que lá ir para comprovarem), é vital ao Arouca manter uma boa prestação caseira para assegurar o seu lugar no campeonato do ano que vem. Na ascensão que efectuou desde 2006/07, quando competia na 1ª Distrital de Aveiro, o Municipal de Arouca foi sempre a fortaleza que se espera de um "reduto" e até agora está a tardar em sê-lo também na Liga Zon Sagres.

 

Numa jornada marcada pela predominância das vitórias forasteiras, Vitória de Setúbal e Rio Ave bateram equipas teoricamente mais creditadas.

O Estoril jogou o seu habitual, mas as evidentes demonstrações de cansaço estarão na génese da falta de qualidade no momento da decisão. Com a experiência europeia, na pior das hipóteses, a meio, já é notório o desgaste da mesma num plantel que não tem o mesmo número de soluções de outros. Vítima de um lance fortuito a inaugurar o marcador, capitulou no final em mais um erro mental. O Vitória sadino voltou a não sofrer golos sob a batuta de Couceiro, mostrando aí uma substancial diferença para o anterior regime (quase 2,5 golos sofridos por jogo), obtendo uma vitória caída do céu (literalmente no caso do penalty) num campo em que a equipa da casa muito raramente não marca.

Em Braga, perdeu-se pela 4ª vez consecutiva e de acordo com as notícias de hoje, Salvador já arremessou a palavra "júniores" para a conversa de balneário com os seus séniores. Jesualdo não deverá estar em perigo, até porque o Braga tem sido gerido como poucos nos últimos anos, mas o ambiente não estará fácil de certeza. Nada a que o "Professor" não esteja habituado.

O Rio Ave comprovou mais uma vez que é uma equipa que se dá bem fora. Desde a entrada do Espírito Santo no clube, somam 10 vitórias, 3 empates e apenas 7 derrotas nos jogos fora do Estádio dos Arcos - onde têm apenas 6 vitórias em 19 jogos. A diferença da média de pontos obtidos mediante o local do jogo (1.00pts/j contra 1.65pts/j) é gritante e já não há como escamotear este facto. Embora não existam grandes diferenças na sua abordagem aos diferentes encontros, a postura das equipas visitadas encaixa-se melhor nas suas ideias de jogo.

Este Rio Ave acaba por ser a epítome do que José Mota disse pouco tempo antes de ser despedido - "Hoje em dia é muito mais difícil jogar em casa do que fora" - e que começa a ser demonstrativo de um novo estilo para a escola de treinadores portugueses, muito fruto do observado no seu expoente máximo. No fundo, a culpa é do Zé. Como sempre.

 

Para o final, o destaque da semana e também uma menção honrosa.

Destaco o Gil Vicente, que assumiu o 4º posto após uma vitória caseira sobre um Vitória de Guimarães europeu. Ainda é cedo para se anunciarem as "surpresas" do campeonato mas até agora tem sido o Gil. Vamos também pôr de lado o "pragmático" que temos utilizado para definir o estilo de jogo da equipa de Deus e passar utilizar uma palavra muito mais em voga para definir uma equipa que já ocupa lugares europeus, sendo que a partir de hoje os barcelenses passam a ser "maduros".

Um dos exemplos desta recém-adquirida maturidade é o seu capitão, César Peixoto. O canhoto que não quis ser o lateral-esquerdo do Benfica, mudou-se de armas e bagagens dos holofotes das grandes cidades, voltando às origens em Caldas das Taipas e trabalhando a somente 35 quilómetros de casa - um sonho para muitos portugueses. Aos 33 anos, o patrão do meio-campo gilista, espalha agora em Barcelos o compêndio da classe, QI futebolístico e experiência adquirida pelo Porto, Guimarães, Barcelona, Braga e em Lisboa, sempre com um profisisonalismo exemplar.

Este fim-de-semana, César catapultou o Gil Vicente para a ribalta da actualidade, envergando o 4º lugar no campeonato quase até ao final do mês de Novembro, mas muito mais que o golo, o que ficou na retina foi a quase "bina" que executou na 2ª parte (os costados têm que estar paralelos ao solo para não ser um "moinho"). Depois de alguns clubes, títulos de fazer inveja e filhos com a Isabel e com a Diana, fiquei com pena não ter conseguido juntar (mais) um golo de antologia ao seu CV.

 

So long, Campeonato. Até 23 de Novembro.