A Selecção
04
Fev

2014

Palestra de Terça-Feira

Por José Miranda

Long time no see.

Não estava nada fácil de sair este post. Janeiro não foi um mês nada fácil... Entre festejos excessivos para iniciar o novo ano, o desaparecimento do Rei, um dos clássicos mais fraquinhos a nível futebolístico dos últimos anos, as apenas três jornadas de futebol nos últimos 40 dias, o 10º aniversário da última vez que jantei no "Cromos da Bola" na Caparica, o ridículo da Taça da Liga, perdi quase tanto gás como o Sporting. Acabou por ser a sporTViseu - velha conhecida de outra história - em conjunto com a LPFP a "acordar o monstro"...

 

Começando pela LPFP, os acontecimentos das últimas semanas mostram que é cada vez mais uma organização desprovida de rumo, de ideias, de liderança e de qualquer tipo de poder institucional.

Mário Figueiredo tem se desdobrado em entrevistas nos últimos tempos, mas a maioria delas é só um apanhado de queixinhas contra os "poderes instalados". Eu, pelo que me toca, sempre pensei que o Presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional ainda mandasse nalguma coisa, mas aparentemente esse não é o caso. Diz ele.

Quem tentou fazer um pouco mais foram os clubes, que organizaram um mini coup d'état que acabou por nem sequer sair da casa de partida, entre outros motivos, devido a alegadas quotas em atraso. O nosso futebol, nem inventado...

 

Por falar em invenções, depois ter presenciado um dos momentos mais criativos de 2013, a sporTViseu teve a felicidade de captar e de fazer chegar até nós, de um excelente ângulo, a melhor finta deste início de 2014. Sei que isto já foi na semana passada mas não pode passar sem um olhar mais atento. Foi em Viseu, em duelo entre o Académico local e o Sporting da Covilhã, com o resultado em 1-0 quando Duarte Gomes fintou os 22 jogadores, as equipas técnicas, os adeptos, e o futebol.

Aos 96 minutos, ainda dentro dos 8 minutos adicionais que o jogo tinha motivado, e depois do que parece ser uma fragatada das boas, o árbitro lisboeta mostrou qualidade técnica, apitando de forma peremptória, pé direito a fornecer apoio à frente, costados levemente inclinados, braço a noventa graus a apontar para a marca do castigo máximo. Com o aproximar dos jogadores locais, que foram protestar o improtestável, sacou de novo argumento de qualidade, indicando não existir discussão com um move do reportório de uma qualquer ginasta russa que fez um duplo mortal para sair da trave.

Mas o toque de mestre chegou aos 0:40, quando se esgueirou para dentro da área sem que ninguém notasse. Os jogadores do Sporting estavam entretidos a discutir quem batia o penalty e os do Académico a colocarem-se em redor da meia-lua, para garantirem as melhores posições para um eventual falhanço.

Aí, completamente isolado, olhou para o fiscal para ver se estava em jogo e rodopiou sobre si próprio, transformando um penalty num livre indirecto. O sururu que se gerou a seguir, o minuto e meio para meter a barreira a uma distância duvidosa e o ter acabado o jogo sem dar qualquer tipo de descontos da situação que criou, são só mais achas para uma fogueira que já ardia bem alto.

Vitor Pereira bem defende que os árbitros, enquanto classe, têm que ser mais respeitados. Mas é muito complicado quando coisas destas acontecem. Em campeonatos mais evoluídos, incluindo os de outros desportos, esta seria uma daquelas situações que tinha direito a um relatório de 21 páginas a explicar a visão de todos os envolvidos, a decisão e o porquê da decisão. Por cá, no pasa nada.

 

Onde felizmente ainda se vão passando algumas coisas dignas de registo é dentro de campo, aquela parte do nosso futebol da qual ainda se fala muito pouco, num fim-de-semana que marcou a revolta dos menos abastados.

Começou logo na 6ªF, onde o Arouca de Pedro Emanuel (que um amigo meu confundiu no domingo com Sérgio Conceição, acabando a justificar-se "eles são todos iguais: emanuel, conceição, jorge, domingos, etc.") foi somar mais um importante ponto para a sua luta. A expulsão de Evandro não só ajudou os arouquenses a chegarem ao empate, como ainda mostrou que mesmo sendo um jovem (36 anos) e não sendo um nativo, Tiago Ribeiro já percebeu que "quem não chora, não mama" e veio logo dizer que o Estoril começa a ser um incómodo e depois seguiu em frente para teorias da conspiração relacionadas com o já mencionado coup.

 

O Sábado foi palco de 3 jogos, com sobreposições e tudo, mostrando mais uma vez a desordem que vai na nossa calendarização, com 1 jogo na 6ªF à noite, 3 no Sábado, 2 no Domingo, 1 na 2ªF e ainda um na 4ªF.

No Funchal, o Marítimo jogou com a dupla de centrais que o nosso tifosi anda a pedir há algum tempo e conseguiu uma rara clean sheet, logo contra o campeão. Mesmo sem Héldon, beneficiou de um erro crasso de Danilo para se colocar na frente e resistir até ao final. O Porto não mostra sinais de melhoria, e de certeza que Pinto da Costa começa a ficar farto de passar tantas manhãs no Olival, a ver treinos de recuperação, só para mostrar que está tudo na mesma.

Entretanto, em Setúbal, o Vitória local construiu cedo uma vantagem que levou até ao fim. Rafael Martins apontou os 2 golos da vitória sadina, aumentando o seu total de época para 5, e começando cada vez mais a parecer aquele avançado brasileiro que marca a cada 7 jogos. O Rio Ave perdeu o jogo, mas não saiu da Arrábida de mãos a abanar.

A fechar, em Barcelos, o Gil Vicente arrancou um empate a ferros ao líder Benfica. Os galos sofreram mais contra 10 do que contra 11, numa incapacidade que espelha os últimos tempos da equipa de Deus, mas o seu abono de família das últimas épocas, o soberbo Adriano Facchini, acabou por ser decisivo mais uma vez. Os encarnados de Lisboa continuam a época de altos e baixos, com situações cada vez mais caricatas na lateral, que além do entra-não-entra que depende do feeling agora também envolvem discussões tácticas com jogadores. Ao menos, o líder benfiquista deixou claro que nada tinha a ver com a perda de pontos:

"O que faltou? Faltou, por exemplo, o Cardozo ter convertido a grande penalidade no último minuto. Mas nada se pode dizer da qualidade de jogo do Benfica."

 

O descalabro dos ditos "grandes" continuou no Domingo, com o Sporting de Braga a perder supreendentemente no Restelo. Sob as asas de Miguel Rosa, os Belenenses sacaram o seu melhor resultado da época, numa altura em que a pressão começava a aumentar. Nos arsenalistas, o momento de génio de Alan não foi suficiente para encobrir a desinspiração colectiva.

Em Alvalade começou-se em ambiente de festa, com casa cheia e apresentação de reforços, um deles com um passado pouco comum. Apesar da qualidade de Quaresma, Héldon é claramente a melhor contratação de Janeiro, sobretudo tendo em conta as posições em sub-rendimento do 11 dos leões. O Sporting entrou muito forte no jogo, para acabar cedo com a contenda, mas a Académica deu muito mais luta do que a que os sportinguistas desejavam. Magnífico Ricardo, a comandar uma defesa à inglesa em que todos se atiram para a frente da bola e nunca falta ajuda a ninguém.

 

Ontem o Nacional foi a Guimarães bater os locais, demonstrando que é, cada vez mais, um dos principais candidatos à Europa. Os vimaranenses precisam de uma maior consistência defensiva para que o plano A funcione, até porque já vimos que não há um plano B. Do outro lado, e com um plantel que até tem um vasto leque de opções para os seis da frente, Manuel Machado tem conseguido levar avante o seu plano de jogar só com adaptações a médio, até agora com sucesso.

Amanhã ainda teremos o final desta jornada. Ficou guardado para 4ªF o duelo dos que se encontram abaixo da linha de água. Calisto é um crente no "0-0 ao intervalo" e espero que os dias extra de treinos tenham dado para Galderisi já saber o nome de todos os jogadores, os que já tinha e o contentor de italianos que chegou no fecho do mercado. O mínimo que se pode dizer do 1º jogo deste Olhanense renovado é que é intrigante.

 

No próximo fim-de-semana, além do sempre engraçado duelo de Vitórias, teremos o tira-teimas da 2ª Circular. Há muitos anos que um derby lisboeta não tem a significância do de Domingo que vem, entre 1º e 2º e bem dentro do campeonato, pelo que infelizmente espero desde já o descambar da cortesia, pouca mas a suficiente, a que temos assistido ultimamente entre estes dois emblemas rivais.

Cá estaremos para ver.