A Selecção
26
Dez

2013

Palestra de Quinta-Feira

Por José Miranda

 

Novamente fora da ordem habitual, a "Palestra" decorre hoje à 5ªF, aproveitando para passar o Natal em família e aguardando pelo regresso dos sul-americanos, que cumpriram a habitual migração de Inverno até ao outro lado da linha do Equador.

 

O passado fim-de-semana futebolístico iniciou-se à 5ªF, com um Marítimo-Braga, cuja animação começou bem cedo nas ruas do Funchal. Ao que consta alguns dos adeptos bracarenses começaram logo cedo a mostrar a sua indignação, tendo aterrado na Pérola em modo Aeroporto-Estádio-Aeroporto, partindo tudo pelo caminho. Não sei se reclamavam da data e hora do jogo, pois há com certeza muita coisa importante para se fazer na última 5ªF à noite antes do Natal, mas voltaram a subir o tom dos protestos final de um jogo, que até foi, pelo menos, emotivo, que conseguiu prender-nos mais ao sofá do que aquelas cadeiras de plástico estavam presas ao ex-Estádio dos Barreiros. O sururu que se gerou necessitou da intervenção das forças da autoridade e, apesar de ambos os treinadores se terem coibido de participar no saneamento da ocorrência, tudo acabou rapidamente.

 

 

Tal como tinha já tinha mencionado na semana passada, o Porto não veio numa altura nada boa para o Olhanense, ao contrário do Olhanense que veio mesmo a calhar para o Porto, e sobretudo para Carlos Eduardo. A iniciar o calendário de 6ªF logo às 19:00, hora do dia em que muita boa gente ainda está ocupada com outras coisas da vida para ter a disponibilidade para isso do futebol, o novo "artista" azul-e-branco assinou um golo quando já tinha batido os dois cantos que garantiram a vitória. Depois de uma exibição engraçada em Vila do Conde, nada como uma goleada (pelos padrões contemporâneos) caseira para oferecer aos adeptos, como se de um cabaz de Natal se tratasse.

Em Setúbal, o Benfica bateu calmamente o Vitória local, com ênfase para a parte da "calma". Num clássico que costuma ser bem "rasgadinho" e onde os setubalenses nunca se acanham de mostrar o quanto não gostam dos encarnados, a primeira parte foi demasiado mortiça, parecendo que os jogadores estavam mais interessados em combinar a distribuição de táxis para o aeroporto do que outra coisa.

Só o golo de Rodrigo trouxe algum calor ao jogo, mas sobretudo nas bancadas onde os quid pro quo habituais estalaram logo, embora coisa de pouca dura e tudo tratado dentro dos limites da razoabilidade. Como se quer.

 

No Sábado, Paços e Rio Ave mostraram o caminho, abrindo as hostilidades com o primeiro nil nil do fim-de-semana. Degra, de regresso, e Ederson foram os principais responsáveis pela inexistência de golos, num jogo com domínio repartido - os castores na 1ª parte, os vila-condenses na 2ª - e com demasiadas ocasiões de golo para ter terminado desta forma.

Rui e os Pragmáticos voltaram a somar os 3 pontos, aproveitando da melhor forma os tiros nos pés que os coimbrões foram dando. Reis da eficácia, os vimaranenses não precisaram de mais que uma mão cheia de oportunidades para golear (também pelos padrões contemporâneos). Os estudantes mostraram que precisam de reter melhor aquela lição do "Não agredirás o teu adversário", ou pelo menos arranjar manuais de apoio em árabe ou francês, para ver se há quem abra a pestana para o facto de estar a custar pontos à sua equipa.

No segundo empate a 0 do fim-de-semana, acabaram por ser as equipas de quem se esperava o melhor show da jornada a fornecer o duelo com menos oportunidades de todos. Sporting e Nacional encaixaram-se num enclave entre os primeiros 15 metros do meio campo leonino e os 30 metros contíguos do lado dos nacionalistas, numa batalha táctica que ninguém mencionou nos dias seguintes ao jogo. 

O "erro" de Manuel Mota, e consequente reacção dos verdes de Alvadade, acabou por açambarcar todo o tempo de antena dedicado a este jogo. Independentemente de concordar ou não com a falta assinalada - discordo, naturalmente, até porque o futebol ainda é um desporto de contacto -, acho que "roubo" é uma categorização um pouco forte, muito ao lado do que se passou. Se há coisa de que não se pode acusar Manuel Mota é de não ter sido coerente e de não ter mantido o mesmo critério ao longo do jogo. Agora, quando o critério utilizado não presta, não há muito a fazer. Em todo o caso, deu um belo showcase a favor da profissionalização dos árbitros, mostrando que quanto mais depressa acontecer melhor - isto em teoria, se trouxer consigo os benefícios previstos.

 

A surpresa da jornada ocorreu no primeiro jogo de Domingo, onde o Arouca foi somar 3 importantes pontos na sua luta. Perante um Gil a quem começam a conhecer as manhas, apresentou-se estranhamente eficaz no contra-ataque, com André Claro em destaque. O extremo que não era titular desde a 6ª jornada, contribuiu com 2 golos, tantos comos os pontos que o Arouca tinha ganho desde a sua saída do 11. Se calhar está já aqui a primeira contratação de Inverno dos arouquenses. 

Nos gilistas, Luís Martins - talvez já com a cabeça noutro lado -  não conseguiu impedir-se de injuriar Olegário mais do que uma vez, tendo recebido aquela combinação Amarelho-Vermelho-Directo que só acontece por "palavras". De notar a coesão da postura dos nossos árbitros internacionais quando andam a distribuir vermelhos - estas são poses de árbitros que merecem a profissionalização.

Ainda no Domingo, e a fechar as contas do campeonato para o ano civil de 2013, mais um nil nil. Matt Jones voltou a ser decisivo, ajudando os Belenenses a conquistarem mais um pontinho para o seu pecúlio. O inglês de Stoke-on-Trent não permitiu aos canarinhos finalizarem com sucesso nenhuma das suas oportunidades flagrantes, colocando novamente a descoberto a ineficácia neste capítulo por parte do Estoril. E a trave também deu uma ajuda.

 

Na próxima jornada teremos um clássico já revestido de alguma importância, quando o Benfica receber o Porto. Numa altura em que o nosso campeonato se encontra ao rubro - 3 primeiros empatados, 7 candidatos à Europa separados por menos de 8 pontos, 4 clubes num raio de 3 pontos para a descida - não será um jogo decisivo, mas acontecendo depois do winter break aqui do burgo, servirá certamente para lançar o tom para as jornadas seguintes, podendo ter uma influência prolongada no estado de espírito das equipas. Em todo o caso, este jogo só será daqui a mais ou menos 20 dias, após mais uma longa interrupção do nosso Campeonato.

Correndo o risco de estar sempre a bater no ceguinho, o que se passou no "fim-de-semana" passado, com jogos à 5ªF e 6ªF, horários impróprios e pensados apenas tendo em conta quem vai jogar, quem vai treinar ou quem vai arbitrar, é só mais uma das várias políticas de antagonização do adepto de estádio, esse totó que é o único que paga para lá estar, mas que também é o único que nunca é levado em consideração, tendo que se sujeitar aos dias e horários que são mais convenientes para todos os outros participantes, os que recebem para lá estar, os profissionais da coisa.

Este ano ainda vamos ter a sorte de terem agendado uma jornada da Taça da Liga para o hiato entre o Natal e o Ano Novo, o que até pode explicar a irritabilidade que muitos jogadores deixaram escapar nalgumas entrevistas nas "Departures" do Aeroporto - será que já alguém avisou o Quintero que pelo menos nos próximos 2 meses não vai calçar?. Sei que esta paragem é fundamental para aquele avançado brasileiro "perder" o voo de ligação" e ficar lá mais 2 dias a ganhar barriguinha, para o central veterano que não sabe se "fica ou sai, porque tem aí proposta boa e tem que sentar com a directoria", mas não deixa de quebrar novamente o ritmo das nossas equipas e retirar alguma da verdade desportiva a uma competição que é disputada aos solavancos, sem qualquer noção de continuidade.

 

Num desporto que cada vez mais é propagandeado como um espectáculo, é estranho que no nosso país os espectadores não sejam tidos em conta na calendarização do mesmo. Afinal de contas ainda somos nós que vamos (pre)enchendo os estádios por esse país fora. Hoje à tarde estamos a assistir à antitese daquilo que é feito por cá, num local onde outros como nós, são tratados com o mesmo carinho, entusiasmo e dedicação com que se entregam às suas cores clubísticas, sejam elas quais forem.

26 de Dezembro é feriado nacional - Boxing Day - em muitos dos países da Commonwealth e Inglaterra é um deles. Sendo um dos poucos dias do ano em que a grande maioria dos residentes não trabalha, a EPL decide agendar jogos para todas as equipas nesse dia, reservando o melhor deles todos para o final da tarde festiva, num horário que ainda permite a quem vai ao estádio chegar a casa a horas decentes. E jogam novamente no fim-de-semana, não só porque é habitual jogar-se ao fim-de-semana mas também porque nunca niguém morreu por jogar 48 horas depois. E ainda jogam a 1 de Janeiro, mais um dia em que a maioria das pessoas não trabalha.

Mas isto é o quê afinal? Que campeonato é este, em que se agendam jogos para as alturas em que as pessoas podem ir aos estádios? Que lógica é esta que impera nesse país? Aqui neste cantinho, ainda nos andamos a debater com questões que para os outros - os globalmente proclamados como "o melhor campeonato do mundo" - parecem simples, cujas soluções comprovadas a nível de sucesso estão identificadas, etc. Mas para nós, e aqui falo pelo nosso campeonato como reflexo de quem somos e da nossa cultura, nada é tão fácil e as coisas dependem de muitos outros factores, muitos dos quais desprovidos de lógica.

 

Os ingleses até podem reclamar ter inventado o futebol, terem os estádios cheios da 1ª à 27ª Divisão, mas ainda andam a anos luz daquilo que se faz por cá. "Nós" é que estamos bem. Os outros estão todos errados. "Nós" é que sabemos. Os outros são "muita" fraquinhos. "Nós" somos "muita" bons...