A Selecção
18
Dez

2013

Palestra de Quarta-Feira

Por José Miranda


A penúltima jornada antes da paragem de Inverno - sim, nós também temos uma, como se não desse para jogar à bola a partir de 21 de Dezembro - focou-se no tópico das mensagens. Dos jogadores, dos treinadores e até dos adeptos.

 

A primeira foi logo na 6ªF, dia da moda para começar o fim-de-semana futebolístico. Em Coimbra, ao sétimo jogo em casa da época, sexto que não se jogou num domingo à tarde - 15 de Setembro, às 15:45 contra os Belenenses marcou a excepção que confirma a regra - e terceiro que abriu a jornada logo à 6ªF, a Mancha Negra, claque residente dos locais, aproveitou para relembrar a quem manda que o futebol, mesmo que dê jeito para encher a programação daquele que é provavelmente o país com mais canais desportivos per capita, também é importante para quem vai ao estádio e que esse adepto que vai ao estádio começa a ficar cansado - muitos já se cansaram de vez - do forrobodó que é o calendário da sua equipa.

E acho que cansado é a palavra correcta. "Quando é que jogamos esta semana?" passou a ser uma pergunta corriqueira entre os "cativos", perante o puzzle fantástico de dias - de 5ªF a 3ªF - e horários - qualquer hora entre as 15:00 e as 21:00, com ênfase para "às um quarto para as ____" - em que os nossos jogos se iniciam. Pelo que tenho ouvido, "explicar isto lá em casa", esta aleatoriedade de horários em que temos compromissos previamente marcados, também é complicado. É uma tarefa árdua ser um adepto de futebol em Portugal nos dias que correm.

Sobre o que se passou depois, no terreno de jogo, podem comparar os dois lados desta história aqui e aqui.

 

No Sábado foram novamente os adeptos a passar mensagens para dentro de campo.

O Sporting de Braga até ganhou com relativa tranquilidade ao Vitória de Setúbal, na primeira derrota de Couceiro após dez jogos (mais acerca disto lá em baixo), pelo que poderia parecer surpreendente o que aconteceu aos 70 minutos. Com o resultado em 1-0, Jesualdo fez mais uma substituição de um box-to-box ainda com muito para dar ao jogo por um trinco que joga à Hernâni - sim, o capitão do futebol de praia, ou o do Rijkaard para alguns, que acabou a carreira no de 11 a jogar para as percentagens, para o lado e para trás, um Xavi estatístico dos anos 90. Com isto conseguiu acirrar de tal forma os ânimos dos locais que estes responderam vaiando. Este demonstrar de fraqueza, de receio, mesmo que considerado por alguns uma alteração lógica do plano de vista táctico, foi só mais uma gota de água no plano de jogo que tem exasperado os bracarenses. Tenho a certeza que, tal como nós, o Professor também ouviu...

Em Alvalade vimos mais do mesmo. O Sporting esteve no seu "habitual" e o Belenenses também. Os do Restelo são actualmente uma sombra da equipa que eram no ano passado. Sem confiança, com excessiva pressa com bola, com demasiado medo de jogar. Estranho estado em que se encontra uma equipa que só sabia ganhar. Para as hostes leoninas, o clima de festa continua. Entre a equipa, entre os adeptos, entre a equipa e os adeptos. Entre todos. Os 37.000 deles. Assim vale a pena. Tirando clássicos, só o Porto teve mais gente em casa, contra o Marítimo. No lado sul da 2ª Circular devem estar a perguntar: "A sério? Mais do que nós? Não eramos tantos?". Isto da bola tem mesmo muito que se lhe diga.

 

No único - um? apenas um? - jogo de domingo à tarde, Rui e os Pragmáticos foram a Arouca para, à semelhança de outros, roubar três pontos caseiros ao conjunto de Pedro Emanuel, para quem é muito mais fácil ir pontuar à Luz do que em casa. Os recém-promovidos deverão agitar o plantel após o Natal, com a aparente disponibilidade de recursos do passado recente, pelo que o Pedro não deve estar a sofrer muito com aquela ansiedade das prendas natalícias de que outros padecem.

A seguir, não em Olhão mas mais ou menos ali a meio caminho de muita coisa no Algarve, os jogadores do Olhanense quase que davam razão ao seu treinador que andou a espalhar uma mensagem que já todos sabiam: "não é difícil tirar pontos ao Benfica". No último jogo do espectáculo que tem sido a suspensão de JJ para o Campeonato, só uma trivela canhota dos balcãs, nada de novo em Portugal, resolveu aquilo que os encarnados complicaram desde o início. Além dos dois golos, mais do que nos quatro jogos anteriores, viu-se muito pouco dos algarvios (também mais sobre isto lá em baixo) mas mesmo assim ia dando. Não é mesmo nada difícil tirar pontos ao Benfica.

O que vai ser difícil vai ser o regresso do "Mestre" à àrea técnica. Não só difícil para todos os fiscais, 4º árbitros, adjuntos, directores-desportivos da própria equipa e spotters entre outros, mas também para nós que vamos ter que viver com a saudade de ver a inabilidade das águias para lidarem com a tecnologia de 2004, quanto mais com a moderna. Não vai ser fácil passar sem aqueles grandes planos do camarote, aqueles 10 segundos a esfregar o cabelo como quem "sai para o contra-golpe com muita vulcidade". Vou ter saudades do Jorge-in-a-box.

A fechar a maratona, o Porto venceu o Rio Ave, aproveitando-se da maior fragilidade do seu adversário: jogar em casa. Num 11 estranhamente defensivo, acabou por ser o Roberto Carlos do Ave a fazer tremer os campeões nacionais, mas Carlos Eduardo tinha uma mensagem para entregar. Além da melhoria colectiva na atitude, foi notória a influência que a irreverência do criativo-em-vias-de-ser-transformado-num-#8 teve na manobra portista. Nunca mostrou medo de fazer, de colocar os outros em posição de fazer, e esta postura agressiva do ponto de vista do ir para a frente, jogar para marcar, mostrou ser o antídoto para o marasmo em que o futebol do Porto se encontrava. Agora vai ter que repetir, até porque de one hit wonders está o mundo cheio.

 

Os quatros dias que marcaram a 13ª jornada terminaram na 2ªF, com dois jogos devido à participação de Paços e Estoril na UEL. No entanto, não deixa de ser mais um jogo que no Domingo à tarde, esse horário péssimo para se jogar futebol.

Na Madeira, o Nacional voltou aos triunfos caseiros batendo o Paços de Calisto (lá em baixo também), no regresso de Diego Barcelos às exibições decentes. Boas notícias para os apreciadores de bom futebol. Esperamos que o seu bem-falante treinador também tenha achado o mesmo.

No jogo mais esperado da jornada, embate entre 4º e 5º, o Estoril bateu o Gil Vicente com aparente facilidade. De Deus, treinador dos gilistas, até no reconhecimento da derrota foi pragmático, vincando a superioridade adversária no marcador como um reflexo da superioridade em campo. Do lado dos canários, vimos uma maior insistência e segurança na posse posicional no meio-campo adversário - o primeiro golo nasce de um desses momentos - o que pode mostrar que Marco Silva já está a fazer algo para tentar mudar os resultados caseiros. Contra um adversário difícil, correu muito bem. É capaz de ir longe, este Marco.

 

Olhanense, Paços de Ferreira, Vitória de Setúbal. Na Liga estes são os três clubes que já recorreram a "chicotadas psicológicas" para tentar mudar o rumo da sua época. Destes, só José Couceiro é que impactou de imediato a fortuna da sua equipa, enquanto Paulo Alves e Henrique Calisto ainda estão a "moldar as equipas à sua forma de jogar", um sinónimo de "está praticamente tudo na mesma".

Perdendo apenas no seu décimo jogo no regresso a Setúbal - não sou um grande fã de second spells mas até agora este não está a correr nada mal - Couceiro foi também o único dos três que não herdou uma equipa treinada por um ex-internacional português (praticamente) sem experiência como treinador. E até agora isso abona, mais do que a qualquer outro, em favor de José Mota.

Calisto voltou para salvar novamente o Paços dos precalços da manutenção. Venerado no Vietname, pegou naquele que no papel é o melhor plantel destes três. Ainda não conseguiu encontrar o seu 11 base mas não se lhe pode apontar o dedo por não ter experimentado várias soluções. Com a qualidade individual que o plantel do Paços tem parece inevitável a manutenção mas a mesma ainda tem que ser garantida em campo e os nomes nunca ganharam jogos.

O caso mais bicudo parece ser o do Olhanense, que apesar do semi-brilharete contra o Benfica não mostrou ainda grandes mudanças funcionais em campo e, só para piorar uma situação que não era assim tão má, a produtividade descresceu drasticamente. Com apenas um ponto nos quinze possíveis, a deslocação da próxima semana ao Dragão não poderia vir em pior altura para Paulo Alves, que tem andado a trocar mensagens pela TV com o antigo dono do seu actual posto.

Tal como Costinha no passado recente, e independentemente do estado em que o Abel possa ter entregue a equipa do Olhanense ao Paulo, convém começar a mostrar antes de começar a cantar de galo. Neste momento e com a run actual, o Olhanense só não está em piores lençóis devido aos pontos do reinado Xavier. Embora tenha resultado nalguns momentos de entretenimento, não fica nada bem ao antigo treinador do Gil andar a apontar o dedo a alguém que com os mesmos recursos estava a fazer melhor, numericamente pelo menos.

Não duvido que Paulo Alves tenha a qualidade, que já mostrou no passado, para inverter a situação actual, mas até agora está a levar uma abada do Faisal, com quinze a zero nas conferências de imprensa. E no caso dos algarvios conseguirem levar a sua luta até ao fim com sucesso por qualquer margem, tranquila ou infíma, que seja, o antigo ponta-de-lança da selecção lá terá que mandar aquele SMS ao antigo companheiro na equipa das quinas:

"Obrigado Abel"

 

PS1 - Mais um português a caminho do Centro de Emprego, AVB is no more em White Hart Lane. Eventualmente vai ter que voltar a ter sucesso num clube, antes que ganhe fama de coleccionador de indemnizações.

PS2 - Os japoneses estão novamente a dar cartas no futebol virtual.

PS3 - O Miranda alinha actualmente no Sevilla, joga à Scott Parker e já tem 71.

PS4 - Os deadlines foram feitos para serem quebrados.

PS4 - O Editor precisa de um Editor.