A Selecção
04
Dez

2013

Palestra de Quarta-Feira

Por José Miranda


25 de Outubro de 2013, a Académica voltou a ganhar em Braga, 46 anos depois.

30 de Novembro de 2013, a Académica voltou a ganhar ao Porto em casa, 43 anos depois.

 

Acabe esta época como acabar para os lados de Coimbra, é já uma certeza que Fernando Alexandre é um nome que ficará na história da Académica. Em 2033 , quando as nossas transmissões televisivas chegarem a esse ponto, veremos que a Académica não ganha ao Porto há 20 anos e estará ao lado dessa stat, entre parêntesis, “Fernando Alexandre 30/11/13”. Nada mau para quem tinha 1 golo em 126 jogos quando este campeonato se iniciou.

A equipa de Sérgio Conceição está a melhorar de jogo para jogo, e pelo que jogou no Sábado, venceu justamente. E isto diz muito sobre o que se passou do outro lado da barricada.

A exibição desprovida de qualquer cor que o Porto rubricou em Coimbra é bem reflectida no falhanço de Mangala e no desperdício de Danilo. Esses lances são daqueles que noutras alturas, com outro moral, com outro embalo, poderiam ter corrido de outra forma, dando tempo para que Paulo Fonseca consiga finalmente que a sua equipa tire as mãos dos bolsos, arregace as mangas e comece a jogar com a intensidade que um jogo necessita.

Além destes problemas de atitude, raramente vistos no colectivo portuense, há também lacunas a nível estratégico que ajudaram a chegar a este ponto. A falta de largura do futebol azul-e-branco, quer seja por desenho do timoneiro quer seja pelas rotinas dos artistas, é um factor que limita de sobremaneira o caudal ofensivo e as soluções ofensivas. Muito mais que a forma e a função do triângulo do meio campo, este é um problema que tem que ser corrigido por Paulo Fonseca, que tem dois laterais ultra-dinâmicos que adoram subir por dentro e não tem quem jogue com eles dessa forma.

 

Já antes na 6ªF o Braga tinha goleado (de acordo com o conceito moderno) o Olhanense, no regresso às vitórias depois de um longo jejum. Oposição débil, onde Paulo Alves ainda tem muito trabalho pela frente para dar a volta ao clube algarvio. Se era para jogar aquilo, ao menos tínhamos o Faisal todas as semanas. 

No regresso de Éder ao que parece ser a sua antiga forma. Rafa Silva tem ajudado o Braga a ter outra criatividade, e depois da vitória moral na Luz, a visita ao Dragão já vinha mesmo a calhar para uma equipa que se quer afirmar no Campeonato. Com o momento de forma do Porto então… 

 

Pela segunda vez consecutiva Domingo foi o dia com mais jogos da jornada. De salutar este regresso ao antigamente, que respeita hábitos familiares enraizados há décadas.  Nos jogos do início da tarde, as equipas forasteiras saíram por cima, tendo o Sporting salvo a honra dos anfitriões, sendo o único a vencer em casa.

O Marítimo, levado por Héldon que depois daquele abraço em Alvalade tem feito questão de garantir a continuidade de Pedro Martins, ganhou 3 preciosos pontos para a colecta europeia que começou com atraso. Contou também, na mais complicada de todas as viagens da época, com o apoio de um adepto que nos é muito próximo. O Arouca continua a desperdiçar pontos em casa, e Pedro Emanuel já recebeu o kiss of death, quando o Presidente estendeu um voto de confiança à equipa técnica. «Desta reunião sai também reforçada a convicção que estes são os homens certos para atingir as metas traçadas» é a frase exacta, de uma “execução” praticamente anunciada.

A outra equipa madeirense empatou em casa, num resultado que não desagradou a ninguém, a uns porque não jogaram o suficiente para tal, a outros porque estava em sintonia com o plano delineado antes do jogo. 2-2 começa a ser um resultado típico do Nacional na Choupana, onde (quase) toda a gente marca e (quase) toda a gente sofre. Couceiro mantém a sua unbeaten streak desde que tomou conta do Vitória, onde um central com nome de jogador começa a dar nas vistas durante as suspensões do “Cannavaro do Sado”, já a preparar-se para assumir a posição quando Vezo deixar Setúbal em Janeiro.

Esta ligação à Madeira manteve-se no outro jogo das 16:00. Matt Jones e Adriano Facchini, um inglês, um brasileiro, ambos guarda-redes, têm em comum o facto de terem jogado pelo União da Madeira, e partilharam no Restelo as responsabilidades pelo nil nil final. Os quase 60 minutos jogados com um jogador a mais não foram suficientes para os gilistas levarem de vencida os belenenses, mas com duas substituições realizadas aos 88 e 90 minutos, a falta de profundidade do plantel dos barcelenses torna-se complicada de escamotear. Digno de registo, o esforço heróico dos restantes 10 azuis, que deram muito mais luta que o previsto tendo em conta a precoce saída de jogo de Fredy.

 

A seguir, em Vila do Conde, Raul José comandou o Benfica a mais uma vitória e à co-liderança. No regresso de Lima ao activo, depois de 2 meses ausente das funções de matador, vimos que o clube da Luz utiliza muita tecnologia, alguma de ponta, outra nem por isso, mas, na sua maioria, redundantes. A um nível pessoal, fico contente que Rodrigo possa jogar, ainda que a espaços, no seu habitat natural, que se situa naquela linha recta entre o lateral e o central, e que o hispano-brasileiro aproveita como poucos.

O Rio Ave continua a confirmar a sua incapacidade para jogar em casa. Neste momento, para além do inevitável sacrifício de animais feito pela calada da noite, parece que só um reforço de Inverno chamado “Obras no Estádio” é que pode ajudar a inverter esta tendência.

 

À noite em Alvalade, a confirmação do que poderá vir a ser um candidato ao título. O Paços, visivelmente cansado e apenas com defesas e médios de início, acabou por ser uma presa fácil, nunca conseguindo incomodar os leões. 

Do lado leonino, além de um 11 base, Leonardo já mostrou que tem as alternativas suficientes (Píris, Dier, Vitor, Wilson, Slimani) para manter a competição interna acesa, ter mais alternativas tácticas e manter a máquina a rolar. Lesões à parte, apenas a posição #6 será motivo de preocupação, não pela ausência de solução mas pela diferença técnico-táctica dessa solução e do choque com as ideias da equipa.

Em todo o caso, a consistência de processos é notável para um trabalho ainda curto e já vimos todos os tipos de vitória - goleadas, remontadas, até um nick one and keep a cleanie - para ainda colocarmos o Sporting de parte na corrida ao título. Em Alvalade, o discurso até pode ser uma cópia exacta do utilizado por Domingos naquele Braga que também liderava à 11ª jornada e que lutou até fim, mas deixam de existir formas de evitar o buzz que se está a gerar e a respectiva pressão que se vai fazer sentir.

 

A fechar a jornada, no nosso Monday Night Football, o Vitória de Guimarães foi à Amoreira agudizar a crise de resultados do Estoril em casa. No melhor exemplo de “Pragmatismo” da jornada, os comandados de Rui Vitória foram à fonte menos vezes que os dedos de uma mão e trouxeram de lá dois golos e três pontos. Os vimaranenses têm demorado a encontrar-se, e as semelhanças entre Mazzou e Amidó Baldé até têm amenizado a transição entre ambos, pelo que o regresso aos golos do “Pirlo do Berço” pode ser um sinal do regresso à forma do ano passado, em que a influência de Tiago Rodrigues nos destinos da equipa era por demais evidente.

Os canarinhos voltaram a desperdiçar imensas oportunidades, na faceta do jogo em que mais se distanciam do que fizeram no ano passado. O futebol do Estoril está mais maduro, tem mais vertentes - sendo que a última é assumir o jogo em posse no meio-campo adversário como uma equipa “grande” - mas está menos eficaz. Sebá não tem a clarividência e persistência de Licá e a sua inconstância tem lesado o Estoril nalgumas ocasiões, bem mais do que aquelas em que a sua espontaneidade tem favorecido. Não é fácil este balanço entre os resultados pretendidos e o amadurecimento on the job de algumas pérolas estrangeiras que os investidores do clube da Linha trazem para valorizar.

 

No próximo fim-de-semana vamos ter o já mencionado teste ao Porto, com a deslocação do Braga ao Dragão. No Sábado, todos os olhos estarão postos em Paulo Fonseca e naquilo que a sua equipa irá jogar. O passado recente dos dragões é ambivalente no que toca às trocas de treinadores, desde projectos de continuidade a épocas de múltiplas chicotadas.

Ao contrário de Rui Quinta, acho que Paulo Fonseca não se sentiu orgulhoso do que já atingiu no futebol quando deparou com a recepção que estava ali preparada na chegada ao Dragão no Sábado, e tenho a certeza, mesmo discordando da forma como os adeptos manifestaram o seu descontentamento, que ficou com a noção correcta da urgência com que precisa alterar o panorama no Dragão.

Estranho estado, para um mister que há alguns meses era a nova coqueluche dos treinadores portugueses e a quem era projectado um enorme futuro. Esse futuro ainda existe, e ainda é risonho, mas terá muitas dificuldades em não sair nublado em caso de novo resultado negativo.

 

PS - A "súbtil" alteração do título e do dia da semana em que a palestra se realizou não se deveu a nenhum treino à porta fechada, nem à vinda do "presidente" ao local de trabalho. Esta diferença de um dia acaba por ser da inteira responsabilidade da Konami, visto que nem todos na redacção do 11para11 conseguiram ultrapassar aquela coisa do "ah e tal, é novo" com o PES2014 e a sua gestão do tempo começa a sofrer com isso. Para a semana de regresso ao dia e horário habituais.