A Selecção
03
Jan

2013

O paradoxo Tacuara

Por José Miranda

 

 
Reside em Portugal desde 2007 um dos mais prolíficos avançados de todos os campeonatos europeus. É no entanto aquilo a que carinhosamente chamamos um "mal-amado", que independentemente daquilo que já produziu ainda não conseguiu encontrar o seu lugar no coração dos seus adeptos, tanto em Lisboa como no Paraguai.
 
A caminho de entrar nos 30's no final desta época desportiva, Óscar René Cardozo Marin chegou ao nosso país no início do reinado de Quique Flores pela bela maquia de €9,0M (que entretanto se transformaram em quase €12,0M com a aquisição da totalidade do passe) e neste momento encontra-se prestes a chegar aos 100 golos no campeonato ao serviço do Benfica, praticamente 150 golos oficiais em menos de 230 jogos. Apesar disto, e ao contrário de outros exemplos Europa fora, continua ainda no limbo entre o aplauso e a vaia cada vez que pisa o campo de jogo.
 
Olhando unicamente para os números desde que ingressou nos vermelhos, os mesmos demonstram um jogador impar, superado apenas por alguns que actualmente jogam em campeonatos com mais visibilidade e maior poder financeiro (no entanto, dos 4 jogadores com melhor média de golo por jogo a nível europeu 2 já passaram pelo nosso campeonato). A sua média de 0,63 golos por jogo (g/j) só é inferior às de Messi (0,92), Cristiano (0,87), Falcão (0,72) e Ibrahimovic (0,64). É ainda o 4º em g/j para o campeonato interno e o 6º a nível das competições da UEFA.
 
 
Numa altura em que os pontas-de-lança de topo custam milhões, à parte Messi e devido ao especial contexto em que está inserido, todos os outros membros desta lista, além de já terem feito correr muito dinheiro (este top-10 já movimentou aproximadamente €600M divididos por 24 transferências para ou dentro do espaço comunitário), são idolatrados pelas respectivas massas adeptas. Torres é a excepção aqui mas isso deve-se mais aos seus 0,23 g/j nas últimas duas épocas e aos quase €70M que custou ao Chelsea. Começa a ficar complicado arranjar motivos para não se gostar do "pinheiro" paraguaio.
 
É, naturalmente, limitado a nível de mobilidade tendo no entanto mostrado mais disponibilidade para defender e pressionar, nem sempre bem, e também para finalmente conseguir segurar algumas bolas de costas para a baliza sem cair imediatamente. Melhorou ainda o jogo aéreo deixando de ser muito perdulário nesse capítulo, passando só a perdulário. Temos aqui um jogador que evolui, que cresceu nos últimos 5 anos e meio mas que mesmo assim ainda não convenceu definitivamente.
 
Foi em 09/10 que vimos o Cardozo actual pela última vez, ano do último título que não foi ganho pelo Porto, onde rubricou uma época fortíssima com 26 golos em 29 jogos, e em que nem aí lhe foi dado o mérito devido, ficando o seu contributo ofuscado pelo dos que se transferiram nos meses seguintes. Depois de um 10-11 morno, sequelas do Mundial em que foi declarado no seu país o principal responsável pela eliminação paraguaia aos pés da futura campeã, voltou a estar ao seu melhor nível no ano passado tendo conseguido uma média acima da sua de carreira. Nesta época as coisas têm andado mais calmas com os adeptos, sobretudo porque Tacuara está neste momento a um nível que o projecta para uma das melhores 10 épocas individuais da Europa nos últimos 6 anos se conseguir suster este ritmo até ao final. 
É aqui que começam a surgir as dúvidas sobre a racionalidade da relação de Cardozo com o 3º anel. Analiticamente os seus números são de topo, espelho de um jogador de área, finalizador por natureza, dotado de um pé esquerdo fantástico mas que nunca conseguiu estabelecer aquela empatia necessária com os adeptos. Vemos todos os fins-de-semana jogadores mais caros, mais mediáticos, que jogam em equipas mais talentosas e muitas vezes com jogos centrados nas suas capacidades não conseguirem "ser felizes" com a frequência de Tacuara mas a quem são permitidos falhanços escandalosos infinitos, normalmente seguidos de breves momentos de apoio e daquele "carinho" que os goleadores precisam. Para os lados da Luz qualquer lance de dificuldade média desperdiçado representa só mais um falhanço clamoroso, dos alegadamente muitos já vistos. O paraguaio pode não primar muitas vezes pela eficiência na finalização mas sim pela frequência com que marca, e não fossem os já muitos penalties falhados poderia ter um rácio histórico.
 
Na minha opinião, esta relação amor-ódio a que vamos assistindo deve-se mais às falhas de natureza humana de Cardozo do que às de natureza técnica e que passados mais de 200 jogos começam a fatigar o adepto. O facilitismo dos falhanços na pequena área e dos já mencionados penalties falhados. A inércia despreocupada das folgas que vai tirando durante os jogos, dos saltos a 2 metros do ponto de queda da bola e dos foras de jogo enquanto passeia para trás. A instabilidade emocional de todas expulsões desnecessárias, algumas em momentos de pressão, e das reacções ofensivas com que já enfureceu a bancada vermelha. No entanto muito menos que as ocasiões em que os levou ao delírio. Os números abaixo deveriam ser mais do que suficientes para Tacuara não ter que comprar o amor dos benfiquistas semana a semana, golo a golo, mas aparentemente não o são.
 
 
Acima de tudo porque ninguém gosta de um chorão mimado. Especialmente de um com um metro de noventa e três de altura e oitenta e sete quilos de peso.