A Selecção
23
Mar

2014

Looking through my son's eyes

Por Nuno Ribeiro Oliveira

 

Hoje fui ao estádio de futebol pela 1ª vez.

Foi uma noite europeia do Benfica. Mas a noite anterior foi difícil de passar. Não conseguia adormecer e acordei cedíssimo. O meu Pai já me tinha tentado levar ao estádio várias vezes, mas eu recusava sempre, vá lá saber-se porquê, e arranjava uma desculpa esfarrapada para não ir. E ele, pacientemente aguardou até à vinda de uma equipa inglesa (esse sim, os jogos e equipas que eu gosto) ao estádio da Luz.

O jogo foi ao fim da tarde e depois de o meu Pai me ir buscar à escola, lá fomos até à estação de metro ao pé de casa rumo ao Alto dos Moinhos. Lembro que andei bastante até chegar ao estádio. Até porque eu já vinha a ver o estádio desde lá do fundo e havia muita gente com camisolas vermelhas, cachecóis, barracas com comida, andávamos no meio da estrada, no meio de montes de terra com carros estacionados, uma ponte... Até que sem dar por isso já tinha entrada pela porta 16. Lembro-me de perguntar: “Pai, já estamos no estádio?”. Ele riu-se e acenou positivamente.

Tive que subir muitas escadas e de repente vejo a imensidão de um estádio com duas televisões gigantes em cada canto. Uma era maior que a outra, mas o meu Pai falou qualquer coisa sobre perspectivas. Não percebi nada do que ele disse mas isso não importava nada. Lá em baixo, consegui reconhecer alguns jogadores do Benfica. Já os tinha visto na televisão. Fiquei muito contente quando soube que o Maxi Pereira, o Luisao e o Cardozo iam jogar! Não fiquei muito contente porque o 19 e o Lima não iam jogar. Ainda tivemos tempo de ir comer. Foi fixe. Comemos cachorros, batatas fritas e um chocolate.  Gostei de tudo!

Os lugares eram lá em cima, mas como ficava de pé e conseguia ver bem. Vi uma águia a sair mesmo perto de nós e que voou a toda a volta e depois posou no campo. O meu Pai disse que foi petiscar. Eu não acreditei muito mas está bem. De repente toda a gente começa a levantar-se e a bater palmas. Fazia muito barulho! Eram os jogadores a entrar no campo.

Sem dar por isso já estavam a jogar. Perguntei muita coisa ao meu Pai que pacientemente ia explicando o que se passava. Eu olhava mais para baixo onde estavam umas pessoas com bandeiras grandes e que estavam sempre a cantar e a bater palmas. O meu Pai alertou-me que no estádio não é como na televisão. Tenho que ficar a olhar para o jogo se não posso perder um golo. E foi o que aconteceu... O Benfica marcou um golo e eu estava a olhar para o marcador:

 – Quem foi quem foi?! Foi o Luisao?

 – Não Manny, foi o 24, o Garay.

 – Aquele que tem barba?

 – Esse mesmo.

 – Gosto dele.

As pessoas falam muito alto no futebol.  Estão sempre a cantar ou a gritar e a dizerem palavrões. O meu Pai dizia, “é futebol filho.” Queria que chegasse o intervalo. Para descansar um bocado e ir fazer xixi. Estive a 1ª parte toda em pé!

Na 2ª parte comecei a ficar mais atento ao jogo, mas não se marcavam golos, e eu quero ver golos para bater palmas e saltar! 

 – Pai, este jogo nem substituições tem. Porque é que não joga o Lima?

 – Ele já deve entrar daqui a pouco. Tens que ter um pouco de paciência, o treinador é o Jesus.

 – Aquele do cabelo branco que nem sabe o numero do Luisao? Ele é o pior!

 – Pois, mas ele é que sabe quem entra e quem sai. Vamos ver lá mais para a frente.

Vi os dois golos do Tottenham. Mas estava descansado porque o Benfica tinha ganho 1-3 em Inglaterra. O meu pai disse que o jogo estava perigoso para o Benfica. E não sei porque também comecei a ficar irritado porque o Benfica estava a perder, as pessoas estavam muito caladas, ou quando falavam diziam imensos palavrões. O relógio parou aos 90' e eu perguntei:

 – Mas porque nao acaba o jogo? 

 – Tempo de compensação, disse o meu Pai. 

 – Quanto tempo? 

 – 3 minutos. 

 – E como sabemos que ja passaram 3 minutos se o relógio nao passa dos 90'?

 – Quando forem 19.49 aqui no relógio do Pai, é porque já passaram os 3 minutos.

Aqui fiquei um bocado confuso porque passado muito pouco tempo toda a gente começa a ficar muito contente. O arbitro disse que é penalty para o Benfica.

 - Quem marca? Quem marca?

 - É o Lima.

 - Fixe! Nao vai falhar.

E marcou golo! Fiquei mesmo contente. E o meu Pai diz: “Acabou. O arbitro já deu os 3 minutos de descontos e o jogo acabou agora mesmo”. Sorri e agarrei o símbolo da minha camisola do Benfica e mostrei a toda a gente, como fazem alguns jogadores quando marcam golo. Um senhor passou por mim e disse: “Boa rapaz! Assim é que é! Orgulho Benfiquista!” O meu Pai sorriu. Nao percebi nada do que o senhor queria dizer.

À saída era de noite! E fizemos o mesmo caminho até à estação de metro e fomos para casa. Gostei tanto de ir ao futebol que já disse ao meu Pai que quero ir mais vezes, menos os jogos com o Sporting e com o Porto porque sao violentos. Só do Estoril para baixo. O meu Pai disse que sim.

FIXE!

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Esta é a minha visão/relato da experiência de quinta-feira com o meu filho.

Mas esta historia podia ser a minha, no ido ano de 84, contra o Liverpool. 1-4. Talvez por isso ainda hoje o Liverpool seja a minha equipa favorita. E talvez por isso, tenha sido adepto do Benfica na minha adolescência. Não sei...

Mas que marcou, marcou.