A Selecção
20
Mai

2013

Irracionalidade Emocional Pt. 2

Por José Miranda

 

 
"Vamos?"
"Sim, temos que ir..."
"Claro, vai ser inesquecível :)"
 
Assim começaram muitas das viagens que esta semana injectaram, só da parte dos adeptos portugueses, pelo menos cinco milhões de euros na economia europeia. Estes milhares que se deslocaram a Amesterdão, muitos para voltar a palcos onde já estiveram, outros para cumprir sonhos de criança e ainda outros talvez jovens de mais para já terem pensado acerca de tudo o que estavam prestes a experienciar, todos nesta fase ainda com os olhos apenas num objectivo, a vitória. No culminar da epopeia que foi a deslocação do 11para11 aos Países Baixos, tentamos aqui dissecar o processo de luto que aquele instante, mesmo no final do jogo, desencadeou.
 
 
A Reacção Física
Quando acontece duas vezes em cinco dias, a primeira apenas muito dura, a segunda desnecessária, cruel, uma descaracterizada, a outra personalizadíssima quer nas virtudes quer nos defeitos, mas castigados em ambos, são naturais as manifestações com que nos deparámos, todas elas, desde o choro compulsivo, à violência espontânea contra tudo o que estava afixado à estrutura daquele estádio doravante maldito à catanonia com durações variáveis entre quinze minutos e mais de uma hora. É natural à condição humana reagir assim depois do que tinham acabado de passar. Aquela sensação que a falange que transportou esta equipa até ali, até aquele momento no jogo, não merecia que esta sucessão de eventos culminasse daquela forma. Nesta panóplia de reacções, de quem expia os seus males para poder seguir em frente, pelo menos fisicamente, vemos a primeira etapa do às vezes árduo processo de lidar com a derrota, com o insucesso.
 
O Apontar de Dedos 
O abandonar do estádio ajuda a desentorpecer a mente. O acto de sair daquele local, e o acto de andar começam a permitir a formação de pensamentos. E os primeiros que surgem estão normalmente associados à segunda fase da luta mental e emocional que se segue a uma derrota, a identificação de responsabilidades, no fundo a culpabilização. Da mesma forma que uma equipa que perde o segundo jogo após os noventa minutos em cinco dias mas sobretudo nos moldes em que se ambos os momentos ocorreram se sente, todos pensamos que mais poderia ter sido feito em prol de um resultado melhor. Um resultado que fosse digno da prestação, em campo e nas bancadas, naquela que terá sido uma das vitórias morais mais dolorosas da história. Mais poderia ter sido feito nalguns lances dentro da área, em que se preferiu o estilo à performance. Nalguns julgamentos do espaço a dar a determinados jogadores em zonas de decisão, que culminaram com duas grandes defesas, uma com a mao, outra com os olhos. E mais poderia ter sido feito para evitar aquele momento, que visto no local é reproduzido com grande detalhe pela memória que ficou.
Mas não, cada um deu o seu máximo. Aconteceram erros, como qualquer um de nós cometeria naquele momento, mas a imagem da entrega é outra que fica registada. E se o sentimento duradouro é que foi dado o máximo em prol do objectivo comum, o do jogador e o do adepto, nunca ficam ressentimentos para com os undici sul campo.
 
A Auto-Crítica
Então mais poderia ter sido feito no topo do estádio. Tal como a equipa, também a massa "congelou" com o aproximar do nonagésimo minuto. O silêncio comecou a propagar-se entre as hostes, não de desconfiança da capacidade do seu onze em levar o jogo a bom porto mas sim o do receio da remota possibilidade daquele momento, o da guilhotina. E se não foi dos jogadores, foi dos adeptos.
Mas não pode ter sido. Depois de um "show de bola" dado aos adeptos rivais durante oitenta e cinco minutos (cinquenta e cinco destes foram aproveitados pelos já experientes adeptos britânicos para curar algumas maleitas adquiridas durante a tarde, soalheira, em solo holandês), outnumbered um para quatro, da imposição de um ritmo frenético e de um ambiente de festa notável (o melhor registo dessa loucura foi apanhado do outro lado do estádio), que claramente contagiou a equipa e a empurrou para cima no jogo, não poderia ser pedido que tivessem feito mais.
 
A Digestão
No dia seguinte, os primeiros contactos com o "exterior", e-mail, redes sociais, preferencialmente apenas os média estrangeiros, para termos primeiro uma visão imparcial da apreciação dos nossos e dos eventos que testemunhámos. Qualquer actividade lúdica previamente marcada para esse dia fica naturalmente cancelada. O sol que tinha aparecido para o jogo na quarta-feira, deu lugar a um dia cinzento com chuva constante, aparentemente apenas "humidade" para os nativos. Esta concordância entre as condições meteorológicas e o estado de espírito deu lugar a uma tarde de longas caminhadas, aproveitadas para começar o processo de percepção de tudo o que se tinha passado, e muitas paragens em tudo o que foi brasseries, delicatessens e afins. Ao final da tarde, antes de jantar, a primeira visualização dos lances capitais e outros de relevo. Esta realização pela primeira vez em imagens marca o final da quarta etapa, o processo de realização do momento, dos momentos, de tudo o que se viveu naqueles noventa minutos, mais qualquer coisinha.
 
A Reintegração
A viagem de regresso tem um décimo das palavras da de ida. O silêncio é de ouro e este permite-nos finalmente pôr tudo no sítio. O regresso ao nosso habitat está carregado das perguntas repetidas de quem quer ouvir as histórias e as palavras de simpatia da maioria dos adversários locais, salvo aquelas raras excepções que não sabem que existe um tempo de respeito a ser dado nestas ocasiões, como se de um verdadeiro luto se tratasse. Apercebemo-nos finalmente que aquilo nos ocupa a mente há mais de vinte e quatro horas já passou para a maioria dos "adeptos" com que nos vamos cruzando. Já estão focados no próximo desafio, esperançados na vitória própria, ainda mais esperançados na vitória e derrota de outrém. As probabilidades desta vez são ainda menores que nos últimos dois desafios, mas a esperança parece ser ainda maior. Apercebemo-nos também que para eles foi completamente diferente do que foi para nós. Ainda não os conseguimos compreender.
 
O Reínicio
Domingo à tarde costuma ser dia de decisões no futebol. Este específico é dia da decisão final deste ano. Já recuperados fisicamente dos praticamente cinco mil quilómetros efectuados de avião, comboio, autocarro, carro, bicicleta e a pé nos últimos três dias, preparamo-nos para nos sentarmos no nosso lugar, seja ele qual for, no estádio, em casa, no café. Preparamo-nos para mais uma vez torcermos pela nossa equipa. Sentirmos que a ajudamos a superar-se e a atingir os nossos e os seus objectivos. Quer seja pela nossa voz, quer pela onda de querer que achamos que criamos em volta de algo, pelo que quer que seja. O estádio está cheio, as equipas a pronto, o árbitro apitou. E voltámos ao ponto de partida. Faltam noventa minutos para o objectivo de hoje. Não importa o quão improvável ele seja. Quarta-feira já não interessa.
 
 
 
Mais que o futebol praticado - 11 para 11, não ganhou a Alemanha mas foi como se tivesse ganho - o que fica desta mini-tour Europa fora é a experiência do adepto de futebol, dos vários com que nos cruzámos, no aeroporto, no avião, na cidade de manhã e à tarde a caminho, os amigos espalhados pelo estádio e os nossos vizinhos do lado, no sector 3. Todos passámos por estes estados, de certeza com diferenças a nível do quando e do onde e muitos estarão ainda a passar por eles. Naquilo que é a actividade expectável de um adepto de qualquer desporto ao longo da sua vida, há imensos factores que na generalidade achamos que fazem de nós mais ou menos adeptos que outros. Das vitórias históricas às derrotas catastróficas passando por golos memoráveis ou frangos que nunca mais se esquecem, a nossa carreira de adepto vai sendo construída com momentos destes e usada como fiadora da nossa opinião, da sua validade e do seu peso relativamente à opinião de outros.
A experiência que vivemos no estádio na passada quarta-feira une-nos para sempre enquanto adeptos de um clube, sobretudo por ser uma experiência negativa, e isso nunca será quebrado. O impacto que a mesma teve nos que estiveram lá nunca poderá ser comparado com os que não puderam ir. Eles não tiveram que se cruzar com os adeptos adversários à saída. Não fizeram dois mil e quinhentos quilómetros cheios de esperança e outros dois mil e quinhentos de mãos a abanar. Acima de tudo, poderão nunca chegar a duas conclusões a que chegámos após os noventa e tal minutos de A'dam:
 
1. Enzo Pérez, seremos sempre amigos.
 
2. "Vamos?", "Sim, temos que ir...", "Vai ser inesquecível :)". E foi...