A Selecção
20
Set

2013

Inícios

Por José Miranda

 

Vai completar-se este fim de semana o primeiro sexto do nosso campeonato, onde 15 dos 90 pontos em disputa por cada equipa já estarão jogados. Este marca também o período em que se começa realmente a fazer sentir a pressão dos objectivos finais, tendo em conta o percurso já registado. É neste momento que as cadeiras de alguns treinadores começam a aquecer (há algumas que já começaram quentes) e a dança dos mesmos começa a ser um tópico regular.

Para mim, a questão que se coloca neste momento é se este início de campeonato é indicativo da classificação final que alguns clubes irão ocupar e se será ou não justo pôr já de lado um treinador, quando se sabe que a continuidade é um dos alicerces da competitividade de um colectivo. Nunca me pareceu, salvo em casos de transicção de épocas anteriores em que era claro que "o mal já estava feito", que existiria algo de tremendamente positivo a ser retirado de uma "chicotada psicológica" numa fase tão prematura do Campeonato.

 

Recolhi então os resultados das primeiras cinco jornadas da nossa liga desde 2006/07, primeiro ano com este mini-campeonato a 16 equipas, tentando encontrar alguns paralelos nesses inícios bem como alguns dados que nos poderão ajudar a categorizar as equipas deste ano. Para isso, analisei os desfechos das equipas que se apuraram para as competições europeias, divididas em 3 sub-categorias - UCL, Pré-Eliminatória da UCL e UEL - mas não contabilizando os resultados dos apurados via Taça de Portugal, e também das equipas que ficaram nos dois últimos lugares da tabela classificativa (isto porque nos últimos anos existiram algumas equipas que "desceram" devido a outros critérios que não os desportivos).

Informação recolhida, contas feitas e cenários analisados, ficamos com os seguintes axiomas:

 - Nenhuma equipa se apurou para a Champs tendo feito menos de 10 pontos até ao final da 5ª Jornada.

 - Nenhuma equipa que desceu conquistou mais de 6 dos primeiros 15 disponíveis (Regra Quim Machado)

 

Tirando estas conclusões, não há muito mais que se possa inferir directamente dos números analisados. Vemos que não é estritamente necessário um início galáctico para se conquistar uma posição europeia - 3 em cada 5 equipas apuradas para a Liga Europa tinham apenas entre 5 a 9 pontos dos possíveis nessa altura - e a diferença média nos pontos realizados para quem chegou à Pré-Eliminatória da Champs ou quem seguiu para a Liga Europa também não é significativa o suficiente para criar estratos diferentes, o que até demonstra algum equilíbrio nesse pelotão de equipas.

Quanto aos lugares inferiores, e nos quais é travada a batalha pela manutenção, vemos que um pobre arranque é meio caminho andado para se estar envolvido nessas lutas, pois mais de metade das equipas que desceram nos últimos sete anos fizeram 3 ou menos pontos no início. Existem também antecedentes de equipas que terminaram este primeiro sexto com 0 pontos e que não desceram de divisão, pelo que nada está perdido (ainda) para Belenenses e Paços de Ferreira.

 

Aparentemente, e com estes números como base, podemos assumir que há desafios este fim-de-semana que já terão um peso histórico assinalável na projecção do que as equipas intervenientes poderão efectuar até ao final da época:

 - O Benfica precisa de ganhar, não só para se manter na corrida do título mas para se manter na corrida para o apuramento directo para a Champs, sendo que ao Braga basta empatar para não cair fora do critério definido.

 - Arouca, Gil Vicente e Rio Ave "asseguram" a manutenção com um empate, sendo que Olhanense e um de entre Nacional e Académica podem almejar o mesmo feito com uma vitória neste fim-de-semana.

 

Voltando ao que motivou esta análise à distribuição dos resultados, aquilo que depreendemos é que embora existam motivos para algum alarme relativamente aos pontos conquistados até ao culminar do primeiro sexto do Campeonato, há poucos valores numéricos que sejam claramente evidentes de algum tipo de falhanço precoce nos objectivos a atingir, pelo que não concordo com a necessidade extrema que alguns presidentes demonstram em fazer algo que mude drasticamente o rumo da época tão cedo na mesma.

E esta não é uma situação exclusiva do nosso futebol, visto que Europa fora muitos outros treinadores já enfrentaram algumas press conferences sobre pressão. Mas mais do que sacudir essa água do capote, estes treinadores precisam começar a somar pontos ou, pelo menos, a mostar um aumento da qualidade de jogo dentro da continuidade que já mencionei, correndo o risco de já não andarem por cá quando fizermos a análise do primeiro terço.

Nas ditas conferências, vários foram os métodos utilizados na fuga a essa pressão incómoda, mas para mim a melhor foi a de Di Canio. Primeiro porque detalhou ali no momento os make or breaks dos jogos que já disputou, os erros cruciais que motivaram a posição actual do seu Sunderland e todas as contas dos próximos jogos. Em segundo, porque com toda a frontalidade, afirmou que se daqui a 10 jogos o clube estivesse "afundado" então ele seria o primeiro a exigir a sua própria cabeça, mas que até lá seria sempre muito cedo para se fazer um julgamento fundamentado do seu trabalho. Mas acima de tudo, pela forma como finalizou com uma pérola, que não só reflecte o seu posicionamento enquanto treinador mas também a mensagem que passa aos seus jogadores, utilizando aquele inglês-italiano muito próprio (que ouvimos sempre com um sorriso, das conferências de imprensa do Roberto Mancini ao Captain Bertorelli da série " 'Allo 'Allo!") para proferir uma expressão de tranquilidade e de alento para todos os envolvidos:

"Also, Paolo di Canio never worries."

 

Eu também não vejo porque é que mais alguém se haverá de preocupar, pelo menos, neste fim-de-semana.