A Selecção
30
Ago

2013

Ganhar ou não perder?

Por José Miranda

 

Hoje à noite disputa-se em Praga a Super Taça Europeia entre o Chelsea e o Bayern München, naquele que marca o ponto intermédido nos jogos desta semana em que, para alguns treinadores, é mais importante não perder do que ganhar. Ao contrário de outros deportos, muitos dos quais nem o empate permitem, há vários momentos ao longo de uma época em que para uma equipa aquele que costuma ser o principal objectivo - ganhar-  é ultrapassado pelo "calculismo" de não perder.

Excluindo naturalmente os jogos europeus - que obedecem a regras diferentes mas para os quais abrimos aqui uma excepção, porque nos dá jeito - e os das equipas com ambições mais limitadas - que jogam jogos destes semana sim, semana não - é muito raro termos tantos jogos com desfechos que poderão ter implicações significativas no futuro dos seus clubes e de quem os dirige.

 

Na passada 2ª feira, em Old Trafford, tivemos o primeiro exemplo de um destes momentos. E um dos perfeitos, pois a premissa do evitar a derrota a qualquer custo era de extrema importância para ambos os treinadores.

Para Moyes a vitória teria sempre o dedo de Sir Alex em todas as suas vertentes, pois não seriam 3 meses que permitiriam ao novo timoneiro escocês do United impor o seu cunho pessoal. A derrota no entanto, sobretudo com o Chelsea de Mourinho, seria o primeiro abalo da nova estrutura técnica dos vermelhos, a primeira seta cravada no agora chamado "The Chosen One" e a primeira evidência da incapacidade de Moyes para ser a tal solução a longo prazo dos diabos vermelhos.

Para o Zé, o mérito e o valor da vitória seriam sempre diluídos nas culpas que Moyes "teria" na mesma, não alterando em nada a percepção pública da sua persona. No entanto, e em caso de derrota, o seu valor enquanto difference maker iria naturalmente ser contestado pelos media britânicos pois teria perdido para o Man United, mas o de Moyes.

Como vimos dois managers muito mais preocupados em não perder do que em ganhar, tivemos o exemplo perfeito da postura que normalmente gera um nil-nil.

 

Hoje à noite temos um reencontro de velhos "amigos". Com percursos com génese em origens completamente distintas, os homónimos treinadores de Chelsea e Bayern têm já vários pontos em comum ao longo das suas carreiras.

Para o José português, não é tão importante não perder este jogo como era o de 2ªF. As expectativas para a sua equipa hoje, a meio de uma mini-remodelação, são muito inferiores às do ano passado neste mesmo palco contra o Atlético de Madrid. Neste caso, essa aversão à derrota passa mais pelo plano pessoal, onde o Zé não quer acumular mais uma contra Guardiola.

Para o José catalão, este é um jogo que não pode perder de forma alguma. Depois do statu quo atingido durante o seu reinado em Barcelona, e da super-equipa que lhe foi entregue de bandeja pela direcção dos bávaros, o início de época tem sido tremido, tendo já perdido a Super Taça alemã para o rival Dortmund e também pontos numa das duas tímidas deslocações até agora realizadas (e onde descansou meia equipa). Pep não costuma ser considerado um treinador defensivo, mas não tem quaisquer problemas em sê-lo quando necessário, mesmo que disfarçado numa posse de bola mais atrás e sem a progressão habitual. E daqui a pouco será um dos jogos em que certamente iremos novamente ver essa faceta do seu estilo a vir ao cima.

 

Amanhã, em Alvalade, joga-se o mais famoso derby de Portugal. Também aí encontramos um treinador para o qual é muito mais importante não perder do que ganhar. E esse ponto assenta nas ambições declaradas no início da época, de onde retiramos que quando começar a disputa pelos 3 pontos disponíveis há muito mais em jogo para uns do que para outros.

Nas hostes leoninas, Jardim apresenta-se tranquilo para este encontro, com a noção de que a época do Sporting não passa por este jogo e seguro com a comunicação do restante clube por trás de si a condizer com a sua. No entanto, e como Leonardo tão bem sabe, a reacção dos Sportinguistas a uma eventual derrota e ao tipo da mesma é das coisas mais difíceis de prever no mundo.

Do lado contrário, Jesus entra em campo sobre imensa pressão. Após uma pré-época sem brilho e uma entrada muito infeliz no campeonato, só dois Prozacs oferecidos por Marković e Lima já nos descontos conseguiram retirar os adeptos encarnados da falésia da depressão para a qual se estavam a preparar.

Nada que não seja pontuar em Alvalade será aceitável para o Jorge, que até já recebeu o muito temido "voto de confiança" (o primeiro em Portugal feito através da TV do próprio clube) que costuma ser o kiss of death para treinadores na corda bamba. Mas a derrota, mesmo que não o signifique matematicamente, terá sempre a conotação psicológica e emocional do abandono da luta pelo campeonato, para um Porto com um começo auspicioso e que parece ser uma máquina já bem oleada.

E é por isso que há vezes em que é mais importante não perder do que ganhar.