A Selecção
07
Jun

2013

As 1000 palavras de uma imagem

Por José Miranda

 
Todos temos imagens que nunca nos sairão da cabeça. Há imagens, fotografias perfeitas de stills da vida em que cada vez que determinado momento é mencionado ou invocado numa sequência de memórias é-nos quase sempre apresentada imediatamente essa imagem que o definiu. Depois segue-se a natural reconstrução do momento na totalidade mas tudo o que necessitamos para montar longas descrições do evento, o que no fundo acaba por despoletar todo esse processo é aquela slice do espaço-tempo contínuo, reflexo também da forma como funcionamos.
 
Foi em 85, com uns belos 5 anos que retive pela primeira vez um desses momentos.  A cara do Carlão após o golo em Estugarda, não pelo espectacular bigode que ostentava naquela altura mas sim pela expressão facial, que me mostrou o que significava o extâse da vitória, mesmo que naquele momento não estivesse ainda garantida a mesma. Marcou-me o conhecer de uma nova emoção, uma tão forte que tinha que ser extravasada logo ali naquele momento.
Em 88, mais dois momentos. O primeiro negativo, um momento de fraqueza, do make or break em que se revela a verdadeira identidade do líder. Um treinador escondido atrás do banco enquanto os seus jogadores batem os penáltis do jogo mais importante das suas vidas é uma coisa muito triste de se ver. O temor e o receio de alguém que não tem a confiança suficiente na própria capacidade e no trabalho realizado vieram ao de cima ali e a imagem que ficou foi a de um descrente em si próprio, de costas para o jogo, mão na cara, rosto pesado, já vencido ainda antes de o estar.
O outro penso que é transversal a todos os adeptos de futebol e representa o antípoda do anterior. Aconteceu pouco tempo depois quando MVB decidiu rematar aquela bola, daquele sítio, com aquele ângulo e contra aquele guarda-redes.  O brilhantismo do outcome daquela decisão, tomada num piscar-de-olhos pelo tristemente fugaz Marco ensinou-me o que queria dizer audere est facere, mesmo que eu ainda não o percebesse.
 
Desde aí até hoje muitas foram sendo acumuladas, “para mais tarde recordar” como diz(ia) o anúncio, numa gigante base de dados imagética, que vão do JVP em Alvalade a piscar o olho ao Carlos à incredulidade do Roby Baggio de mãos nas ancas e cabeça em baixo, do tufo do Fenómeno em 2002 até à loucura no City of Manchester quando o Sergio matou o jejum no minuto 93, dando lugar a expectáveis banhos de champagne, cortesia do Gallagher mais odiado, na imagem que para mim identifica essa vitória.
A grande maioria delas está ligada a momentos dentro das quatro linhas, frutos de artistas, situações ou embates que tiveram relevância por um qualquer motivo. Outras, uma clara minoria, são utilizadas (de forma injusta pois os jogadores não são julgados apenas por esses highlights que guardamos) quase exclusivamente para definir a forma como olhamos para os mestres da táctica, os donos do balneário, senhores que ostentam aquela braçadeira que diz “Treinador”. A nossa percepção de quem são esses tais de “Treinadores” e de como lideram, não está associada apenas aos resultados em campo (ver Benítez, Rafa) nem ao (in)cumprimento de objectivos, mas sim a momentos em que as sensações que eles despertaram em nós fizeram com que registássemos “lá atrás” uma dessas imagens .
 
Toni foi o primeiro a ficar nesse banco de memória. Allison pela loucura dos métodos utilizados, representados na forma como Roger Spry aquecia jogadores para entrarem em campo, um tal de Sir por festejar todos os golos como se fossem o primeiro da sua carreira de treinador e mostrar um entusiasmo sempre presente e inesgotável. 
O Zé correu 50 metros até à bandeirola. Registado: incontrolável. O Peseiro puxa(va) as calças para cima com o stress. Vinculado: intranquilo. O “nerdismo” do André que ainda vai para os jogos com aquele ar de quem “está cheio de miúfa” de quem ainda se sente deslocado e desconfiado num mundo onde não cresceu. Veredicto: Inseguro.
 
Num futebol em que o papel do líder está cada vez mais identificado como fundamental e a qualidade dessa liderança cada vez mais associada à probabilidade de sucesso, está já enraizada a noção da importância da imagem do líder enquanto factor de coerência da mensagem transmitida. Numa era informatizada e com superavit de informação, as acções e reacções de um treinador são depois transmitidas e retransmitidas infinitamente, vistas por adeptos, fãs ocasionais, pessoas à margem desta realidade mas acima de tudo também pelos jogadores. Devido a isso mesmo, e como o que o Gaffer diz na conferência de imprensa é depois absorvido pelo jogador, talvez já em casa, ao final da noite, sentado no sofá, já com as crianças a dormir, enquanto vê as notícias na SportTV, que faz com que essa mensagem, que ouviu de manhã no balneário, na altura em primeira mão, vá entrando e vá criando, como dizia o Quique, "una ilusión" no jogador, craque ou não convocado, de que aquilo, o que quer que seja, pode mesmo vir a acontecer.
 
São inúmeros os treinadores que hoje abraçam esta metodologia, sendo o Paulo e o Marco os sucessos mais recentes. No entanto, como explana Gladwell no seu muito interessante “Blink!” há decisões que tomamos em milisegundos e que muitas vezes contrariam todas as noções anteriores que transportamos e que causam uma impressão duradoura. É por isso que por mais enfâse que seja dado a este novo tipo de comunicação, e à influência que o mesmo possa realmente ter, uma imagem continua a ter o seu peso. E momentos como o abaixo, normalmente, são aqueles que começam a fazer ruir a base sobre a qual se construiu a tal ilusión.
 
 
Muito foi escrito e dito acerca do colapso de fim-de-ano do Sport Lisboa e Benfica, do que originou esse fracasso, da continuidade ou não de Jorge. Mas há muito pouco que possa acontecer que venha a dissociar a imagem acima da pessoa “Jorge”. Para o bem e para o mal.
 
Porque esta imagem diz muito mais que quaisquer 1000 palavras.